Eu, que estou sempre mandando todo mundo se alongar e tomar água, que às vezes faço alongamento com minhas turmas antes de começar a aula e mando um centavo de pix para minha mãe por semana para ela lembrar de beber água ao longo do dia, achei curiosa a pausa para hidratação na Copa do Mundo.
Quando se decidiu que a Copa do Mundo de Futebol Masculino de 2026 seria sediada nos Estados Unidos (além de México e Canadá), já foi profetizado que os EUA estabeleceriam um jogo de quatro tempos. A explicação, cada vez mais óbvia, era a pausa comercial. Mas também, as situações que aconteceram em Catar, a copa de 2022 que não aconteceu em junho-julho justamente por causa do calor, e que levou vários jogadores a passar mal durante os jogos. Tantos trabalhadores mortos nas obras dos estádios daquela Copa não trouxeram muitas preocupações para a FIFA, mas desmaios e tonturas de jogadores, essas commodities, certamente exigiam prevenção.
Ao longo dessa Copa, há alertas de calor extremo e alertas de tempestades, jogo interrompido por causa de chuva. Atravessando o Atlântico, mais uma onda de calor calamitoso na Europa, fazendo com que os franceses tomem banho no Sena (argh) e provocando algumas mortes. Copa do Mundo versus negacionismo da crise climática, este sim um embate épico. A Pausa para Hidratação que não se estendeu ao planeta, no qual 2,1 bilhões de pessoas, uma em cada quatro, não tem acesso regular à água potável.
A Copa do Mundo, como toda droga que combina alucinógenos e estimulantes, exige mesmo muita hidratação para não sobrecarregar o corpo em termos térmicos e renais. As propagandas durante a pausa para hidratação não indicam o consumo de água, esse bem escasso, mas de bebidas alcóolicas e de bets, que desidratam o corpo, o bolso e o juízo. Talvez nem fosse necessária a pausa para hidratação para as propagandas, que tomam conta da narração e dos comentários do elenco dos canais de transmissão e dividem a tela com a cena do campo.
As propagandas de cerveja prometem bem estar, sociabilidade com amizades, bom humor diante de uma seleção que promete pouco. Diminuíram ao longo do tempo a promessa de mulheres gostosas a se oferecerem junto com a bebida, depois de muito protesto e muita gente desmerecendo o assunto. As exortações para beber com responsabilidade e a proibição para menores de 18 anos, ainda que imprescindíveis, são um tanto inócuas. Além da violência doméstica e briga em bares catalizada pelo consumo excessivo de álcool gotejando sobre masculinidades violentas e disfuncionais, acidentes e mortes no trânsito aumentam, ao menos aqui em Rio Branco, com condutores embriagados. Que é, aliás, também uma questão de mobilidade urbana. Aqui a cidade está praticamente sem ônibus, porque a empresa está a decretar falência sem querer remunerar seus funcionários e funcionárias, depois de anos e mais anos de denúncias de irregularidades nos contratos com a prefeitura. A Copa do Mundo exige ao país sede a implementação de larga infraestrutura de mobilidade urbana, que se tornaria “legado da Copa”. Aqui no Brasil para a Copa de 2014, isso virou motivo tanto de chacota quanto de uma quase revolução e a tomada das ruas pela direita. A leveza prometida pela cerveja nas propagandas da Copa pesa.
Não me entendam mal. Eu gosto de cerveja também. Mas, tendo perdido um irmão para um acidente de carro e meu pai para o álcool, meu apreço não é ingênuo ou inconsequente. Eu não acredito em promessas.
As bets que tem individado de maneira acelerada os brasileiros (sobretudo no masculino) e erodido anos e anos de políticas de bem estar e redistribuição de renda prometem coisas muito mais graves. Prometem uma racionalização dos riscos e ganhos que é enganosa e que fala ao ego ferido de quem viu seu poder aquisitivo diminuir, ou não alcançar os bens de consumo que passou a desejar. Unem um pseudoconhecimento de futebol, no caso da Copa do Mundo, a um pseudoconhecimento de probabilidades, um sentimento angustiado de impotência e o puro pensamento mágico, legitimado por discussões sobre odds na transmissão e influenciadores de lifestyle propagandeando tigrinho em esquema de pirâmide. Nas minhas madrugadas insones jogando Candy Crush, as propagandas de tigrinho me acossaram como uma psicodélica janela para o inferno, lembrando alguns filmes de terror dos anos noventa, como Event Horizon e O Último Portal. Eu embaraçosamente já gastei dinheiro com Candy Crush, mas sei que ele não me promete nada além de frustração e embotamento (não é um alucinógeno ou estimulante, é um sedativo).
