Um oi diretamente da FLIP pra você.
Encerro hoje minha terceira participação na FLIP. Tive a oportunidade aqui, além de nutrir minha alma com histórias inspiradoras, de divulgar meu próprio trabalho autoral com três (três!) produções que pari nos últimos anos: o “De fora para dentro”, em 2023, o “Trinta e Umas” e o “Sentimentário”, no ano passado.
Antes do burnout, imersa no automatismo, não estava ligando muito para essa tal Feira Literária Internacional que acontece todos os anos em Paraty. Amava Literatura, mas não tinha tempo para mergulhar nessas coisas “secundárias”. Precisava produzir, trabalhar, garantir que deixaria algum “legado”, cuidar do “futuro” da minha família - mesmo que aquilo significasse, ora ora, ignorar o presente.
Falar sobre a função terapêutica da escrita, então, talvez seja o melhor que consigo dividir com você, que me lê, sobre a importância dessa ferramenta para a cura de nossas dores invisíveis. Não sei se existe uma coisa mais acessível que uma folha em branco. Seja com caneta, lápis de cor, carvão ou só com a imaginação da alma, ela é um convite a rabiscar futuros possíveis.
(Texto originalmente escrito para o site da Vida Simples)
(Foto: Jamie Hagan/Unsplash) O objetivo não é registrar algo bonito, mas expressar seus pensamentos, sentimentos e experiências
Uma folha em branco. Um punhado de angústias. Tempo a gosto. E presença abundante. Já misturou esses ingredientes para ver no que dá? Há algo de mágico (e curativo) em colocar palavras no papel.
Um dos atributos que mais me fascina na escrita é esse poder de se revelar. Quando sentamos para escrever de forma livre e honesta, abre-se uma espécie de portal que pode evidenciar coisas que ainda não sabemos. Trazer respostas de perguntas que sequer havíamos formulado.
A folha em branco nunca me pareceu um obstáculo. Sempre teve mais cara de convite. Quando menina, escrevia diários. Guardo várias daquelas agendas cheias de clipes, papéis de bombom, cartinhas de amigas e até - não me julguem - um tufo de cabelo meu, lembrança de algum corte na adolescência. Aliás, esses dias me encontrei com a Cintiazinha de onze anos ao reler um desses registros - e que bonito é perceber que aquela menina tão jovem já tinha na escrita uma ferramenta para elaborar situações complexas que viveria durante o Ensino Fundamental: o primeiro beijo, um abuso seguido de chantagem, medos diversos, as primeiras cólicas menstruais, amizades profundas.
Ontem, minha filha de onze anos veio me mostrar que também tem escrito. Em seu diário, rabisca com liberdade: frustrações em roxo, alegrias com glitter e revoltas em caixa alta, estas últimas sublinhadas muitas vezes com caneta preta. Felizmente, parece bem mais livre para se expressar do que eu conseguia em sua idade. Nas palavras, um espaço seguro para sentir. E também para derramar, acolher e dimensionar suas emoções.
Em meus cadernos escritos com letra comportada não havia muito espaço para evidenciar a indignação, a raiva ou até a tristeza que apodreceriam dentro de mim se nunca fossem validadas. O binarismo nos faz crer que há emoções “ruins”, que “não devem” ser sentidas. Mas todas desempenham um papel importante no processamento das nossas vivências - até as mais incômodas ou desafiadoras.
A escrita tem uma forma única e individual de curar. Ao escrever, damos legitimidade às dores, concretude às dúvidas e clareza aos conflitos que muitas vezes não conseguimos compreender de outro modo.
O que cabe numa folha em branco? O peso de todas as possibilidades. Mas também - e ainda bem - a oportunidade de imaginar novos mundos.
Preencher uma folha em branco com algo que está no campo das ideias pode parecer difícil. Por onde começar?
Antes de mais nada, precisamos nos libertar das algemas da racionalidade. Deixar fluir o que precisa aparecer. Expulsar o julgamento do rolê. E parar de exigir das palavras que usem traje social completo. Se não houver esse desapego, muitas vezes, é aí que travamos. No primeiro passo.
Acontece muito comigo: quando os pensamentos atravessam o portal da linguagem, tropeçam nas próprias complexidades e viram monstrengos desconexos. O olho vai parar na barriga, o que era fluido petrifica, a coesão vai pro vinagre. E aquela ideia tão brilhante e redondinha que parecia linda na minha cabeça vem para o papel em forma de uma frase estranha: metade clichê, metade bolo de chuchu.
O perfeccionismo é um dos grandes bloqueadores da função curativa da escrita. Buscamos ideais inalcançáveis porque fomos condicionados socialmente a essa loucura. Não normalizamos o teste como parte do processo. Sentimos que rascunhar é perder tempo. “Precisamos” ser eficientes! Acontece que a escrita, em si, é algo “inútil”. Sem obrigação produtiva. “Por que deveríamos priorizá-la em nossa rotina, já tão acelerada?” - alguém pode se questionar.
Escrever é uma maneira de dar forma ao caos que vive dentro da gente. De ordenar emoções, percepções, medos, traumas, expectativas! Colocar tudo num mesmo plano. Observar de fora. Perceber nuances. Brincar de quebra-cabeça. Ver se há alguma peça faltando.
Por maior que seja o desafio, o problema ou até mesmo a dor, podemos usar a escrita como ferramenta terapêutica de elaboração da nossa humanidade.
A folha em branco é, portanto, um convite a organizarmos o que está por dentro. Quem sabe nela possamos recombinar elementos. Testar cenários inusitados. Visualizar esperanças. E, assim, criar novas realidades possíveis.
Escreva cartas com tudo que você gostaria de dizer para as pessoas com quem precisa resolver algo, mesmo que nunca as envie. Libere o que está guardado sem medo de reação ou julgamento. Mais permissão para sentir, mais consciência emocional, mais alívio, mais fechamento de ciclos, mais autoconfiança.
Permita-se escrever livremente. Sem forma. Sem regras. Sem coesão. Às vezes, um poema ou apenas palavras soltas podem nos ajudar a expressar algo represado ou até ver beleza em situações desafiadoras. Mais “Olha que coisa linda!”, mais toró de ideias, mais observação do simples, mais descontração, mais ousadia.
Está sentindo raiva? Medo? Frustração? Proponha-se a escrever livremente em primeira pessoa dando voz a essa emoção. O que ela diz? Esse exercício pode ajudar a compreender melhor alguma situação difícil e revelar insights curativos. Mais auto escuta, mais permissão para existir, mais abertura, mais coragem, mais respeito aos sentimentos.
Escreva todos os dias, sem pressa e sem censura. O objetivo não é registrar algo bonito, mas expressar seus pensamentos, sentimentos e experiências. Mais clareza, mais autoconhecimento, mais liberação emocional, mais sinceridade consigo, mais cura.
Tanto os que você tem enquanto dorme quanto os que sonha acordado. Escreva assim que despertar, para não perder detalhes, e reserve alguns minutos para refletir sobre o que sua alma quer comunicar por meio deles. Mais compreensão, mais acolhimento, mais profundidade, mais “Por que não?”, mais realidades possíveis.
É cansativo viver em guerra com o ego. Mas, cuidado: silenciar a alma pode ser mortal. Conte com você.
Dúvidas, angústias, discordâncias, sincronicidades?
Uma ótima semana, alma querida.
Pra você que me lê também.

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