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Vênus Exilada by Ana Abel · Jul 16, 2026

meu maior traço tóxico enquanto superdotada

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Ana Abel · Vênus Exilada by Ana Abel

como me sinto na maior parte dos dias

há uns 8 anos atrás tive um episódio bem marcante a respeito do entendimento que tenho sobre a minha mente. eu sempre trabalhei como clt em farmácia (foram dez anos) e convivi com todo tipo de gente. sendo neurodivergente (superdotação) vocês podem imaginar (ou sentir na pele caso sejam) o quanto eu vivia absolutamente ansiosa e desregulada. o trabalho era muito estimulante pra mim (no sentido negativo), as pessoas me desgastavam porque nunca suportei o quanto algumas não conseguem observar os próprios comportamentos. eu absorvia tantos estímulos que chegava a chorar nos horários de pico da loja. eu sentia raiva dos meus colegas que não conseguiam resolver tudo ao mesmo tempo. em todo trabalho que tive, sempre era uma das que sabia todos os processos, mesmo sendo a mais nova da empresa. anos depois entendi que nem todo mundo consegue fazer isso. auto observação, metacognição (a capacidade de observar os próprios pensamentos) e um nível profundo de associação e análise de padrões é bem mais comum em neurodivergentes (talvez não todos, mas a maioria que encontro costumo apresentar isso e por isso amo eles na exata mesma hora).

teve um dia em específico onde quase tive um ataque de pânico pela coisa mais idiota possível. eu tinha uma colega de trabalho que vivia uma vida que me incomodava. sim, a vida dela me incomodava. eu sempre me irritei com como as pessoas levavam a vida da maneira menos inteligente possível e ela era a versão premium disso. ela tinha um casamento horrível mas não terminava porque tinha certa vantagem financeira com ele. ela era péssima de observação social e era a colega que todo mundo evitava por ser sem noção. ela traía o marido com pessoas do trabalho (who cares, mas tudo isso me irritava muito porque ela tinha mais de 40 anos e eu pensava: mulher, o que você tá fazendo com a sua vida?). e certo dia eu comecei a pensar tanto em como poder orientá-la pra sair daquilo que tive uma crise de ansiedade. eu tive uma fucking crise de ansiedade a respeito de uma pessoa que não afetava em NADA a minha vida. ai eu entendi, eu tinha um problema e precisa cuidar disso.

comecei a tratar como ansiedade. procurei psiquiatras e acabei tomando antidepressivos por um ano. foi ótimo, mudou muita coisa pra mim. eu consegui perceber o quando absorvia desnecessariamente os problemas dos outros. eu sempre tive uma capacidade muito alta em identificar padrões, os meus e o dos outros. acho que a minha superdotação vai muito pra um tipo de inteligência social. enfim, depois de um tempo, parei, e voltei a ficar ansiosa. só que sempre senti que era uma ansiedade estranha. eu não tinha medo de nada. eu não tinha fobia de nada. eu não era controladora com a minha vida. eu não era medrosa. mas, eu só ficava ansiosa em relações com pessoas que não tinha um nível de autoconsciência alto (a maioria). enfim, eu cheguei a acreditar que tivesse toc por conta dos pensamentos repetitivos. tomei aripiprazol por uns meses, um antipsicótico. bateu muito mal, foi horrível, fiquei pior. então, comecei a estudar mais sobre funcionamento da mente, filosofias orientais etc, e aí veio algum nível de paz.

eu entendi que sou obcecada em resolver problemas, especificamente emocionais e sociais. um dos traços mais fortes da superdotação é a obsessão em resolver equações e fechar pontas soltas. todas as amigas que tenho que são superdotadas tem o mesmo padrão: elas analisam até a morte todos os tópicos possíveis. superdotados tem obsessão em ver coisas se desenvolvendo. existe uma certa intensidade emocional muito forte em torno de executar, progredir, crescer. eu sei que muita gente é assim, mas o superdotado é quase num nível de conseguir prejudicar a si mesmo em busca de certas respostas. todo pensamento, ponta solta, situação de vida que me parecia desiquilibrada, eu sentia um desejo absurdo de CORRIGIR. eu queria RESOLVER. meu cérebro é assim. é muito difícil diagnosticar superdotação em mulheres porque nossa inteligência muitas vezes vai para o lado emocional, das relações, por questões de socialização patriarcal. então as pessoas só acreditam que somos mulheres muito controladoras, neuróticas, mas a verdade é que temos uma capacidade muito alta de compreender padrões e isso nos leva a loucura.

