Existe uma máquina hidráulica que corta a lombada de um livro em menos de um segundo. Entra o volume inteiro na máquina e sai um bloco de folhas soltas. As folhas passam por um scanner de alta velocidade, viram PDF, e o que sobrou do livro segue para o descarte. Livros que foram destruídos para gerar pdf que não fica disponível para acesso, mas serve para treinar modelos de IA.
Não sei você, mas eu li boa parte dos livros e artigos durante a graduação em pé, num ônibus lotado, com boleto amarrado no calcanhar machucado pelo tênis furado. Era o único tempo que eu tinha no dia. Alguns daqueles livros ainda estão na minha estante até hoje, misturados com outros tantos livros que fui adquirindo. E tem os ebooks, claro, que acumulam num HD de backup.
Mas, milhões de exemplares como aqueles foram para a guilhotina nos últimos três anos.
O nome interno da operação era Project Panama
Documentos do processo Bartz contra a Anthropic, tornados públicos em junho de 2025, mostraram o método. A empresa contratou Tom Turvey, o executivo que tocava o Google Books, comprou livros usados às toneladas, arrancou as encadernações, digitalizou tudo e descartou os originais.
O Washington Post revelou em 27 de janeiro de 2026 que o projeto tinha como objetivo escanear destrutivamente todos os livros do mundo. Segundo o juiz William Alsup, em decisão de 23 de junho de 2025, essa parte era legal. O raciocínio dele foi de que a empresa pagou pelos exemplares, destruiu o original e ficou com uma cópia só, sem distribuir nada. Mudança de formato, como transformar seu CD em MP3 e quebrar o CD depois. Mas o que é legal necessariamente não é moral.
A outra metade do processo não colou. Baixar mais de 7 milhões de livros piratas do Books3, do Library Genesis e do Pirate Library Mirror rendeu o maior acordo de direitos autorais da história americana, 1,5 bilhão de dólares, anunciado em setembro de 2025. E a fila anda. Em 31 de julho de 2026, a Fortune contou o caso de Pieter de Vries, livreiro de obras antigas em Haarlem, na Holanda, que recebeu um pedido de 3.001 exemplares com lista de ISBNs, feito por uma empresa chamada 2077AI.
A Anthropic afirma que nenhum programa seu adquire ou destrói livros raros. Registro a afirmação porque ela é parte do fato, e porque livreiro alemão e suíço já relataram pedidos estranhos do mesmo tipo. Ainda, temos casos de roubos de livros em diferentes momentos na nossa história recente, como exemplares raros roubados de bibliotecas universitárias e museus para aparecerem em páginas soltas nas margens do Rio Sena em Paris.
A guilhotina não é invenção da inteligência artificial
Em abril de 2001, o escritor Nicholson Baker publicou “Double Fold: Libraries and the Assault on Paper” e provocou a briga mais feia que o mundo das bibliotecas já teve. A denúncia dele foi de que por cinquenta anos, bibliotecas americanas, a do Congresso incluída, microfilmaram centenas de milhares de jornais históricos e jogaram fora os originais para otimizar espaços físicos. Arquivos mortos que são transformados em arquivos digitais.
O argumento da época é o mesmo de agora, palavra por palavra. O papel se degrada, o espaço custa caro, mas o que importa realmente é a informação.
A máquina que abria os volumes encadernados para a microfilmagem já tinha apelido no ramo: guilhotina.
Baker fez então uma coisa que eu acho linda. Sacou o próprio dinheiro da aposentadoria e comprou vinte toneladas de jornais que iam para o lixo, só para que continuassem existindo. Afinal, imagine você poder contemplar na sua frente um jornal de época, preservado?
Dava para fazer diferente, e alguém fez. O Google Books, começado em 2004, digitalizava com câmeras sem contato, sem cortar nada, e devolvia os volumes às bibliotecas. O método era mais lento e mais caro, mas ajudava na preservação desses exemplares. Bom, foi exatamente por isso que este método perdeu para a lâmina.
Do outro lado do mundo, por volta de 2010, os japoneses batizaram a versão caseira disso de “jisui”, que significa cozinhar a própria comida. Você corta a lombada do seu livro, escaneia e lê no tablet. Virou serviço comercial a 100 ienes por exemplar, sete escritores processaram duas dessas empresas, e em 30 de setembro de 2013 o Tribunal Distrital de Tóquio decidiu que quem reproduzia a obra era a empresa, não o cliente.
Repare no que muda de uma onda para a outra. No microfilme, a cópia ficava na biblioteca pública. No jisui, ficava com o dono do livro. Agora ela vai virando peso dentro de um modelo de IA privado, e o público fica sem o livro e sem o arquivo. Entra biblioteca. Sai na lavagem.
