Estou empacade há uns quinze dias na fase 18394 do candy crush. Não tem boost periódico que me salve. Mesmo assim, assisto todos os vídeos de propaganda, na esperança de que um brigadeiro, bombom explosivo ou disco voador resolvam todos os blocos que eu tenho que estourar para libertar os dragões draganulados cor de rosa.
O disco voador que resolveria mesmo é a nave mãe vindo me buscar.
Alguns dos vídeos de boosters simulam jogos da memória de oito peças (quatro pares) ou quebra cabeças de nove peças. Eu não jogava, até perceber que é mais rápido resolver o puzzle do que esperar o contador de tempo do anúncio. Marketeiros me ganharam pelo pragmatismo de um viciado com fissura. Podem então apresentar bons índices de engajamento de suas marcas.
Os anúncios variam com o horário e, por vezes, trazem coisas estranhas, como localização de lojas de estofados na Bélgica. Sim, eu gostaria muito de um sofá novo no qual eu coubesse deitada ( o perigo, minha gente!), mas acho que a loja da Antuérpia não entrega no meu bairro em Rio Branco. E os modelos não me impressionaram muito.
A ex bbb ruiva minha xará aparece sentada em outro sofá, explicando alguma coisa de aplicativo de investimentos. Como está no mudo, não faço ideia do que ela diz. Eu sou proletária e franciscana, não sei fazer meu dinheiro trabalhar por mim, só pros outros. Em aplicativos de delivery de comida, sobretudo.
O Google me pede para comparar duas fotos, talvez tiradas do carro do street view, ou por um pombo disléxico com uma go pró e uma lente olho de peixe opcional. As duas fotos são do mesmo lugar? Às vezes eu respondo certo, às vezes não. Há algo meio vouyer nessas fotos. Espiar a mudança da placa da loja de acessórios de celular ao lado da retífica em uma cidade que pode ser em Santa Catarina ou Ceará. Quatro respostas me garantem um booster.
Estar empacado no candy crush significa que algo na vida está empacado. O candy crush é o oráculo do fluxo cósmico. É um sismógrafo às avessas, detecta a imobilidade das placas tectônicas da vida. Ele tinha sinalizado tendência que eu sairia da depressão, mas me empacou de novo. Eu insone, impotente, mendigando vidas a desconhecidos adicionados ao longo de mais de uma década.
Até estou com outro livro iniciado pra tentar seguir e chamar o sono. Pego o celular pra ler e de fato abro o candy crush. Já chegaram novas vidas? Novos boosters? Ainda não. Talvez eu abra o sudoku. Uma notificação me chamou para o substack. Vou postar sobre o candy crush. De novo. Porque falar do que está acontecendo não dá. Amanhã é sábado. Não preciso ligar o despertador.

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