Existe um tipo de tarefa que a gente entrega toda semana e não conseguiria explicar para uma criança de sete anos por que ela precisa existir. E eu tenho certeza que você já pensou no quanto estudou para chegar ali e que tudo aquilo não é utilizado para a maioria das coisas que faz.
O relatório mensal que ninguém lê e mesmo assim atrasa a sua sexta-feira. A ata da reunião que reúne informações úteis, mas que o colega ao lado insiste em te perguntar esses mesmos detalhes e roubar sua paz. O e-mail de alinhamento que alinha o quê, exatamente? A gente faz, entrega, recebe o “show!” e a vida segue.
E o problema é que a IA irá roubar nossos empregos. Mas aqui estamos falando de qual parte dos nossos empregos especificamente?
Em agosto de 2013, David Graeber, antropólogo da London School of Economics, publicou um ensaio numa revista pequena, com o título “On the Phenomenon of Bullshit Jobs”. Em duas semanas, o texto foi visto mais de um milhão de vezes e traduzido para doze idiomas. Ele não esperava nada disso.
A tese ali era simples e grosseira, mas revelava um problema dos nossos tempos sobre como desperdiçamos talentos com tarefas sem sentido. Ele escreveu que uma parte enorme do trabalho moderno existe sem motivo, e quem executa sabe disso melhor que qualquer consultor.
Você, com diploma e cheio de ideias é colocado para digitar e responder e-mails, e sempre que pensa numa solução para um problema importante é interrompido, pois não é a sua função. E vai a empresa e contrata alguém de fora, que chega cheio de ideais, estressa toda a equipe e inventa soluções absurdas que geram trabalho e retrabalho.
Muita gente hoje se queixa nas redes sociais. O número de casos de burnout / esgotamento mental nunca esteve tão elevado. E sabemos que não se trata apenas de salário nem de cansaço físico, mas de sentido, de perder o tesão por algo que parecia incrível nos anos anteriores.
O instituto YouGov foi atrás. Perguntou a britânicos se o emprego deles dava alguma contribuição significativa ao mundo. 37% responderam que não. Na Holanda, na mesma pergunta, foram 40%. Faça você esse teste agora. Veja quantas tarefas cotidianas não ajudam em nada, são apenas coisas sem sentido como um e-mail que ninguém irá ler ou um ajuste na planilha que alguém vai errar e bagunçar toda a formatação, para identificar algo que é óbvio e bastaria um olho-no-olho para resolver.
Traduzindo enquanto você lê esse artigo. Quatro em cada dez pessoas acham que poderiam sumir amanhã e o mundo não sentiria falta. E elas nem estão reclamando do chefe em si, mas dizendo que a cadeira não precisava existir. E chefe ruim existe aos montes, e os poucos bons e que lideram, estão super estressados.
No livro de 2018, David organizou os tipos de empregados mais comuns no escritório.
Temos o capacho, que existe para fazer o chefe parecer importante, sempre na sombra e na ausência da chefia incorpora a si mesmo um cargo imaginário de substituto e destila a síndrome do pequeno poder. Tem o capanga, contratado porque o concorrente contrataria primeiro e é interessante ter essa pessoa ali por ser parente de alguém importante na alta liderança. O remendão, que passa o dia consertando um problema que alguém se recusa a resolver na origem e nunca tem reconhecimento por isso. O marcador de caixinha, que produz o documento que prova que a empresa faz algo que ela não faz, ganha os louros e fala com a boca cheia que conhece tudo e todos. E o feitor, que supervisiona gente que não precisa de supervisão. Leia a lista de novo pensando na sua semana.
Ai ai.
O incômodo é bem mais velho que o Slack, Miro, Microsoft Teams e Zoom. Em 1955, C. Northcote Parkinson, historiador naval britânico, publicou na The Economist uma conta que dói até hoje na gente: entre 1914 e 1928, a frota do Reino Unido encolheu 68%, ou seja, menos navios sendo colocados nas águas e, com isso, perdeu cerca de um terço dos marinheiros, enquanto os funcionários administrativos do Almirantado, o órgão que administrava a Marinha, subiram 78%, de 2.000 para 3.569.
