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Emaranhado · Jun 7, 2026

De volta à leitura, escrita e seus esboços

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Ana Fiori · Emaranhado

Passeando pelo MEC Livros, eu não lembro exatamente como, cheguei à trilogia da Rachel Cusk, composta por Esboço, Trânsito e Mérito. Não consegui ler Mérito ainda. Descobri como faz para “devolver o livro” na plataforma, mas há um limite de dois livros por mês e eu ainda estou de castigo.

Em minha recente passagem por Brasília, comentei com uma amiga da Literatura que achava que ela gostaria dos livros, nos quais na verdade não acontece muita coisa. E ri de mim mesma e da minha recente atração por livros que a maior parte das pessoas consideraria tediosos. De uma forma que me lembrou um pouco What are you going through, da Sigrid Nunez, que inspirou o filme O Quarto ao Lado, que eu já comentei aqui no substack, a protagonista da trilogia de Rachel Cusk passa o livro a escutar os outros. Dela mesma sabemos pouco, ela é escritora e ministra cursos de escrita criativa, divorciou-se e tem filhos pequenos. A trama se desenrola por meio desses encontros com desconhecidos ou amigos próximos, que lhe falam sobre si e suas percepções de suas próprias relações e trajetórias, às vezes narrando cenas, às vezes descrevendo vidas inteiras. Não sabemos ao certo nem como Faye avalia essas narrativas e encontros, pois ela deixa escapar que quer pouco e espera pouco nesse momento atual de sua vida, calibrando baixas intensidades. Embora ela possa estar mentindo, como narradores e protagonistas fazem com frequência, eu me identifiquei com seu intuito. Também nesse momento eu quero querer pouco e navegar em intensidades mais baixas.

Em Esboço, Faye viaja à Grécia para dar um curso e o primeiro exercício que propõe à turma heterogênea de aspirantes a escritor é escrever sobre uma coisa que lhes chamou a atenção. Eu gostei da ideia.

Esse semestre, estou dando Fundamentos de Antropologia para a turma de caloures do bacharelado em História. Primeira vez em meus sete anos de Ufac que dou aula para o curso de História, e única disciplina que estou dando à tarde (Ciências Sociais é à noite, mestrado é de manhã). É outro ritmo de aula, ao qual eu vou me adaptando. Na primeira aula, fiz a turma se alongar, dizendo que as coisas mais importantes a aprender na faculdade é tomar água e se alongar, para não desenvolver dor crônica como eu. Depois pedi para me dizerem seus nomes (de registro, de batismo, social, de guerra, como quisessem), uma coisa que faziam muito bem, uma coisa que faziam muito mal e porque haviam decidido estudar história. Comecei dizendo que eu virava panqueca na frigideira muito bem e amarrava cadarço muito mal, e fui estudar Ciências Sociais porque eu gosto de contar histórias e ouvir histórias dos outros. A capacidade de reter informações e instruções das turmas é quase nula. Depois da terceira, quarta pessoa, eles e elas já não sabiam se era pra contar algo que faziam bem ou que gostavam ou que sabiam. Duas alunas disseram que não havia nada que fizessem mal. Eu ri. Tentei apresentar à turma o capítulo “O encontro com o texto” de Cartas de uma orientadora: o encontro com a pesquisa e a escrita acadêmica, da Débora Diniz. Os tipos de leitora que Débora Diniz descreve - a burocrata, a atriz, a desnorteada e a criativa - não ecoaram com esta turma (para a turma de Seminário de Pesquisa do mestrado em Artes Cênicas funcionou melhor). Se não há leitoras, ou melhor, se não se veem como leitoras, não há identificação com tipos.

Pedi que trouxessem para essa semana um texto de 10 a 15 linhas contando sobre algo que lhes chamasse a atenção ao longo da semana. Vamos ver se alguém realiza a tarefa.

Sempre que estou com turmas de primeiro e segundo período, tento trabalhar a escrita o máximo que posso. Esses livros da Rachel Cusk me deram algumas ideias e me fizeram pensar o quanto meu estilo de lecionar absorve muito do que eu estou lendo no momento. Quando perguntei a essa turma o que costumavam ler, pouca gente respondeu. Uma aluna, com sinceridade debochada, disse que lê apenas as mensagens de whatsapp. Tanta tinta e garganta gasta com teorias de letramento… eu prefiro dizer à turma que a leitura é um músculo que precisa ser exercitado, pra ficar um leitor monstrão. hahahaha… No meu caso, ainda estou fazendo fisioterapia de leitura, depois desse início de ano com muita névoa mental. Nada de alta performance por enquanto. Nada de coach, embora bastante couch (ou rede).

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