Eu vi uma piada besta no Instagram que realmente me fez rachar de rir:
“Eu sou bipolar e bissexual, ou seja, os ‘bi’ se cancelam e eu me torno polarsexual, gosto apenas de climas gelados”
A pessoa autora da piada é mais otimista que eu, que não gosto muito de frio. O meu cancelamento dos dois “bi” resulta apenas na vastidão gélida da minha vida amorosa.
Eu visto a camiseta da bissexualidade tem uns bons vinte anos, me reconheci bissexual quando estava na faculdade, em um relacionamento heterossexual, e sofrendo de paixonites por meninas de outros cursos. Retrospectivamente, era fácil lembrar de atrações por meninas, incluindo a coleguinha do jardim que foi a minha melhor amiga. Na faculdade, caiu a ficha sobretudo pela convivência com amizades LGBT e sucessivos experimentos. Intensos em algumas fases, escassos na mior parte do tempo. Assim, alguns namoros, pessoas ficantes regulares, contatinhos e noites aleatórias nessas duas décadas talvez caracterizem minha vastidão gélida mais como uma tundra do que como o Polo Norte ou Sul. Melhor não depender do Papai Noel ou dos pinguins.
Nesse mês do Orgulho LGBT, apareceram nas minhas redes propagandas de diferentes lojas de camisetas com tiradinhas sagazes. A minha favorita é uma com o triângulo da bandeira de MG e o texto “Bi, sexy e Uai - Minas gerais e manos específicos”.
Eu ri, adoro um trocadilho besta.
Há várias camisetas nas quais se lê: “bissexual, com preguiça de homem e medo de mulher”. Mais fiel no meu caso talvez fosse: “Bissexual quarentone, com muita preguiça e um pouco de medo”. Por isso, óbvio, que o rótulo pansexual jamais se aplicará a mim, que não tenho toda essa pretensão. Aliás, a melhor distinção que eu li na internet entre bissexualidade e pansexualidade é que uns crescem do teto e outros crescem do chão.
Bis e pans em Bonito, MS
Mas o fato é que a bipolaridade me ocupou muito mais nas últimas duas décadas que a bissexualidade. Vários sinais manifestos desde a pré-adolescência, como tristeza persistente e alteração de sono, que se desdobraram na adolescência em insônia, dor de cabeça constante, comportamentos impulsivos e autolesivos. Coisas que eu atribuía a eventos biográficos, não exatamente a um quadro de adoecimento (meus pais gozaram do monopólio do adoecimento psíquico, afinal). Já na faculdade, pela primeira vez eu tive a coragem de procurar ajuda profissional, de psicóloga e depois de psiquiatra, e aí choveram tentativas diagnósticas e intervenções mal sucedidas. Não tenho lembranças positivas dessas tentativas, mas foi uma saída do armário da neurodivergência, ainda que vivida apenas como adoecimento, não como diferença. De um documento de um prontuário médico meu no Hospital Universitário consta o diagnóstico de Transtorno Afetivo Bipolar (creio que o afetivo caiu da nomeclatura agora, uma vez que a nosologia tem ido além do campo da regulação emocional), que possivelmente não é o mais acurado, mas é o que eu resolvi adotar. Como a bissexualidade e, na última década, a não-binariedade (eu pessoalmente sempre gostei mais de queer, mas acho que assumir um rótulo com um bi acompanhado de um sinal negativo possa alterar de modo interessante a equação dos outros bi).