Parece bem comum não? Muita gente mandando e pedindo coisas, mas só você ali para dar conta de tudo e ainda tendo que sorrir e acenar como se ninguém estivesse vendo o problema bem no centro da sala.
Menos navio, menos marinheiro, mais gente preenchendo formulário sobre navio e ordenando coisas. Daí saiu a frase que virou lei em cada trabalhador exausto: o trabalho se expande até ocupar todo o tempo disponível para a sua conclusão. Aqui a burocracia inflou sozinha e criou mais e mais travas, dando a impressão que diariamente apagamos incêndios e não trabalhamos.
E cabe uma ressalva honesta. Em 2022, Magdalena Soffia, Alex Wood e Brendan Burchell publicaram na revista Work, Employment and Society uma crítica empírica ao Graeber. Nas Pesquisas Europeias de Condições de Trabalho, perguntados de forma direta se sentem que fazem um trabalho útil, apenas 4,8% dos europeus responderam que raramente ou nunca, contra 7,8% em 2005.
Quantas horas do seu emprego útil vão para tarefas que não pedem nada de você?
Pulamos agora para 2024. Aparece na internet uma palavra nova para o conteúdo gerado por máquina e despejado sem revisão. Nasce o “AI Slop”.
Em inglês, slop é a lavagem, aquele balde de restos, a tal "lavagem” que se dá ao porco por quem não sabe criar porcos e acha que esses animais comem de tudo. A palavra circulava desde 2022 em fóruns como o 4chan e o Hacker News e ganhou tração de vez em maio de 2024, quando o programador Simon Willison escreveu que ela precisava virar o “spam” da inteligência artificial, sendo um nome curto, feio e universal para uma sujeira que todo mundo reconhece hoje.
“Não é sobre X, é sobre Y”.
“Crucial”.
“Na tapeçaria dos nossos tempos”.
Enfim, qualquer jeito de escrita que denuncia que aquele conteúdo ali foi escrito por IA e não foi revisado pelo humano que copiou, colou e publicou.
O argumento tem lastro. “Spam” também nasceu de piada, num quadro do Monty Python de 1970 em que um restaurante só serve pratos com presunto enlatado da marca Spam e um coro de vikings canta a palavra até ninguém conseguir mais conversar. Você sabia disso? Eu não!
E falando em spam, o LinkedIn que em 2023 criou artigos colaborativos feitos por IA, deu selos dourados para quem mais contribuísse nesses artigos e chegou até a criar um botão para o usuário usar a IA para “melhorar o texto”, voltou atrás e em 2026 entrou numa nova política contra o uso exagero de IA na plataforma e criou o botão de “denunciar lixo de IA” para aqueles conteúdos exageradamente sem sentindo algum.
Tá tudo bem mudar de rota viu? Tá tudo bem investigar algo, perceber que não funciona ou que não deu certo e voltar atrás.
Faltava a versão corporativa do spam ou do slop. Mas não se preocupe! Seus problemas acabaram! (Como num comercial de algum produto revolucionário e duvidoso num canal de propagandas na TV na década de 1990).
Em 22 de setembro de 2025, na Harvard Business Review, assinada pelo BetterUp Labs e pelo Social Media Lab de Stanford, Kate Niederhoffer, Jeffrey Hancock e colegas ouviram 1.150 trabalhadores americanos de escritório e batizaram um novo termo: workslop.
Workslop é o entregável que tem a aparência exata do trabalho bom e não move a tarefa um centímetro. Claro que em português temos um termo maravilhoso e mais agradável aos ouvidos: encher linguiça (mas sem o trema, pois a reforma ortográfica mudou lingüiça para linguiça). Slide bonito, relatório comprido, resumo redondo, planilha sem contexto, literalmente coisas bonitas que não informam nada.