A vitrine está cheia de bolo de isopor
Lavagem não é força de expressão. É um termo importante, pois fala sobre uso suspeito de dinheiro (as famosas contas sem rastreamento nas Ilhas Virgens) ou ainda sobre usar matérias-primas puras, como o percarbonato de sódio, sem equipamentos de proteção, no cotidiano do lar pela razão que alguém descobriu que ele é ingrediente principal em alvejantes para roupas. E nisso temos gente lavando, lavando literalmente, e em todos os casos se intoxicando.
Mas imagine agora que você entra numa padaria e vê aquele bolo lindo na vitrine, cobertura impecável. E se você descobrir depois que era isopor com glacê ou pasta americana? Ou talvez nunca tenha descoberto, mas nunca se deu conta que eram os mesmos bolos bonitos por dias sem nenhum mofo ou bolor? A internet tá virando aquela vitrine.
Quer entender? O vídeo mostra truques da indústria do marketing para deixar propagandas em vídeo e em fotos irresistíveis. Afinal, a gente come primeiro pelos olhos.
Agora que você sabe sobre propagandas fakes e lavagens, lá fora tem um termo muito popular e que chegou por aqui nas últimas semanas: AI Slop.
“Slop” foi a palavra do ano de 2025. Em inglês, slop é a lavagem, os restos aguados que se acumulam no ralo da pia, naquela peneira que a gente coloca para que eles não entupam o encanamento. A palavra migrou para hoje descrever o conteúdo gerado em massa por inteligência artificial, o AI Slop, e é sobre o conteúdo que tem forma de artigo, tem forma de post, tem forma de relatório, tem forma de livro e não alimenta ninguém.
A empresa Graphite mediu isso em estudo publicado em maio de 2026. Eles sortearam 55,4 mil endereços do Common Crawl, que é um arquivo público que varre e guarda cópias de bilhões de páginas da web, o mesmo acervo usado para treinar modelos de linguagem de IA. Passaram cada texto por três detectores diferentes, o Pangram, o Copyleaks e o GPTZero, e cruzaram os resultados.
No quarto trimestre de 2025, 50,9% dos artigos publicados na web eram primariamente gerados por máquina. Metade. Em janeiro de 2020 essa fatia era residual. Em cinco anos a Internet foi tomada por conteúdo gerado por IA.
Agora a honestidade sobre o que o dado não prova. Publicar e ser lido são coisas diferentes, certo? Os próprios autores do estudo acima registraram que tais artigos praticamente não apareciam no Google nem nas respostas do ChatGPT. Ou seja, existia, em 2025, um imenso cemitério de textos que ninguém lê, escritos por ninguém, para agradar um algoritmo que também já não os quer.
Pegou a semelhança com a rede social X (ex Twitter) dominava por centenas de bots falando sobre política? Ou mesmo com o Instagram e centenas de influenciadores artificiais? Do monge ao padre, do médico à senhora idosa, muitas contas que postam conselhos, dicas, misturinhas que dão certo e que nada disso é real ou de valor?
Quando a piada de fórum começou a bater com a planilha
Em algum momento do começo de 2021, um usuário chamado IlluminatiPirate abriu um tópico num fórum com o título “Dead Internet Theory: Most of the Internet is Fake”.
A tese dele era conspiratória do jeito clássico: a internet teria morrido por volta de 2016 e o que sobrou seriam bots conversando com bots, orquestrados por governos e corporações para manipular a opinião pública. A jornalista Kaitlyn Tiffany levou aquilo para a revista The Atlantic em setembro de 2021, e essa teoria virou cultura pop e foi ganhando validação.
O relatório Bad Bot 2026, da Thales com a Imperva, mostra que 53% de todo o tráfego da web em 2025 foi automatizado, contra 51% no ano anterior. A fatia humana caiu para 47% e continua caindo. Este dado aqui, diferente do anterior sobre artigos gerados por IA, mostra como tudo que passa hoje pela Internet são conexões de máquinas e não mais de pessoas acessando sites etc.
Por exemplo, caso você tenha uma Alexa em casa, o tal Echo, a caixinha de som inteligente da Amazon, a cada minuto ela transfere alguma coisa com algum servidor da Amazon. É como uma torneira gotejando. Agora imagine centenas de milhares de milhões de dispositivos. E quando a maioria deles é de bots? Bom, a profecia do fórum errou o motivo e acertou o retrato.