só que esse funcionamento me levou a uma certa rigidez, a ponto de eu sentir RAIVA de algumas pessoas. eu comecei a perceber uma atitude muito julgadora, muito fria, muito rancorosa. eu sentia raiva de todo mundo que não enxergava o que eu enxergava. e claro, como sou muito controlada, meu máximo de dano é que já cometi o crime de numa tarde de terça do absolutamente nada falar as verdades mais pesadas da história pra uma pessoa. eu já perdi contato por um tempo com duas pessoas por ter dado uma enxurrada de palavras cortantes sobre ela. eu sou a amiga com traços sincericídas. eu sinto um prazer em dizer a verdade, nua e crua. e minha maior frustração é não ter muitas pessoas que fazem isso comigo. as pessoas são evitativas demais. e claro, aí entra o estereótipo do meu signo escorpião: eu sempre acredito que o veneno cura, quero sempre ouvir o pior, enfrentar o pior e transcender o inferno. é um prazer pra mim. eu não suporto pessoas que evitam sofrimento. só que eu tive que aprender a aceitar que a grande maioria vai só passar a vida toda evitando, vivendo uma vida pequena, sem sentir essa necessidade de constante lapidação que eu sinto.

agora, adulta, depois de compreender bem mais sobre neurodivergências e em específico, a superdotação (tenho uma amiga superdotada e somos iguais, só fui encontrar outra mulher como eu com 26 anos), consegui relaxar mais. eu consigo sair do looping, consigo perceber quando começo a entrar nesse modo (eu chego a ficar com o olho meio estalado, bem gênia maluca quando começo a hiper focar num problema). consigo perceber meu sistema desregulando e sei me organizar. não tomo remédios, mas como estudei por muito tempo formas de observar minha mente, sinto que não preciso. consigo me orientar sozinha a ponto de não me identificar mais como uma pessoa ansiosa.

resultados do meu teste: superdotada fake

eu fiz o teste neuropsicológico no começo desse ano em portugal e o resultado me frustrou. o avaliador disse que sou uma quase superdotada. meu qi deu 111 e por isso ele não me deu o laudo de superdotação. eu tenho uma memória de trabalho altíssima (o teste apontou isso) e um qi verbal também (quem me ouve falando percebe), mas minha memória espacial e recente é horrível, eu esqueço onde deixei as coisas, não consigo decorar ruas, e fui tão mal nessa parte do teste que o resultado final abaixou muito, mesmo estando acima da média em memória de trabalho que é um dos principais fatores (capacidade de aprender rápido). eu nunca precisei anotar coisas pra aprender. eu sempre estive entre a melhor ou segunda melhor da turma. porém, o avaliador disse que a minha inteligência vem de sobrevivência, que aprendi a ler rápido, orientava outras crianças na escola, liderava os grupos (mesmo sendo tímida) e era absolutamente introvertida e sem amigos por sobrevivência, porque queria validação de outros adultos. minha família era instável emocionalmente e por isso aprendi a ler muito comportamento social, foi o que ele disse. na hora, acreditei. mas chorei muito. não consegui aceitar que toda a minha vida era sobre isso. até que decidi consultar outra neuropsicóloga no brasil, mostrei o teste, e ela disse que sou superdotada sim, e que provavelmente tenho tdha também porque a dificuldade de execução nos testes (eu tremia muito, dissociei e chorei no primeiro dia por conta da pressão, eu ficava com medo de parecer burra) diminuiu os pontos do meu qi. então, eu sei que sou superdotada e provavelmente tdha também. isso acontece com muita gente. a elô, uma criadora de conteúdo que fala sobre superdotação, disse que recebe muitas queixas sobre pessoas que não recebem laudo nenhum porque a maioria dos avaliadores não considera dupla excepcionalidade (quando se tem duas neurodivergências). o tdha diminui o potencial da superdotação, e a superdotação disfarça a dificuldade executiva do tdha, então os resultados ficam confusos.

