Ipês nascem em diferentes biomas brasileiros, Mata Atlântica, Cerrado, Amazônia. Enfeitam de cores florestas e cidades, com suas floradas brancas, amarelas, róseas e rosas, principalmente entre junho e setembro, meses frios em certas partes do país, secos em outras partes. Atingem mais de 20 metros de altura, destacando-se na paisagem da Serra do Mar de minha infância, das matas gaúchas de minha adolescência, das preciosas vias arborizadas de São Paulo, e até aqui em Rio Branco. Como outras árvores nativas, sofrem com o corte madeireiro e com o desmatamento, sobretudo na Mata Atlântica, ameaça que pode ser parcialmente enfrentada com políticas de manejo, coordenadas por especialistas, engenheiros florestais, biólogos, ecólogos, agentes agroflorestais e povos da floresta. Há quem diga, entre esses especialistas, que o Brasil é o país dos ipês. Nossa árvore mascote, junto com as capivaras.
Outros ipês, que também se apresentam em branco, amarelo, rosa e roxo, além do transparente, ofereceram recentemente florações de outro reino, microscópico e portador de outras ameaças. Ao contrário das floradas das árvores, é justamente a degradação dos ambientes de reprodução desses ipês que causa floração bacteriana. E um outro corpo de especialistas, biólogos, biomédicos, químicos, engenheiros, técnicos, entre outros, que identifica, examina, mapeia essa floração e o ecossistema que a produz, e o impacto que pode ocorrer quando essa floração chegar aos lares, pias e lavanderias. Sai embrapa, entra anvisa.
Mas a ecologia desses ipês é mais vasta, envolve outras agências e ambientes. Mal sabia eu que sócios da fabricante de produtos de limpeza florados havia doado 1,5 milhão de reais à campanha de um ex-presidente atualmente enfrentando vicissitudes na produção de adubo orgânico. E que, enquanto a empresa se defende juridicamente e regulariza suas instalações, uma frente heterogênea de defesa faz brotar flores nos campos radioativos da Internet, com teorias conspiratórias cujas ramificações ocultam sob sua copa as florações bacterianas, seus procedimentos de identificação e seus riscos. Os ramos conspiratórios e suas flores radioativas encenam o magnetismo da polarização, do delirante consumo político de marcas e da distorção do sistema de peritos, da saúde pública e da proteção ao consumidor. Da microbiologia à macrosfera negacionista, as flores desses ipês coloriram declarações, fotos e vídeos de Nicolas, Micheles, Cletinhos, Ricardos e um sem número de polinizadores/hospedeiros que não serão derrubados pela esquerda, mas, ao beber ou banhar-se com essas espécies companheiras (companheiras, não, que é termo de comunista. Espécies em sinergia empreendedora) talvez tenham como destino o vaso. Entre a copa das árvores e a cozinha dos lares, bem sei eu quais flores prefiro. Dúvida por quê?
Mas, como diria o detergente, é bucha.
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