No início do mestrado eu comecei a fazer terapia e, com mudanças de ritmo, localidade, pessoa e compreensões de lá pra cá, além de uma pausa de três anos, faço terapia até hoje. Nos últimos nove meses, busquei novamente tratamento psiquiátrico e estou fazendo uso contínuo de antidepressivo. O que significa, também, que há nove meses não consagro Daime na igreja que eu sigo há quatorze anos e na qual eu sou fardade há sete anos, interrupção que tem sido uma experiência de aprendizado existencial e espiritual importante para mim. Gosto de destacar isso às vezes em conversas, porque muita gente conversa comigo sobre as potencialidades da ayahuasca no tratamento da depressão, que tem sido tema de pesquisa em diferentes campos disciplinares, e porque muitos profissionais de saúde mental e dirigentes de religiões que consagram ayahuasca recomendam que pessoas com transtorno bipolar não tomem o chá ou o tomem apenas em microdosagem. Eu não tenho autoridade religiosa ou profissional para informar ninguém, posso apenas eventualmente comentar minhas experiências. Nesse momento, sigo acompanhando as cerimônias e desempenhando meus deveres como uma irmã fardada, com as minhas falhas e acertos, e tomando antidepressivo para me ajudar depois de 2024 e 2025, dois anos que basicamente foram um moedor de carne para mim.
Resolvi escrever sobre isso aqui porque passei uma semana muito desregulade. Dias de muita insônia à noite e sonos aleatórios ao longo do dia, lapsos de memória, comportamentos impulsivos, impulsos autolesivos, crise forte de enxaqueca, muito desânimo e procrastinação e um que outro pico de energia. Seguindo, na medida do possível, minhas obrigações. Dei aulas (com enxaqueca), tive reuniões de orientação com alunes, encaminhei burocracias acadêmicas. Participei da Comemoração de São João na igreja. Paguei boletos. Fui um dia no Pilates. Os cuidados com a casa ficaram negligenciados, mas nos picos de energia cuidei de limpeza e roupa (além de preparar um macarrão ao alho sem vergonha, brigadeiro e outras escolhas culinárias duvidosas). Estou furiose comigo mesma porque perdi o carregador do notebook e vou ter que gastar dinheiros desnecessauros para comprar outro. O saci sempre se aproveita das minhas desregulações, esse sapeca.
Voltando da lixeira do condomínio durante a limpeza do ap de hoje, fiquei pensando que eu aprendi a usar bem esses picos de energia para resolver pepinos quando estou desregulade, o que me garante suficiente funcionalidade adulta nessas fases. Navegar a bipolaridade é isso também. Tentar manter a regulação, prevenir danos da desregulação e passar pela desregulação manejando seus efeitos. Como diria o poeta, c’est pas facile, mas segue o jogo. Estou há vinte anos aprendendo a fazer isso, e acho que não me saí tão mal até agora. Minha autoestima sofre bastante, e parte desse aprendizado é não deixar a frustração tomar conta. Certamente, há muito a aprender ainda, incluindo modos de me abrir para futuras relações amorosas, sair da tundra, porque amar é um deserto em seus temooooores… Eu e Santo Antônio temos uma relação idiossincrática. E potenciais pessoas interessadas costumam se afugentar com as minhas esquisitices. Todo mundo é red flag na história de alguém.
Sair do armário em sexualidades dissidentes e neurodiversidades sempre cria pontos de ataque e categorias de deslegitimação. Eu falo abertamente para minhas turmas de estudantes que sou bissexual e bipolar, não para parecer interessante ou justificar minhas trapalhadas, mas para tranquilizar pessoas e turmas que estão saindo de armários e em que os laudos de neurodivergência começam a se tornar mais e mais visíveis e constitutivos da experiência educacional. Vejo estudantes passando por suas descobertas, quase sempre com uma dose grande de sofrimento, porque afinal de contas, são diferenças cujo aprendizado e manejo não são fáceis, exigem ajuda em diferentes esferas, nem sempre acessíveis, nem sempre nítidas para quem vive e para quem convive.
Esse texto foi, claro, escrito por impulso, enquanto eu espero a máquina terminar de bater a roupa, para que eu possa estender e sair para comprar o carregador do computador e trabalhar (tenho quatro projetos de iniciação científica de estudantes para revisar e subir na plataforma HOJE). Estou me sentindo meio merda e pensei que escrever talvez me fizesse sentir um pouco melhor. Vai saber…
No posts

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.