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Emaranhado · Apr 22, 2026

MEC Livros salvador e o Acre fora do acre

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Ana Fiori · Emaranhado

Devo ter recebido ao menos uma dezena de mensagens encaminhadas anunciando a criação do MEC Livros. O cinismo tedioso me fez ignorar as primeiras mensagens, duvidando que qualquer um que tivesse encaminhado teria sequer acessado o link compartilhado. É por isso que eu posto em meus status memes e tirinhas, pensei comigo, as pessoas riem, ou não, e nada mais. Disse a uma amiga que encontrei na Bienal de Livros de Salvador, terra chuvosa em que passo as férias, que nós havíamos queimado a largada da sociabilidade na internet no início dos anos 2000, e ainda não curamos a ressaca que cortou a nossa brisa ainda na época do Orkut. Classe nérdia sofre. Fui à Bienal de Livros, aliás, meio à contragosto, com preguiça de muita gente e ainda chateade de não estar conseguindo ler muito, mesmo tendo mais uma vez ajustado a medicação. Mesmo assim, comprei três livros que eu queria há tempos: Performances do Tempo Espiralar, de Leda Maria Martins, que é um lindo livro filosófico/antropológico/artístico/literário que eu tenho discutido com alguns alunes; O desejo dos outros: uma etnografia dos sonhos yanomami, de Hanna Limulja, cujos trechos que eu li me instigaram e podem ainda me ajudar a entender algumas questões que tenho tido com oneiros desde que eu parei de consagrar daime e entrei nos antidepressivos; e As Estruturas Elementares da Violência, de Rita Segato, cujo feminismo é um tanto essencializante para o meu gosto, mas tem me ajudado a pensar os casos de feminicídio que acompanho, entre outras coisas. Quase comprei o Descolonizando Afetos, da Geni Nuñez, mas algo me disse que o livro ia me irritar como o Tudo sobre o Amor, da bell hooks, que eu achei terrivelmente prescritivo e pastoral (me julguem). Na dúvida, baixei o livro e o li. Achei o livro menos prescritivo do que eu esperava, e de modo geral concordei com as colocações de Geni Nuñez, mas ainda assim há certo didatismo que me incomoda. Talvez eu não seja a melhor leitore de livros sobre amor.

Entrei no link do MEC Livros, baixei o app, etc. O login de cadastro é pelo Gov, e aparentemente o login do Gov tem sido o pesadelo de muita gente. Eu entro no Gov várias vezes por semana para assinar documentos, então a minha memória de pudim consegue preservar a senha sem dor de cabeça. Uma vez instalado o app no celular, ele parece bastante intuitivo, lembra um pouco a interface de um streaming, colocando sugestões de livros com capa, título e autor em carroséis rotulados como “em alta”, “best-sellers”, “páginas nordestinas”, etc. A ferramenta de busca oferece 19 categorias mais parecidas com as de uma livraria ou biblioteca, por gênero (mas não autor, nacionalidade, período…) e um campo para digitar as palavras de busca. Na aba estante, há o “lendo agora”, “lidos”, “meus livros” e “favoritos”. Ao selecionar o livro, você recebe a informação de que tem 14 dias para ler, e pode renovar ou devolver após esse período. Descobri que não se pode devolver antes. Quer você empreste Tolstoi ou um hai kai, você vai ter que estar “lendo agora” por 14 dias, e não pode emprestar outra coisa até devolver. Ou seja, nada de leituras simultâneas ou empréstimos para consultas. Imagino que seja um mecanismo para evitar que usuários inflem suas performances e as empresas que cederam os títulos amplifiquem acessos para gerar remuneração (os critérios de remuneração ainda estão obscuros, vale ler Quanto Vale o MEC Livros? no substack LiteraturaBR). Mas eu sinto um pastoreamento escolar antiquado, “não vai sair da mesa até comer/ler tudinho”.

Eu não sei se o servidor do MEC Livros sobrecarregou ou a internet do meu irmão que estava ruim, mas quando abri o app pela primeira vez eu praticamente não estava conseguindo acesso ao catálogo. No gênero “literatura”, os títulos estão sortidos por ordem alfabética, incluindo artigos e preposições iniciais, então mal e mal eu consegui ver os livros iniciados em números e com a letra A. Às voltas com a minha situação laboral e existencial, pareceu-me irônico então encontrar um livro de capa verde amarelada chamado Acre, de Lucrecia Zappi, publicado pela Todavia em 2017. Não conhecia a autora até então. Li a sinopse, dei de ombros, solicitei o empréstimo e o li em coisa de dois dias, aguentando o tempo de castigo até a devolução como quem espera novas vidas no Candy Crush.

Acre, o livro, tem suas surpresas. A primeira delas, e mais importante, aliás, é que o livro não é sobre o Acre e não se passa no Acre. Um pouco como a Revista Piauí e o podcast Foro de Teresina. Afora uma referência esquisita a Manoel Urbano e a relação de Nelson, um dos personagens que compõem o triângulo amoroso da trama, com madereiros, Acre continuna sendo apenas uma referência longínqua e meio irreal, local de fuga e degredo. A geografia de Lucrecia Zappi se constrói pelas ruas e canais de Santos, nas quais os personagens Oscar, Marcela, Nelson conviveram na adolescência até a fuga de Marcela e Nelson após a morte misteriosa do namorado de Marcela; e da Vila Buarque, bairro do centro de São Paulo, onde Oscar e Marcela, casados, moram em um condomínio (coincidentemente vizinhos de apartamento da mãe de Nelson) habitado por diferentes tipos da classe média paulistana, e trabalham (ele herdeiro da loja de lustres do pai, ela em um restaurante). O que move a trama é justamente o retorno de Nelson do Acre e os efeitos que sua volta tem sobre o narrador, Oscar (que tomou uma surra de Nelson na adolescência em uma rusga de surfistas), sujeito adulto meio frustrado, meio acomodado, e a distante Marcela (que se recusa a contar para onde fugira com Nelson na adolescência e que, ao retornar, engravidara de Oscar, levando-os ao casamento). Nelson continua algo intratável ao retornar para morar com a mãe, supostamente após perder o emprego como engenheiro no Acre, o que piora a suspeição de Oscar. Quase um Dom Casmurro, em que casmurros são todos os personagens e o filho sequer chegou a nascer. Falando em Nelson, há ares rodrigueanos na prosa também, nas tensões sexuais e tesões mal sucedidos no triângulo amoroso. E um quê de romance policial, vindo do síndico Adriano, médico truculento e síntese do neofascismo brasileiro, e do sujeito boliviano que penetra sua festa de aniversário em busca de Nelson. Li algumas resenhas elogiosas ao livro, mas a minha simpatia por ele não foi tão longe. Enfim, foi minha estreia no MEC Livros.

Agora emprestei A Repetição, do Pedro Cesarino, professor de Antropologia da USP, algo entre literatura e antropologia, diz a sinopse. Há boas e más experiências assim. As más, em geral, provém de uma ocultação deliberada da erudição orgulhosa para emular vozes de outros registros existenciais. Tem muita gente, acho, tentando matar o Guimarães Rosa dentro de si, usando como arma a língua do Oswald de Andrade. Freud explica. Vejamos como este livro se sai.

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