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Emaranhado · Nov 12, 2025

O ano acabando e o semestre começando

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E eu seguindo aos trancos e barrancos

Tenho frequentado pouco o Substack, seja para ler textos das contas que eu sigo ou que são compartilhados e chegam a mim, seja para escrever. Nos últimos meses, minha saúde mental andou pedindo mais atenção e, chegando em novembro, cedi à necessidade de buscar cuidado psiquiátrico e tomar medicação, o que eu não fazia há doze anos. Quem me conhece sabe o quanto esta é, para mim, uma medida extrema. A gota d’água foi ter que lidar com um colega, que há anos exibe vastos comportamentos de instabilidade e adoecimento psíquico, emitir em setembro no sistema da universidade documentos me ofendendo e me acusando de coisas absurdas, sem que a universidade tome qualquer tipo de providência, a despeito da minha queixa à ouvidoria e o registro de um boletim de ocorrência na delegacia. E não é a primeira vez. Nessa semana, depois de ter que ouvir as mesmas ofensas na audiência de conciliação sem que o conciliador intervisse, decidi entregar o caso a um advogado. Tempo, desgaste emocional e dinheiro canalizados para essa demanda.

A psiquiatra que me atendeu queria me afastar do trabalho. Eu pedi que não o fizesse, porque eu precisava garantir que as turmas de estágio conseguissem encaminhar a burocracia para iniciar sua imersão nas unidades escolares o quanto antes, para conseguir cumprir a carga horária, uma vez que estamos iniciando o 2º semestre de 2025 em novembro (ainda como efeito da pandemia + greve do ano passado), e as escolas entram em recesso depois da segunda semana de dezembro. Eu estou na coordenação de estágio do curso. A medicação deu uma segurada na ansiedade e desconforto que eu tenho sentido ao chegar à universidade, e estou tocando três disciplinas, tentando dar boas aulas e a atenção que as turmas precisam. Acompanhando meus orientandes de iniciação científica, TCC e mestrado. Dei uma pausa com os projetos de extensão. Tenho alguns artigos para entregar este ano, mas nesses eu não tenho conseguido mexer. Ontem pedi uma dilação de prazo para os organizadores de uma coletânea, que gentilmente concordaram. Espero que aos poucos eu me ajuste à medicação e consiga ter mais agilidade cognitiva para voltar à escrita. É um pouco por isso que eu abri o substack hoje.

Estou dando Teoria Antropológica I para o primeiro ano esse semestre, e é a primeira vez em anos que eu tenho uma sala cheia e uma turma participativa. Meu impulso é pensar que se trata de uma turma que já fez o Ensino Médio depois do isolamento, e pegou certo ritmo de atividades presenciais antes de ingressar na universidade. Entretanto, as pessoas mais engajadas nessa aula são mais velhas, e provavelmente não tiveram a experiência de escolarização afetada pela pandemia. É intrigante essa diferença entre turmas (ano passado dei a mesma disciplina e eu praticamente tinha que implorar por presença e atenção).

Teoria Antropológica I é uma disciplina desafiadora, porque em nosso PPC cobre evolucionismo, culturalismo e estrutural-funcionalismo, escolas de teoria antropológica do final do século XIX e início do século XX, e nem sempre é claro para estudantes do primeiro ano porque estudar esses autores “antigos”, cuja teoria aparentemente não tem muita aplicabilidade nas pesquisas contemporâneas. Ontem, durante a aula sobre Henry Morgan e Edward Tylor, uma aluna perguntou porque afinal eles tinham que aprender isso, e eu dei uma resposta um pouco automática, sobre a necessidade de entender de onde vem as questões e métodos da antropologia, e como essas teorias evolucionistas ainda permeiam muito da nossa visão de mundo e da história. Ela não se convenceu muito. Nem eu. Temos um currículo apertado, afinal. Há muita coisa que não conseguimos trabalhar em disciplinas na graduação, que talvez fizessem tão ou mais sentido do que essas disciplinas obrigatórias de caráter histórico. Estamos em fase de reformulação do PPC e é sempre bom repensar o currículo. Tenho fuçado nos currículos de outros cursos para ver diferentes arranjos, que contemplem também a necessidade de curricularização da extensão e de estágio desde o primeiro ano para as licenciaturas.

Para explicar a diferença entre parentesco classificatório e parentesco descritivo, em geral eu desenho a árvore genealógica da minha própria família, desde meus avós. Na primeira vez, pedi aos alunos se alguém poderia descrever a própria família e ninguém quis. Aí eu uso a minha mesmo. Sempre faço uma piadinha sobre meu pai e seus oito irmãos, com exceção do caçula, terem nomes começados com W. Estudantes sempre ficam curiosos e constrangidos com a discussão sobre quais os primos que se pode casar e não se pode casar, quando explico primos cruzados e primos paralelos. Ontem fez 23 anos do falecimento do meu pai. Tem certa justiça poética estar lembrando dele em uma aula na universidade sobre teorias do parentesco do século XIX. Explica Freud.

No mestrado da Artes Cênicas, estou dando Seminário de Pesquisa, junto com uma colega do curso de Letras. Brinquei com a turma, dizendo que teriam aulas de metodologia com gente que não é das artes, que estávamos invadindo o curso. Também uma turma animada. Essa semana, segunda aula, decidi fazer como atividade um jogo das vinte questões. Existem duas versões do Jogo das Vinte Questões. A que a maioria das pessoas conhece é aquela que cada jogador cola na testa um papel com algum personagem, ser ou objeto escrito, e tem vinte questões para adivinhar o que é, com respostas “sim” ou “não”. A outra é a utilizada para construção da história de personagens em jogos de RPG. Além da ficha de personagem, com atributos e características, habilidades, poderes e fraquezas, a partir das regras de cada RPG, alguns jogos propõe que jogadores e jogadoras respondam a vinte questões que contam a história pregressa de personagem, suas motivações e medos, como aprendeu as coisas que sabe, relações com outras pessoas que compõem aquela ambientação do jogo, etc. Aparentemente, essa técnica de construção de personagem vem dos teatros de improviso. Eu decidi montar um Jogo das Vinte Questões com questões sobre os projetos de pesquisa de cada pessoa da turma, antes de entrarmos em discussões mais mecânicas sobre problema, objetivo, justificativa, metodologia, etc. Estou curiose para ver se vai funcionar. A aula será na sexta.

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