Viver é urgente.
Toda vez é assim: passo em frente a qualquer cemitério e sinto um nó no estômago. Lembro dos caixões de pessoas muito amadas que já vi sendo deixados ali, sob a terra. Finados.
Tento afastar a imagem pesada da decomposição, restos mortais, ossos, vermes, fogo, tanto faz: pó. Não pode ser só isso. Busco sorrisos na memória do peito. Momentos únicos que vivi com essas pessoas. Aprendizados. O que, delas, ainda está vivo em mim? Volto a respirar.
“O que estou fazendo da minha vida?” - impossível não pensar.
Finados é dia de celebrar legados. Honrar nossos mortos em sua humanidade. E botar prioridade no amor, porque tem muita gente que se enterra viva nas dores. Mulheres carbonizadas pela desesperança. Adolescentes mutilados por medo de ser quem são. Um povo desgraçado que não escolheu sofrer, mas nasceu sem outra alternativa.
Quantas velas serão suficientes hoje para consolar as mães cariocas que enterraram seus filhos no Rio de Janeiro? Não há paz possível quando o luto se repete como rotina. Quando um massacre é chamado de operação.
Que o cemitério não vire paisagem para que nossa inconformidade se anestesie com o passar dos dias. Quero passar lá e lembrar de, diariamente, transformar minha solidariedade em denúncia, em presença, em compromisso com uma existência consciente. Finados é dia de resistir e de, urgentemente, viver.
(Foto de saifullah hafeel, Pexels)
Dia de Finados. A alegria das floriculturas de cemitério.
Sempre me intrigou ver aquele mundaréu de gente levando flores para enfeitar túmulos no dia 2 de novembro. A pessoa vai lá, paga over-Reais por aquele crisântemo que é triste até no nome, e fica ali alguns minutos, diante de uma lápide maltratada pelo tempo, lembrando dos momentos vividos e lamentando pelos que nunca virão.
Tenho muito respeito à memória de pessoas queridas que já se foram. Certa vez, fui acometida de um ataque de choro incontrolável ao me deparar com o túmulo de minha avó abandonado, sem cuidados, com vasos caídos e flores murchas, alguns anos após sua partida. Então – entendam – não sou contra a preservação dos cemitérios.
O que me entristece é pensar que muitos de nós perdemos a oportunidade tão simples de estar com nossos queridos – e dar-lhe flores metafóricas ou não – enquanto vivem!
Perdemos tempo com picuinhas ridículas, com desentendimentos mesquinhos, com orgulhos feridos. Economizamos abraços, olhares, carinhos. No lugar, distribuímos indiretas, alfinetadas, ironias. Quando for tarde demais, engrossaremos as fileiras dos que compram crisântemos malcheirosos por over-Reais em floriculturas de cemitério.
Tenho pressa de viver. Mas isso não deve me impedir de usar a lente da sensibilidade humana. Ao meu lado, algumas pessoas que considero incríveis nunca ouviram um elogio sequer de mim, porque sou tímida, porque não tive tempo, porque “sei lá o que ela vai pensar”. Quantos grey hairs estão morrendo sem jamais terem recebido atenção...
Se eu pudesse dar um conselho à humanidade, hoje, seria: entreguemos flores em vida. (A música que deu título a este texto é do Paulo César Baruk).
“Mas Fulana não gosta de flores”, você – literal – está pensando. Substitua “flores” por “abraços”, “elogios”, “perdão”, “escuta”, “presença sem celular”.
Esse tipo de reflexão soa piegas e, infelizmente, chega atrasada na maioria das vezes. No velório, pouco importa se eu amo, se me arrependo, se sinto muito, se gostaria... Tarde demais.
Talvez esteja na hora de me importar menos com a vida perfeita dos meus amigos nas redes sociais e mais com as pessoas que dão significado à minha existência.
Se você concorda, apenas diga – com ou sem palavras – o quanto você ama aquela pessoa. Agora.
É cansativo viver em guerra com o ego. Mas, cuidado: silenciar a alma pode ser mortal. Conte com você.
Este é um link que vai direto do seu sentir para o meu coração. Se tiver algo a dizer, prometo ouvir atentamente.
“Flores em vida” é uma das crônicas do meu livro Trinta e Umas. Tem um capítulo todinho sobre “Luto e Finitude”. E também outras histórias que nasceram de dores reais, escritas com afeto, coragem e leveza. Sabe aquelas leituras fáceis e bem humoradas que convidam à reflexão? Pois então. Um presente de Natal incrível para entregar em vez de meias e pijamas. O valor é R$60 + frete. E eu ainda mando uma dedicatória com o nome de quem você pedir. Que tal?
Uma ótima semana, alma querida.
Pra você que me lê também.

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.