Dez provas depois de vinte anos
Essa coisa de inventar uma nova graduação não está sendo fácil. Vinte anos fora do mundo acadêmico e, de repente, tempestade de provas. Chuáááá. É Análise do Comportamento pra lá, é Neuropsicologia pra cá, é Estatística acolá… Teste, dissertativa, pegadinha… Ando o puro creme da bixete cansada.
Tive medo de não dar conta das avaliações. Em algumas aulas, todo mundo tinha cara de estar entendendo Processos Psicológicos enquanto eu lidava com pneumonia, culpa materna, dor no joelho, boletos vencendo, palestras sobre saúde mental…
Minha sorte é que, pelo visto, nerdice não é algo circunstancial, na vida. Achei que fosse um mecanismo que a gente usa para passar no vestibular enquanto sofre bullying, para conseguir bolsas de estudo que nos aprisionarão a rótulos inalcançáveis, para nos sentir vistos e amados, sei lá, coisas do tipo. Mas, não. Nerdice é um negócio que gruda na personalidade e se arrasta com você ao longo da existência. (Obrigada, neurônios sobreviventes do burnout).
O que me deixa feliz - e isso é uma novidade imensa - não é apenas tirar dez; é sentir que, de verdade, estou apreendendo e internalizando conhecimentos transformadores. Já passou da hora da gente mandar essa voz moralista que nos faz sentir incapazes e insuficientes ir para a ponte que partiu.
É hoje que vão descobrir: sou uma farsa
(Foto de César O’neill, Pexels)
Quanto você acha que sabe?
Ao substantivo “saber” geralmente atribuímos o conhecimento científico, técnico, baseado em fatos e dados comprovados. “Ela detém o saber sobre o tema X”. Entende do que está falando. Tem know-how. Conhece porque estudou, mergulhou no tema, dedicou horas, dias, anos ao aprendizado.
Aplaudimos quem, por persistência ou até por privilégio, alcança condecorações de sapiência: alfabetização, ensino fundamental, médio, universitário, pós, especialização, doutorado, phd, educação Jedi intergaláxica.
Acontece que há um “saber” igualmente complexo, profundo e valioso chamado conhecimento empírico. “Ela sabe do que está falando”. Viveu. Conhece porque experimentou, sentiu na pele, tomou na cabeça, chorou pra c@r@lho, talvez, e aprendeu que, na perspectiva dela, o mundo funciona assim ou assado.
Por que, então, láááá no fundo, somos movidos a achar que o que sabemos não é suficiente? Que nossa bunda é pequena demais para a cadeira onde estamos sentados Que um dia vão descobrir que somos uma farsa e nada temos a agregar?
Somos o que sabemos. E isso vai muito além do que cabe no LinkedIn.
É o combinado de essência e vivência que nos faz absolutamente únicos e valiosos.
Em qualquer ambiente.
Qual-quer ambiente.
Pessoal ou profissional.
Ué, mas podemos levar nossa visão de mundo para o trabalho? Será que o que esperam de mim não se limita ao meu conhecimento técnico? Se a sua resposta for “sim”, eu recomendaria que, na medida do possível, você fuja correndo desse lugar.
Pessoas são grandes demais para ocupar quadrados hierárquicos e funções limitadas.
Quando decidi empreender, um dos motivadores mais fortes foi colaborar para um mundo corporativo menos tóxico. Durante mais de dez anos, lutei para estimular um ambiente de trabalho em que pessoas plurais, diversas, de gerações e escolhas de vida radicalmente diferentes, pudessem exercer seus saberes múltiplos e, com isso, melhorar tanto quanto for possível o seu entorno.
Há algo único no olhar de cada um de nós. Acontece que não fomos treinados para perceber e valorizar aquilo que nos parece “fácil demais”.
Pensamos que aquela forma de encarar os fatos é óbvia para todos, ou que determinada habilidade é natural do ser humano - quando se tratam de talentos nossos, muitas vezes raros, sempre especiais.
Por exemplo: não é porque você é a pessoa mais nova ou menos experiente da empresa que não tem algo a agregar; pode ser que você seja a única nativa digital representante de toda uma geração de pessoas que enxergam o mundo de um ponto de vista extremamente valioso e diferente dos demais. E que, se ficar calada nas reuniões por achar que tem pouco a somar, aquilo que poderia agregar jamais seria dito por alguém, e a troca seria menos rica por conta disso.
O que você traz para o game? O que a sua história de vida fez de você? Talvez você tenha sido um sobrevivente. Pode ter sofrido traumas diversos. Ou herdado facilidades, recursos, privilégios.
O que você escolhe diariamente fazer com o que já viveu? Esconder, por medo da vulnerabilidade? Ou usar como força para apoiar pessoas que estão ao seu redor, cheinhas de inseguranças diversas?
As relações de trabalho precisam e podem valorizar o ser humano integral - com suas malas e viagens, conhecimentos técnicos e empíricos.
“Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes” - palavras de Ricardo Reis, um dos mais de setenta admiráveis heterônimos de Fernando Pessoa.
Vivemos cercados de especialistas. Observe mais de perto quem está aí do lado. Deixe que te conheçam, também. Pergunte a quem te rodeia: o que te faz único? Não subestime a combinação exclusiva de saberes múltiplos que há em você. Aproprie-se deles. E pare, por favor, com essa autossabotagem.
Não somos uma farsa.
Inadequado é não ser quem somos.
É cansativo viver em guerra com o ego. Mas, cuidado: silenciar a alma pode ser mortal. Conte com você.
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Já sentiu que não era suficiente? Deixa eu te lembrar algo importante: você é. (E eu também sou - ainda que fique felizona com lembretes em forma de mensagem por aqui).
Palestras!
Setembro Amarelo se fué, mas Saúde Mental pode (e precisa!) ser pauta o ano todo. Nas últimas semanas, tive a alegria de conversar com mais de 1.000 adolescentes e jovens do SENAI sobre a importância de acolher nossas emoções. Olha que bonito:
Abrir espaços para incentivar as pessoas a serem quem são é uma das coisas que mais me nutre e emociona. Por isso, queria pedir aqui uma gentileza a você: me indica para alguém que pode se interessar por uma palestra? Aqui está meu material de divulgação com as temáticas que ministro. Agradeço desde já, viu? De coração.
Palestras - Cíntia Ribeiro Santana
Uma ótima semana, alma querida.
Pra você que me lê também.

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