Algo que demoramos a aprender quando somos jovens é que a maior parte das pessoas não está ouvindo, mas esperando a vez de falar.
Você conhece a cena. Alguém começa a contar que foi demitido e, antes da segunda frase, ouve “comigo foi muito pior”. Outro anuncia uma viagem e surge quem já esteve lá, ficou num hotel melhor e conhece um restaurante que não aparece nesses roteiros. Uma doença na família é mencionada, e em trinta segundos a conversa pertence à epopeia médica de quem sentou ao lado do maior especialista do mundo naquela enfermidade.
Charles Derber, sociólogo da Boston College, gravou e transcreveu mais de cem jantares informais e publicou o resultado em 1979, no livro The Pursuit of Attention.
Ele separou as respostas em duas famílias: a primeira é da resposta que sustenta e devolve a palavra a quem estava falando. Algo que acontece quando ouvimos “e como você reagiu?”; a segunda é da resposta que desloca e puxa o assunto para quem responde. Acontece quando ouvimos “isso me lembra uma vez que eu...”.
A que desloca era a mais comum, algo como nosso quartinho da bagunça, em que jogamos de um tudo lá dentro e ignoramos esse puxadinho. Derber chamou o conjunto de narcisismo conversacional, num tempo em que ninguém tinha rede social para culpar. Mas pode relaxar essa testa franzida. Vidas perfeitas como comerciais de margarinas não são novidades contemporâneas do Instagram ou do TikTok. Sempre existiu desde a Roma antiga. Gente tentando impressionar gente e a si mesmos.
O puxadinho é aquele cômodo improvisado que se levanta encostado na parede da casa do vizinho e acumula de um tudo. Em vez de entrar na sua história, a pessoa constrói ali um quartinho e passa a morar dentro, sem você perceber, como um invasor da história do outro. A conversa continua de pé, com o endereço trocado. O holofote não é mais seu, embora seja você quem paga pela conta de luz.
Quem constrói puxadinhos nas conversas dos outros tem medo, medo de sumir.
FOMO é a sigla de fear of missing out, o medo de estar perdendo alguma coisa.
O estudo que consolidou o conceito saiu em 2013, na Computers in Human Behavior, assinado por Andrew Przybylski, Kou Murayama, Cody DeHaan e Valerie Gladwell.
Eles definiram o fenômeno como a apreensão de que outras pessoas estejam vivendo experiências gratificantes das quais você está ausente.
Quem pontuava mais alto em FOMO relatava menos satisfação das três necessidades psicológicas básicas descritas pela teoria da autodeterminação: competência, que é a sensação de dar conta; autonomia, que é a sensação de escolher; e vínculo, que é a sensação de pertencer.
Junto disso vinham humor pior, menor satisfação com a vida e uso mais pesado de rede social, que mais tarde recebia até nome de doença “doomscrolling”. O termo foi popularizado pelo repórter Mark Z. Barabak do Los Angeles Times no X (ex-Twitter) e já aparecia na rede desde 2018.
O estudo é correlacional. Ele não diz se o medo de ficar de fora empurra a pessoa para a rede ou se a rede fabrica o medo. Diz que os dois andam abraçados, o que já é bastante.
A tradução popular reduz tudo ao medo de perder a festa. É pouco. O que a pessoa teme perder é a confirmação de que continua ocupando espaço na cabeça dos outros. O convite diz “lembraram de você”. A ausência dele pode ser lida como esqueceram, substituíram, promoveram outro no seu lugar.
Antigamente você simplesmente não ficava sabendo do jantar. Hoje o Brasil tem 150 milhões de identidades ativas em redes sociais, 70,4% da população, segundo o relatório Digital 2026 do DataReportal, com dados de outubro de 2025. Você não fica sabendo do jantar: você recebe o carrossel e vinte fotografias provando que todo mundo sobreviveu muito bem à sua ausência.
E com certeza sabem de algo que você não sabe… rs.
A mente detesta lacunas. Se faltou alguma informação, a gente fabrica explicação, e em momento de insegurança a explicação costuma sair desenhada para proteger a própria imagem. O problema é sempre no outro, certo?
Compare as afirmações:
“Não me chamaram porque estão articulando alguma coisa pelas minhas costas” oferece compensação imediata: eu continuo importante. Tão importante que precisei ser removido de propósito.
Cruel não? E essa?
“Não me chamaram porque o encontro era pequeno” é uma hipótese possível e indigesta. Ela admite que nem tudo gira ao nosso redor.
Aleksandra Cichocka, Marta Marchlewska e Agnieszka Golec de Zavala publicaram em 2016, na Social Psychological and Personality Science, três estudos sobre quem adere a teorias conspiratórias. O achado é que o resultado incomoda os dois lados da mesa, da crença conspiratória que aparece ligada a narcisismo individual alto combinado com autoestima baixa, e do efeito que passava por pensamento paranoide. Acaba mostrando que certas narrativas cumprem função emocional além de explicar fato.