Quem assistiu Black Mirror já viu essa cena. No episódio “Joan é Péssima”, primeiro da sexta temporada, que estreou em 15 de junho de 2023, Joane chega em casa, senta no sofá, abre o streaming da Streamberry e encontra o próprio dia transformado em série, com Salma Hayek gerada por computador fazendo o papel dela. A piada fina do episódio é que ele foi ao ar na Netflix, e a Streamberry tem o mesmo logo vermelho. A plataforma pagou para rir de si mesma, o que é um jeito elegante de não mudar nada.
Mas, se tudo é conteúdo gerado e trafegado por máquinas, logo somos todos especialistas em identificar o que é artificial?
Agora todo mundo virou perito em cheiro de máquina
No dia 30 de julho de 2026, o LinkedIn através de Hari Srinivasan, diretor de produto da empresa, um botão novo no menu de três pontinhos de cada publicação: “Seems like AI slop” ou, em tradução livre, “Parece slop de IA”.
Ao clicar no botão, o post denunciado some do seu feed e perde alcance. Dessa forma, novamente a rede social usa seus usuários para treinar seu algoritmo classificador. E tá tudo bem nisso, a gente sabe, ou deveria saber, que quando algo é gratuito, o produto somos nós mesmos. Cabe a você usar direitinho e não ficar divulgando informações íntimas e confidenciais por ai…
O detalhe saboroso vem junto. No mesmo anúncio, a empresa aposentou o “Enhance Post” ou “Aprimorar com IA”, o botão que faria que você “melhorasse” seu texto com IA. No lugar entrou um revisor que corrige ortografia, e a justificativa oficial é que ele revisa suas palavras em vez de mudar sua voz.
A Pangram Labs mediu o estrago em julho de 2026, analisando 1.002.627 publicações coletadas por uma extensão de navegador desde 24 de abril. Mais de 40% dos textos longos do LinkedIn, acima de 250 palavras, saíram inteiramente de uma máquina, a maioria absoluta sem nenhuma revisão humana. A rede representava um terço do material analisado e respondeu por 62% de tudo que foi marcado como IA. No X, a taxa de textos longos totalmente artificiais ficou em 23,9%.
Corta pra mim. Toda semana um professor me pergunta qual detector de IA é o mais confiável para pegar cola. Minha resposta desaponta: nenhum.
O julgamento de quem não foi treinado para julgar
O problema da polícia digital não é a intenção, mas a calibragem no uso.
Em 2023, a equipe de Weixin Liang, em artigo publicado na revista Patterns, submeteu redações reais a sete detectores de IA comerciais. Mais da metade das redações de TOEFL escritas por estudantes não nativos de inglês foi classificada como gerada por IA. Nos textos de alunos americanos nativos, os mesmos detectores acertaram quase sempre.
Toda vez que você escreve algo em português num chat de IA, esse algo é traduzido primeiro para o inglês para que a IA compreenda o que você deseja. Na resposta ocorre o inverso. No caso ali, a máquina não estava detectando IA usada nos textos. Estava detectando vocabulário simples e frase previsível, que é exatamente o que produz quem escreve numa língua que não é a sua.
Agora tire o detector e ponha no lugar milhões de usuários leigos com um botão vermelho na mão. Quem escreve limpo demais cai. Quem usa dois-pontos e lista organizada cai. Quem usa travessão cai. O autista que estrutura o texto com precisão milimétrica cai. O sujeito que escreve com esmero cai. Logo temos que a denúncia será por aparência, punindo quem foge da média, e nunca quem é a média.
A ferramenta não rebaixou ninguém, só tirou o gargalo
Preciso dizer o outro lado com todas as letras, porque acredito nele. O acesso à IA generativa foi uma das democratizações mais rápidas de capacidade técnica que a nossa espécie já viu. Gente que nunca teria um analista, um revisor ou um programador passou a ter. Isso é bom e eu defendo.
O que essa mesma abertura fez foi remover um gargalo que funcionava como filtro sem que ninguém percebesse. Escrever mal e devagar limitava o estrago. Escrever mal e rápido industrializa.
A conta chegou em setembro de 2025, num estudo do BetterUp Labs com o Stanford Social Media Lab, publicado na Harvard Business Review, com 1.150 trabalhadores americanos em tempo integral. Eles batizaram de workslop o entregável que parece trabalho bom e não tem substância. Ó a lavagem ai outra vez!!! Ao final do texto eu deveria oferecer um cupom de um sabão para lavar roupas…
Voltando pra pesquisa, quarenta por cento dos entrevistados receberam um entregável desses no mês anterior. Cada episódio consumiu cerca de duas horas de alguém para desfazer. Ou seja, alguém fez sem critério ou atenção alguma, repassou, e o outro teve que refazer tudo porque aquilo era ruim demais. Isso quando o ruim é descoberto, afinal a gente sabe que tem gente ruim em todo cargo e hierarquia.