enfim, eu sempre tive uma capacidade muito grande de me observar desde criança. sempre me corrigi e ajustei aos ambientes, e sempre sofri muito porque tenho uma necessidade muito alta de me estimular com problemas e curiosidade. e eu fazia isso com as pessoas. quando encontro alguém meio problemático, meu cérebro ativa, fico fascinada. por isso, sempre fui meio vulnerável em relações românticas porque não enxergo a realidade, enxergo um problema pra resolver (esse tópico merece outro texto).

por mais que seja meu funcionamento, e que essa forma de pensar me faça ser uma pessoa que consegue trazer muitos insights sobre alguns tópicos e me destacar a nível de comunicação e linguagem, eu sei que preciso tomar cuidado pra não projetar nos outros essa angústia em querer tudo perfeito, essa rigidez mental, essa necessidade de fazer todo mundo evoluir na base da dor emocional só porque é a minha forma de crescer. essa é quem eu sou e essa personalidade escapa. eu sinto raiva de quando as pessoas aceitam serem pequenas, não enfrentarem seus próprios medos. porém, direcionei essa raiva pra criatividade, pra escrita, pra gravação do podcast, pelo menos assim, paro de dar patadas aleatórias em pessoas que não estão preparadas pra ouvir.

e porque eu digo que é um traço tóxico? porque analisar demais as pessoas e seus comportamentos faz eu me sentir com uma mentalidade meio militar. eu sou absolutamente empática e me conecto profundamente com as pessoas, mas não consigo desligar meu cérebro em relação a esses julgamentos. sei que não prejudico ninguém com isso, mas as vezes sinto uma ressaca por ser assim. talvez seja autojulgamento mesmo. estou sempre me corrigindo.

entender que sou neurodivergente literalmente me salvou. deu uma explicação pra toda a minha angústia mental. todos os seres humanos vivem angústias, mas o neurodivergente sempre se sente separado do mundo. é um sentimento de estranheza total. até você encontrar outros neurodivergentes, vai achar que só você é assim. existem muitas pessoas como nós no mundo e essa questão de ter um cérebro diferente vai muito além dos laudos de tdha, superdotação ou autismo. você não precisa ter um laudo pra compreender que pensa diferente da maioria. você precisa se aceitar e direcionar sua energia pra coisas melhores.

eu sempre odiei trabalhar com muita gente mesmo amando conexões humanas. eu vivia doente, desgastada, porque minha energia mental é alta demais e me desregulo com facilidade. agora que trabalho sozinha, nunca fui tão feliz. meu grupo de amigos são como eu. a maioria tem laudo de alguma coisa rs. eu sempre senti que estava em outra dimensão e não suportava o quanto as pessoas não enxergavam padrões, não sabiam interpretar a realidade.

eu sinto uma paz absurda hoje em dia. conheço meus padrões. sei me orientar. mas até chegar aqui vivi um verdadeiro inferno. demorou, mas esse momento chegou. se você é neurodivergente, não desista, você pode encontrar alguma paz nisso. eu me encontrei na criação. eu posso escrever, gravar, postar 100 stories por dia. minha energia mental é infinita. tenho meus momentos de burnout, de ficar o dia todo em posição fetal processando o mundo, mas esse spark sempre volta. e se eu não criasse, estaria sofrendo com essa energia depositando ela em pessoas da minha vida.

só pra deixar claro que não estou dizendo que se você tem esses traços é superdotada etc, é apenas uma relação que faço porque pra mim a necessidade de resolver e analisar é muito forte a ponto de criar uma energia muito potente em mim. não são fases, é o meu estado quase todos os dias da minha vida. a intensidade mental e emocional são minha rotina. se você tem dúvidas sobre ser neurodivergente ou não, procure um neuropsicólogo.

obrigada por me ler. se quiser acompanhar meus vídeos e insights mais de perto, me segue no instagram venusexilada. também tenho um podcast (mais íntimo, com episódios longos) onde falo sobre amor romântico, espiritualidade, astrologia e filosofo sobre a vida, disponível no youtube também.

Read the original on anaabel.substack.com

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