E a conspiração doméstica ainda paga um bônus: conhecimento especial. “Os outros acham que foi só um churrasco. Eu sei o que realmente aconteceu!!!!!”. A pessoa sem convite vira a única inteligência capaz de ler o tabuleiro e as intenções nas entrelinhas.
No último episódio de Succession, exibido em maio de 2023, Kendall Roy, vivido por Jeremy Strong, grita para os irmãos numa reunião decisiva: “I’m the eldest boy” (Sou o filho mais velho).
Ele não é. O mais velho é Connor, personagem de Alan Ruck, que nem estava na sala. Ruck comentou depois que achou a fala perfeita, porque Kendall não estava negando a existência dele: estava dizendo que é o mais velho das pessoas que importam.
É o puxadinho em versão HBO MAX ultra MAX (ou qualquer que seja o nome do app no momento que você lê esse texto). A história do outro segue existindo, só que rebaixada a cômodo de serviço da autobiografia de quem fala. Eu me aproprio da jornada do outro para validar minha autoridade.
No fundo é apenas uma criança birrenta gritando “eu sou o filho mais velho, eu tenho mais direitos, eu mereço mais atenção!”.
Christiane Büttner, Selma Rudert, Elena Albath, Chris Sibley e Rainer Greifeneder publicaram em 2025, no Journal of Personality and Social Psychology, o trabalho “Narcissists’ Experience of Ostracism”, com mais de 77 mil participantes. O material é robusto: um painel alemão com 1.592 adultos, um estudo em que cerca de 500 pessoas registraram episódios de exclusão pelo celular durante 14 dias, e 14 anos de dados do New Zealand Attitudes and Values Study.
Pessoas com traços narcisistas mais altos relatam serem excluídas mais frequentemente. Elas têm, sim, um viés perceptivo modesto, superestimando um pouco os episódios. E são, de fato, excluídas mais vezes, principalmente quando o traço aparece na forma de rivalidade. É o chato do rolê que tá sempre se vitimizando.
O achado que muda a nossa conversa é sobre como ser excluído previu aumento dos traços narcisistas um ano depois. O ciclo roda assim. A pessoa teme ficar de fora, vigia sinais, lê ambiguidade como hostilidade, cobra explicação, testa lealdade, tortura psicologicamente e emocionalmente pessoas queridas que se importavam com ela. Os outros cansam e se afastam. O afastamento confirma a suspeita inicial.
“Ah-ha! Eu sabia que estavam contra mim!!!!!!”
Nem toda exclusão é imaginária, e essa ressalva não é diplomacia para acalmar os ânimos. Em 2016 me bastou perguntar numa reunião como elevar a barra dos processos para minha cabeça ser posta a prêmio na empresa que eu trabalhava. Não havia paranoia nenhuma naquilo: havia gente incomodada com uma pergunta.
Existe perseguição real, com nome, cargo e data. O trabalho é distinguir isso do churrasco ao qual você não foi convidado porque cabiam apenas seis pessoas na varanda e você era a sétima.
Justin Kruger e David Dunning publicaram em 1999, no Journal of Personality and Social Psychology, quatro estudos com testes de humor, gramática e lógica. Os participantes do quartil inferior tiveram desempenho real no 12º percentil e se colocaram, em média, no 62º.
Percentil é a posição numa fila de cem pessoas. Eles estavam entre os doze piores e se achavam melhores que sessenta. Daí que vem o tal “efeito Dunning-Kruger” que ficou popular nos últimos anos nas redes sociais quando gente comum tenta caçar idiotas, na concepção delas do que seria a tal idiotice, ao mesmo tempo que querem validar sua geniosidade digital.
A caricatura popular virou “burro se acha gênio, gênio se acha burro”. Não é isso. O efeito é específico a domínio, onde alguém pode ser excelente em biologia, péssimo em finanças, bem calibrado ao dirigir e completamente delirante ao avaliar a própria habilidade de conduzir uma reunião.
A interpretação clássica também apanhou. Gilles Gignac e Marcin Zajenkowski mostraram em 2020, na revista Intelligence, que o erro de previsão sobre a própria inteligência era parecido ao longo de toda a faixa de habilidade. Em resumo, temos enorme dificuldade em ler a nós mesmos e em admitir que temos sempre algo novo a aprender e desenvolver. Gente orgulhosa que se submete a lesionar as costas tentando carregar algo pesado sem pedir ajuda a ninguém.
Dunning-Kruger é uma hipótese útil sobre calibração, não um detector científico de idiotas. Acusar todo discordante de sofrer do efeito é a forma mais elegante de demonstrar que talvez não tenhamos entendido o efeito. Entendeu!? O erro na compreensão retroalimenta o erro na compreensão.
O que interessa é a distância entre autoimagem e realidade. Ela cresce nos dois sentidos.
