Escolho, logo existo
Ando insuportável. Comecei a cursar Psicologia e não passo mais uma semana sem trazer lição para casa. E nem estou falando dos trabalhos e leituras obrigatórios. Depois de 20 anos longe da Universidade, tinha esquecido que sou daquelas alunas dedicadas que criam as próprias tarefas para absorver conteúdos. Ai, que preguiça de mim.
Há algumas semanas venho analisando meus próprios atos falhos, lapsos, sonhos, sarcasmos… Dizem que Freud explica, mas com ele tem mais um monte de gente bastante habilitada no estudo da alma. Dos afetos. Dos processos psicológicos. Da psique. Juro que quando estiver perto de entender alguma coisa (sem previsão), posso tentar ser mais didática por aqui.
Acontece que, nesse meio tempo, recebi pelo WhatsApp a notícia de que minha coluna em um dos sites para onde escrevia estava sendo tirada do ar. Sem explicações. (Sim, o mundo corporativo é estranho e triste - assim como algumas pessoas que infelizmente o gerenciam de forma tão pouco humana). Pombos-correio até se propuseram a investigar para mim, mas devem ter se perdido no caminho.
No exercício de me tirar do foco e imaginar que o motivo pudesse ser estratégico, e não pessoal, fui ler meu último texto. Talvez houvesse inadequação editorial. Ou algum elemento que justificasse a decisão. Achei… uma “bunda”. Não pode ser.
A boa notícia é que encontrei, também, sincronicidades (alô, Jung, mal te conheço mas já te considero bagarái). Explico: o conteúdo do texto exalta a importância das escolhas. De estarmos conscientes de quem somos ao priorizar como vamos gastar nosso tempo, nossa energia, nosso intelecto, nossa vida, nossa alma.
De uma coisa sei: a partir de agora, não há bunda de mais ou justificativa de menos que me faça abrir mão de escolher a mim mesma.
(Texto originalmente escrito para um site bem legal que infelizmente não pode ganhar link)
(Foto de Sare Pamukçu, Pexels)
É só baixar a temperatura em minha cidade que sinto frio na bunda. Já viu isso? Tenho essa coisa meio esquisita: além dos pés, mãos e pescoço, regiões clássicas na arte de manter o corpo aquecido, minhas nádegas também precisam estar quentinhas para que me sinta confortável.
Para escrever este texto hoje, então, precisei de providências drásticas: peguei meu cobertor mais felpudo e me transformei numa panqueca de plush, enrolada da cintura para baixo.
Voltei cheia de orgulho: havia prestado atenção ao que estava sentindo e atendido à necessidade de me aquecer. Tentei escrever. Nada. Ué. Ainda não estava bem. Meus cabelos estavam molhados, e de nada adiantaria ter a bunda quente se o pescoço continuasse tremelicando de frio.
Então vasculhei o armário em busca do meu cachecol mais macio. Aquele que me envolve com calor e delicadeza. Um abraço azul.
Lembrei de Cazuza. “Eu quero a sorte de um amor tranquilo”, ele cantava. Talvez nem tudo seja sobre sorte. Algumas coisas podem ser escolhas. Especialmente se nos conhecermos o suficiente para identificar o que pode nos agradar a cada momento.
A música Todo o amor que houver nessa vida é um pedido visceral por um amor inteiro, ainda que complexo. Intenso e pacífico. Doce como fruta mordida. Real como saliva que mata a sede. Cazuza não queria só paixão. Queria abrigo. Queria ser rede que embala. Queria ser sustento. Ser pão, ser veneno anti-monotonia. Queria viver a poesia que a gente não vive. Transformar o tédio em melodia.
Foi quando me vi aqui, transformando um cachecol em colo. Um cobertor em refúgio. Escolhendo, dentro do que é possível hoje, o cuidado como forma de amar. A mim mesma.
A gente corre tanto atrás de amores arrebatadores. De vivências extraordinárias. Mas às vezes o mais revolucionário é preparar um chá quente. Se cobrir de afeto. Escolher o conforto ordinário com a mesma intensidade com que desejamos ser escolhidos.
Hoje minha alma canta Cazuza. Mas quem escreve sou eu. E escrevo assim:
Eu quero o conforto de um cachecol macio.
(E, se possível, um cobertor que me aqueça gentilmente - da alma até a bunda).
É cansativo viver em guerra com o ego. Mas, cuidado: silenciar a alma pode ser mortal. Conte com você.
Sempre muito aguardados e bem-vindos.
Uma ótima semana, alma querida.
Pra você que me lê também.

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