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Emaranhado · Jul 25, 2026

Lollapalooza da antropologia 2026

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um resumo afetivo

Há vinte anos, estive em Goiânia para a Reunião Brasileira de Antropologia. Eu estava na graduação, em vias de terminar meu primeiro ano de iniciação científica, uma pesquisa sobre a relação entre pessoa e personagem entre jogadores de rpg. Meu futuro orientador de doutorado e desde aquela época meu “mestre dos magos”, José Guilherme Magnani, pagou minha passagem com a condição de que eu escrevesse um relato. Naquela pindaíba de bolsista, arrumei um canto barato para dormir e fui a pé desde o aeroporto, mochila nas costas, sob o sol inclemente do Centro Oeste. Assisti dezenas ou milhões de apresentações de pesquisa, não lembro bem, sobretudo do grupo de trabalho de antropologia da performance, que já mantinha parcerias entre o Núcleo de Antropologia da Performance e Drama, o napedra-usp, e professores da UFG. Eu lembro mais da sensação de alegria do que das discussões teóricas, a bem dizer. Congressos científicos pareciam a coisa mais legal da vida acadêmica. Lembro também de tomar sorvete de cupuaçu.

Esse ano a Reunião Brasileira de Antropologia, que é bienal, voltou à Goiânia, agora no campus Samambaia. Durante o congresso completei sete anos no Acre, como Professore da ufac. Se não tenho o mesmo encantamento de vinte anos atrás, ao menos havia me proposto a curtir o evento, reencontrar amigues e colegas que fizeram parte do meu dia a dia acadêmico em diferentes épocas e que eu praticamente só vejo hoje nas redes sociais. Romper uma atitude de certa reclusão acadêmica que eu mantive nos últimos dois ou três anos, superar alguns desgastes, colocar a cara no sol. Um pessoal da pós graduação da USP havia me convidado para dividir um airbnb e eu achei ótimo, por ser mais econômico e trazer um certo clima de república de que eu sinto falta às vezes. Nas nossas peregrinações para achar lugar pra comer com opção vegana, paramos uma noite num parque de diversões com um Bumblebee transformer gigante, usando chapéu de palha. Nas outras noites, o destino foi a famosa rua 08, reduto lgbt, ou, como definiu um motorista de aplicativo, “rua das tranqueiras”. Tranqueira é um apelido carinhoso que eu uso sempre.

No dia da abertura, fiquei emocionade com alguns dos abraços que reencontrei, de ex colegas e de ex professores. Uma amiga, professora de outra Federal atualmente, disse que o doutorado foi a época mais feliz da nossa vida adulta, com tempo pra estudar e pesquisar, ainda que a grana fosse sempre curta. É possível. Outro amigo ficou rindo, lembrando-nos das tosquices (em alguns casos, trotskices) do Centro Acadêmico. Além das nostalgias, das atualizações da vida e das fofocas sobre as políticas internas da Associação Brasileira de Antropologia, das premiações e dos departamentos aqui e ali, sempre há aquela indicação de leitura, ideia, sacada ou debate aprofundado que resolve impasses num estalo. Me permiti o encantamento de crer que ainda faz muito sentido estar entre pares, em contraste com o isolamento que eu experimento na minha vida profissional cotidiana atualmente.

Aconteceram encontros curiosos, que me lisonjearam. Gente que cursou minhas disciplinas na pós na usp e na ufrgs, agradecendo e dizendo que lhes havia ajudado. Gente que viu aulas minhas no YouTube, dizendo que lhes ajudou na prova de mestrado. Gente que gostou dos desenhos e da estrutura fractal maluca da minha tese de doutorado. Meu orientando de TCC na ufac que agora inicia mestrado na ufam, acompanhado da esposa.

Eu queria ter proposto um mini curso sobre fabulação especulativa, mas as regras de inscrição dessas propostas exigiam pertencimento em comitê. Minha inserção na Aba não é tanta assim. Je suis desolée. No final, apresentei uma comunicação no grupo de trabalho Ensinar e Aprender Antropologia, sobre práticas de campo em disciplinas de teoria antropológica. O gt trouxe trabalhos interessantes, sobre ensino de antropologia para outras áreas, como saúde, engenharia de alimentos, para a licenciatura, sobre atividades de extensão, sobre currículo na graduação. Alguns trabalhos com certa fé missionária no poder transformador na educação, que eu acho pastoral demais. Eu prefiro meu pessimismo caxias, mas não faço proselitismo. Assisti a algumas atividades do pessoal de antropologia do esporte, que sempre me adota nos congressos e são meu xodó. Vimos as semi finais da copa. As desafetas mantive longe, porque a melhor forma de evitar assombração de banheiro é não repetir nomes.

Na semana seguinte, viajei para São Paulo, para a banca de defesa de doutorado de um amigo, parceiro de uma década da revista Ponto Urbe e colega de grupo e pesquisa. Uma pesquisa que eu vi nascer, se transformar, agora no mundo. Aproveitei pra rever outras amizades, cuidar de outras coisas de trabalho, fazer check-up na ginecologista e terminar minha tatuagem de raposa.

Ontem recebi a sentença do processo por danos morais que movo contra um colega. Cabe recurso ainda. Mas a sentença reconhece o caso como violência de gênero. Isso, por si, é uma vitória. Mas, como diria o mestre Rui Chapéu, só canta a caçapa quem tem certeza.

Em tempo, achei A Odisséia uma bosta. Só gostei da cena da caverna de Polifemo. Talvez eu escreva sobre isso ainda. Nolan embusteiro redpill. Desagradei dos gregos enquanto agradei dos goianos.

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