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Emaranhado · Aug 1, 2025

Filmes e masculinidades violências

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Ana Fiori · Emaranhado

Passei o mês de julho na corda bamba entre a tosse alérgica disparada pela queimada no terreno ao lado da minha casa convertida em mais uma infecção de garganta, que me impediu de cair na farra em São Paulo e que se encontrou com uma virose no início dessa semana já de volta a Rio Branco, cujos efeitos impublicáveis reativaram a tosse alérgica. Oxalá, iniciando-se o mês de agosto, sob as bençãos de meu pai Omolu celebrado nessa época, minha saúde possa me estabilizar e me liberar dos remédios, chás, sprays nasais e de garganta e outros apetrechos.

Estou indo pra Salvador, ver meu irmão e cunhada e participar semana que vem da XV Reunião de Antropologia do Mercosul, na qual irei apresentar um trabalho sobre um caso de linchamento aqui em Rio Branco, discutindo-o à luz de análises sobre feminicídio, infanticídio e fake news. Terapeuta me disse que eu tenho medo e ao mesmo tempo fascínio pelo tema da violência, e certamente tem razão. É um tema que tem relevância na minha produção antropológica e em outros campos de atuação. Mas, normalmente quando alguém assume fascínio pelo tema da violência, o que vem em mente são representações viscerais, gráficas, da violência, uma relação inconfessavelmente catártica com os filmes do Tarantino, algo assim. Não acho que seja meu caso.

Com dois colegas, estou tocando um cineclube na Ufac, que agora até tem Instagram. Ao contrário das outras edições do cineclube da Sociais, dessa vez estamos exibindo filmes de ficção. O professor da Filosofia montou a lista de filmes, à qual eu e o professor da Psicologia acrescentamos algumas sugestões. Com participação de estudantes extensionistas, fazemos uma lista tríplice e as pessoas escolhem o filme da próxima sessão. Tem muito mais votos do que público, claro. Até o momento, foram exibidos Clube da Luta, Farenheit 451 (o do Truffault) e Um skinhead no divã. Eu particularmente fiquei atônita do quanto a lista originalmente composta pelo colega da Filosofia - interessado em discutir fascismo, regimes repressivos, direitos humanos e suas violações - é quase totalmente caracterizada por perspectivas masculinas violentas. Acho interessante e provocador adotar essa perspectiva, se se tem clareza que se vai pautar uma discussão sobre matrizes de gênero como estruturantes dos fenômenos do poder, da violência e da constituição de subjetividades destrutivas e autodestrutivas. Mas não foi este o critério que declaradamente guiou a seleção. E, além de talvez uma menção rápida a “masculinidades tóxicas” como algo a riscar da lista de tópicos obrigatórios, os debates tem ido para a conjuntura política, etc. Fosse elaborada uma lista de filmes com protagonismo não masculino (ou de masculinidades não-hegemônicas), certamente este seria um projeto de “gênero”. É um pouco cansativo constatar isso reiteradamente. O que não impede de ser uma boa curadoria e um bom projeto.

Fazia muitos anos que eu não assistia Clube da Luta, que hoje eu não tenho como não considerar um filme francamente misógino, não apenas pela famosa frase de Tyler Durden (Brad Pitt) de que eles são uma geração de homens criados por mulheres (por que será?), mas sobretudo pela construção da personagem Marla (Helena Bonham Carter), como o contraponto feminino autodestrutivo ao protagonista-narrador (Edward Norton). E, talvez seja a idade batendo, não tenho mais o estômago que eu tinha para as cenas de homens se esmurrando e dentes voando.

Não estive para a exibição de Farenheit 451 (eu estava em São Paulo), mas a exibição de Um skinhead no divã foi muito boa, apesar de pouco público. É um filme sueco, feito no início da década de 1990 e dirigido por uma mulher (Suzanne Osten), com o título original Tala! Det är så mörkt (Fala! É tão sombrio), justamente para fomentar o debate público sobre o crescimento da extrema direita florescendo com a xenofobia concomitante ao aumento na quantidade de imigrantes no país. O personagem principal é Sören (Simon Norrthon), um jovem skinhead que entra em um trem após ter levado uma surra e é acudido por Jacob (Etienne Glaser), um psiquiatra judeu sobrevivente de Auschwitz, que se oferece para atendê-lo. Boa parte do filme se passa na sala que é o setting terapêutico, com algumas cenas no quarto de Soren ou em externas, incluindo cenas de violência envolvendo os skinheads. Sören alterna entre querer alguma proximidade, afeto e validação de Jacob e atacá-lo verbalmente por ser judeu, sobretudo quando torna-se vulnerável ao falar da relação distanciada com o pai e seus sentimentos de inadequação. Assistir esse filme em 2025 remete imediatamente à série Adolescência, exibida pela Netflix, cujo terceiro episódio poderia até ter se baseado no filme. Troca-se skinhead por incel e diminui-se a idade do rapaz, mas as semelhanças são perturbadoras. Interessante também essa posição do psiquiatra imigrante judeu e da psicóloga mulher, ocupando essa posição de escuta enquanto objeto de ódio e lidando mesmo assim com possibilidades de algum acolhimento (embora, em Adolescência, não é uma relação terapêutica que se busca).

Das pequenas ironias. Enquanto minha saúde claudica e as discussões sobre violência tem seu lugar, também eu tenho provido algum acolhimento a um macho. De quando em quando aparecem animais abandonados aqui no condomínio, às vezes cachorros, com mais frequência gatos. Atualmente, há um macho mau encarado e briguento rondando por aqui, que bate nas duas gatas da vizinha gateira quando elas dão bobeira (e mesmo assim a vizinha gateira está alimentando o gato brigão e procurando tutor pra ele). As minhas alergias tem piorado, e adotar um gato é absolutamente impensável para mim. O que eu posso fazer é deixar um pote com água fresca aqui na varanda, acessado pelas gatas da vizinha e pelo brigão nesses dias infernalmente quentes. O brigão vem, toma água, deita na minha varanda como o dono do lugar, e grita comigo por não deixá-lo entrar em casa. Quando me vê, vai embora da varanda por um tempo, depois volta. Batizei-o de Boy Lixo e o cumprimento quando o vejo. Se o Fiapo tivesse por aqui, obviamente, o gato nem chegaria perto. Mas meu filho canino - que veio a esta vida a passeio - está lá no sítio com minha mãe e provavelmente não volta pro Acre. Então meu pararraio de tranquera me trouxe um Boy Lixo felino. E eu meio que simpatizo com ele. Se eu não fosse tão alérgica, talvez até adotasse mesmo.

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