Alguém entregou um bolo de isopor, e outro alguém gastou duas horas raspando o glacê para descobrir que não tinha bolo algum. Uma tristeza açucarada, um desastre!
Quem se acha ótimo não tem como perceber que não é
A parte mais desconfortável da história veio de Aalto, na Finlândia. Robin Welsch e Daniela da Silva Fernandes publicaram em outubro de 2025, na revista Computers in Human Behavior, um experimento com cerca de 500 pessoas resolvendo questões de raciocínio lógico do LSAT, o exame de admissão das faculdades de direito americanas, com o ChatGPT ao lado.
Todo mundo superestimou o próprio desempenho. Todo mundo. E aíE aqui o efeito Dunning-Kruger, aquele em que o incompetente se acha bom porque não tem repertório para medir a própria incompetência, apareceu de cabeça para baixo. Quem se declarava mais letrado em IA errou mais para cima na autoavaliação.
Você leu certo. Quanto mais a pessoa se acha íntima da ferramenta, pior ela fica em julgar o que a ferramenta acabou de entregar. Alô gurus da IA!!
Não estamos lidando com um exército de vigaristas. Estamos lidando com centenas de milhares de profissionais medianos, honestos, convictos de que estão entregando trabalho excelente, sem nenhum instrumento interno para descobrir que não estão.
A ferramenta não criou essa gente, eles sempre estiveram ali, ela só apagou a distância entre o que ela sabe fazer e o que ela consegue produzir.
Chuva, alguém tira a roupa do varal!
Ou socorro, de um jeito fofo pra chamar sua atenção.
Eu sei que tudo isso dá um desânimo, e o antídoto não é largar a ferramenta, pois ela é boa demais. IA é algo incrível, eu adoro! Mas temos que reconstruir o gargalo por dentro.
Um exemplo prático?
Antes de mandar qualquer coisa que a IA escreveu com o seu nome, faça três perguntas.
O que aqui só eu poderia ter escrito?
Se a resposta for nada, você produziu um item de vitrine.Que decisão a pessoa do outro lado consegue tomar depois de ler isso?
Se ela sai igual, você gastou o tempo dela.Qual afirmação deste texto eu defenderia numa reunião, com dado na mão, se alguém perguntar de onde saiu?
Se nenhuma, o texto é enfeite.
E use a máquina contra o produto da máquina.
Pra quem gosta de prompt, tenta esse aqui:
Aja como um especialista sênior desta área, cético e sem educação.
Liste toda afirmação deste texto que não tem evidência,
todo trecho que qualquer pessoa da área já saberia sem ler
e tudo que soa a preenchimento.
Depois diga o que falta para isso virar trabalho útil.Botão nenhum vai te salvar
A denúncia coletiva combate sintoma. Se alguém marca um post, o post some do feed daquela pessoa, e a média ruim continua produzindo em outro lugar, com outro nome, em volume maior.
O que corrige isso é caro, lento e nada bonito. É o óbvio que precisa ser dito e repetido para que grude como chiclete na mente: letramento. Falando em chiclete, fui no “Último voo da nave”, ou melhor, levei o Allan de 8 anos nele. E agora não consigo pensar sem que meus pensamentos tenham um fundo musical de alguma música da Xuxa como “é de chocolate” ou “ilariê”. Mente autista é como um filme 4k acontecendo o tempo todo… “choc choc choc, é de chocolate!”.
Saber ler o que a máquina entregou, saber onde ela mente com elegância, saber que o texto perfeito e vazio é pior que o texto torto e verdadeiro. E é o saber relacionado ao que a sua máquina produz para você, a sua verdade.
Bolo de isopor tem a cobertura perfeita. O que ele não tem é aquele recheio gostoso, fofo, com às vezes engana e é de abacaxi, mas ainda assim tem gostinho de infância e de “preciso diminuir os meus triglicérides”.
E você, já recebeu um material impecável de alguém e levou duas horas para descobrir que não tinha nada ali dentro? Me conta nos comentários o que era, eu coleciono esses casos.
Se você tem um colega que anda mandando texto bonito e vazio sem perceber, encaminha esse aqui. É mais gentil que a denúncia anônima.
P.S.: escrevo essas “cartas” toda semana sobre tecnologia, trabalho e educação, com dado conferido na fonte. Se isso te serve, compartilha com os amigos para eles se inscreverem e vem junto. Avisa que às vezes o artigo sai no sábado, outras no domingo.
Ah, e se você chegou até aqui, provavelmente não lê sobre esses temas como todo mundo lê. Este espaço é para quem quer ir além do hype. A newsletter é gratuita para ler, mas caso queira comentar e ler artigos anteriores, além de apoiar este e outros trabalhos entre no apoia-se:

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