Há quem precise ser o melhor. Há quem precise ser o que mais sofreu, o mais traído, o mais incompreendido, o único que enxerga. A pessoa continua no centro do palco, só troca a coroa pelo cilício, aquele cinto de espinhos que os penitentes usavam por baixo da roupa para não deixar dúvida sobre o próprio sacrifício.
Nos dois casos, a autoimagem cresce sem auditoria.
A internet transformou narcisismo em diagnóstico de almoço de domingo. Interrompeu? Narcisista. Postou selfie? Narcisista. Não pediu desculpa do jeito que você queria? Narcisista, e ainda por cima perverso. Ai ai!!
O transtorno de personalidade narcisista é outra coisa. Ele exige padrão persistente de grandiosidade, necessidade intensa de admiração, sentimento de direito especial e dificuldade de empatia, com prejuízo real na vida da pessoa, avaliado por profissional após um tempão de acompanhamento.
A maior pesquisa epidemiológica sobre isso, a segunda onda do NESARC, entrevistou 34.653 adultos nos Estados Unidos e encontrou prevalência de 6,2% ao longo da vida, 7,7% entre homens e 4,8% entre mulheres. Essa é a estimativa mais generosa da literatura.
Faça a conta na estimativa mais alta: pelo menos nove em cada dez pessoas insuportáveis que você conhece não têm o transtorno. Elas são apenas insuportáveis. Talvez você seja alguém insuportável. Talvez eu. Decepciona nossa vontade de emitir laudo, e explica muita coisa sobre nossas relações.
Vale distinguir as duas caras do traço. A grandiosa é a visível: superioridade, exibicionismo, busca de prestígio. A vulnerável aparece como hipersensibilidade, vergonha, ressentimento e sensação crônica de não receber o reconhecimento merecido.
Parecem opostas e dividem a mesma dependência do olhar alheio. O grandioso exige aplauso. O vulnerável detecta humilhação. Os dois ficam de olho no mesmo espelho.
Matar a necessidade de reconhecimento está fora de cogitação, porque ela é humana e legítima. O treino possível é outro: aguentar alguns minutos sem ela, sem ler o intervalo como rebaixamento. Sossegar o facho sabe? Nem tudo é sobre ou para você.
Quando bater a certeza de que te excluíram de propósito, troque interpretação por pergunta verificável:
Que evidência concreta eu tenho de que a exclusão foi deliberada?
Existe explicação menos pessoal, do tipo “cabiam seis na varanda”?
Quando alguém me conta algo, eu faço pergunta ou eu conto a minha versão?
As pessoas se afastam porque conspiram contra mim ou porque conviver comigo anda caro demais?
Para lidar com quem monopoliza, limite de comportamento funciona melhor que diagnóstico. “Quero terminar o que eu estava dizendo.” “Agora eu gostaria de ouvir a Fernanda.” “Não discuto intenção sem evidência.”
Chamar a pessoa de narcisista abre uma guerra de identidade que ela sabe travar melhor que você. Descrever o comportamento tira o palco do teatro e ajuda a indicar para o outro onde ele anda falhando. O silêncio é sempre bem-vindo quando você não deseja se expor em demasia.
E tem o espelho, que é a parte chata que diz sobre nós mesmos. Na próxima conversa importante, repare em quantas das suas respostas devolvem a palavra e em quantas mudam o endereço. Eu faço isso desde criança por necessidade. Recomendo por outro motivo: é o exame mais barato que existe.
Quem tem alguma estabilidade interna não precisa vencer toda conversa, aparecer em toda fotografia nem decifrar complô em cada silêncio.
Consegue estar presente sem dominar. Consegue escutar sem desaparecer. A sua vida é o centro da sua consciência, e isso não a torna o centro do mundo.
Não ser protagonista não é ser irrelevante. Às vezes significa apenas que a história era de outra pessoa.
E você, qual foi a última vez que contou uma coisa importante e a conversa virou sobre outra pessoa antes da segunda frase? Me conta, porque esse tipo de história tem sempre um detalhe que ninguém acredita.
Se você conhece alguém que escuta de verdade, das raras, encaminha este texto para essa pessoa. É um jeito elegante de dizer que você notou.
P.S.: assinar a Síncope é grátis, e ela nunca vai interromper você para contar que já viajou para lá.
Bjo!
Vi por aí
• Espiral, de Lalai Persson. Newsletter semanal escrita de Berlim sobre música, cultura e comportamento, com mais de 8 mil assinantes. Ela consegue falar de tendência sem tratar a leitora como consumidora.
• Psi & Etc News, de Fernanda Muniz. Psicologia científica sem papinha, com foco no comportamento alimentar. Extensão do podcast Psicologia & Etc, e um bom antídoto para o diagnóstico de internet.
• Achado da semana: The Pursuit of Attention, de Charles Derber. Um livro de 1979 que já tinha entendido a briga por atenção antes de existir feed. Continua em catálogo pela Oxford University Press, mas por enquanto apenas em inglês.

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