Minha pequena fechou os olhos, mão sobre o peito.
“Dinda, vou tentar dormir um pouco agora. Cobre minhas pernas?”
As janelas do hospital eram maiores, o peitoril mais baixo, na construção original. Era um hospital de freiras. Não sei o que chegou primeiro, a laicidade ou o meio metro de tijolo, rebocado por dentro. Do lado de fora, uma pomba sentou e conversa sozinha. Eu a vi ao chegar ao quarto da ala São Francisco. Nem tão laico assim o hospital. Nenhum hospital é, provavelmente.
Entre o luto que começa a chegar, os incômodos sem fim do corpo machucado, a ansiedade pelo passado e pelo futuro, minha pequena busca o sono. Talvez o maior conforto para este momento de espera.
A chuva forte ontem a noite redemunhou os tempos, lembrando-nos (como esquecer?) da enchente que completou dois anos. Voltando do hospital a noite, era difícil ver a estrada, confundida no aguaceiro e nas memórias. Mais coisa aconteceu em dois anos do que a própria chuva pode lembrar. Minha mãe disse que depois sonhou com minha avó, nos levando para casa.
Aos poucos sai sol de manhã. Talvez seja com ele que a pomba conversa. Mina pequena sente calor e frio ao mesmo tempo. Agita os dedos dos pés para fora do lençol, seu corpo conversa consigo mesmo, lembrando e esquecendo. O sono enfim veio.
Hora de apanhar o rosário de madeira e agradecer em silêncio, ao sol, à chuva, à pomba e a Deus.
No posts

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.