Devo ter assistido a mais da metade dos jogos até agora, pois se eu não estou em aula ou reunião, ou na igreja, em geral andei trabalhando com a televisão ligada. Torci pelo Brasil e pelos países latinoamericanos (incluindo a Argentina, porque eu acho que essa pirraça já perdeu a graça e eu gosto do Messi). Torci por Curaçao e por Cabo Verde e, como o Brasil, me apaixonei por Vozinha e desejo uma vida abundante e feliz para ele e todas as gerações que vierem depois dele. Tenho sentimentos ambivalentes pelo Ancelotti, e suspeito que ele optou por fazer concessões contrariadas nessa Copa para tentar ter liberdade para montar um elenco coerente para o próximo ciclo. Acho o Neymar uma metástase do câncer que acomete a CBF, tumores de corrupção, hubris e mal-caratismo oportunista. Como disse a comentarista da Globo, entrou para criar briga, e só, no jogo contra a Noruega. Ganhou um pênalti de presente para marcar seu gol na Copa e se achou no direito de ir infernizar o goleiro norueguês, que fez uma boa partida. Neymar há mais de dez anos sufoca a seleção que, mesmo assim, consegue abrir frestas para atacantes melhores, como o próprio Endrick (que foi dar esporro no Neymar), Rayan e Vini Jr. Obviamente, o problema da seleção nessa Copa não foi o jogador funcionário do Banco do Brasil em home office, foi principalmente um meio de campo fraco e uma defesa desorganizada, com atuações irregulares de Danilo, Casimiro, Paquetá. Tive pena do Bruno Guimarães, colocado de bode expiatório para bater aquele pênalti, nitidamente nervoso e despreparado. Dito isso, perdemos do jeito que perdemos quando Rayan saiu e Neymar entrou. Passamos uma parte do segundo tempo em 11x10 em campo. E perdemos. Logo após a pausa para hidratação.
Não obstante, desde 2010, pelo menos, é nítida a construção de subjetividades infantilizadas, desorganizadas, pouco resistentes à frustração, sem brio nas sucessivas gerações de jogadores convocados. Antes de Neymar, Robinho, Kaká e outros supostos talentos individuais salvadores da amarelinha não seguraram a onda e levaram suas falhas e faltas para vestiários, CTs e campos. Longe de mim elogiar o caráter de Romários da vida (que enquanto senador da república virou comentarista e não perdeu a oportunidade de ser machista com a jornalista esportiva), mas as gerações de 1994 e de 2002 não eram infantilizadas.
Foi uma pena a eliminação do México. O país enfrenta protestos ao longo da Copa do Mundo, como o Brasil enfrentou, diante de seus próprios problemas e contradições. Imagino que lá, como cá, muita barbaridade tenha acontecido para a realização da Copa. E, mesmo assim, e por causa de tanta adversidade, é um país que sabe fazer festa e se alegrar com futebol. Estados Unidos e Canadá não sabem, ainda que a seleção canadense tenha dado um salto na última década. Eu teria ficado feliz com o país sede avançando oitavas, quartas, semi, final quiçá. Não tinha time para isso. Mas teria sido bonito.
Meu palpite é que a França leva. Jamais vou torcer para a França. Mas gosto do Mbappe, um cara que aparenta ser bastante íntegro e é um belo jogador. Eu prefiro Argentina ou Marrocos. Não vou perdoar os EUA por ter me feito torcer para a Bélgica. Hoje não tem jogo. Pausa para hidratação.
Ano que vem, a Copa do Mundo de Futebol de Mulheres é no Brasil. Vai ser bonito ver pessoas adultas em campo. Esportistas. Atletas.
E sim, o Haaland parece o Majin Buu do Dragon Ball Z.
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