40% daquelas pessoas que eles entrevistaram tinham recebido um no mês anterior, e cada ocorrência custava, em média, duas horas de retrabalho de quem recebeu.
Por exemplo, imagine que você precise dar feedback. Para isso seu gestor encaminha o resultado de uma pesquisa de satisfação com perguntas genéricas que não informam nada concreto. Você recebe tudo aquilo, não sabe o que faz e decide ativar o modo feeling, que é exatamente sua impressão e como você percebe o funcionário. O feedback acontece porque você é um ótimo gestor que observa a equipe, mas a alta liderança fica satisfeita porque acha que você só conseguiu dar o feedback graças aos resultados da pesquisa que realizaram. Lixo. Linguiça, workslop.
Repare no mecanismo, porque ele é o coração da coisa. O trabalho mudou de mesa, por alguém que se acha inteligente. Quem enviou economizou quarenta minutos, quem recebeu perdeu duas horas tentando descobrir o que aquilo queria dizer. Cruel? É. A conta que a pesquisa fecha dá 186 dólares por funcionário por mês, ou 9 milhões por ano numa empresa de 10 mil pessoas. É o tanto de grana que vai para o ralo por colocarem profissionais despreparados em cargos de liderança.
Junte as três palavras e elas contam uma história só, em três tempos. Bullshit job é a suspeita de 2013. AI slop é a evidência de 2024. Workslop é a fatura de 2025.
De um lado temos a inteligência artificial ficando tão boa que já faz o trabalho intelectual humano, e você é vítima de um salto tecnológico e uma transformação acontecendo diante dos nossos olhos. Por outro, a IA ainda não ficou tão boa assim, segue sendo generalista para dar conta de tudo e acaba gerando conteúdo que um leigo é incapaz de perceber sua utilidade ou inutilidade para o objetivo proposto.
Em 2021, num artigo chamado “On the Dangers of Stochastic Parrots”, as pesquisadoras Emily Bender, Timnit Gebru, Angelina McMillan-Major e Margaret Mitchell argumentaram que um modelo de linguagem é um papagaio estocástico: costura pedaços de linguagem que já viu, por probabilidade, sem nenhum acesso ao significado. Você escuta, o papagaio realmente fala. Mas o papagaio não entende o que está falando, não existe ali um raciocínio para sustentar uma conversa.
Hoje temos excelentes papagaios que automatizam nossas vidas e ajudam muito na produtividade. Mas somente para quem entende que ali é um papagaio e não uma inteligência superior capaz de compreender todas as entrelinhas do prompt mal escrito.
Talvez esse o melhor nome para o que está acontecendo é o “teste do papagaio”. Se o papagaio faz a sua tarefa bem, a tarefa nunca dependeu de compreender nada. Ela dependia de formato. E isso vale para muita coisa que a gente aprendeu a chamar de trabalho qualificado. Doeu? Doeu aqui também.
Eu sou doutor, mas a grande parte da minha profissional nos últimos dez anos foi preencher planilhas e responder e-mails com dúvidas que poderiam ser tiradas se quem perguntava tivesse lido o material. Nenhum daqueles pedidos envolvia conhecimento técnico refinado. Era localizar um arquivo, confirmar um número, trocar uma palavra num parágrafo. E hoje o papagaio resolve todos eles antes de eu chegar ao aeroporto para ir palestrar sobre como usar a IA com potencial e inteligência.
Quem viu Ruptura, no Apple TV (que era Apple TV+ até outubro de 2025, quando perderam o sinal de mais e ninguém notou exceto quem tem o dispositivo Apple TV), assistiu a esse argumento virar ficção.
Mark S., vivido por Adam Scott, trabalha no que a empresa chama de refinaria de macrodados. Ele encara uma tela cheia de números, sente que alguns são assustadores e arrasta esses para uma caixinha digital. Quando a caixinha enche, toca uma musiquinha e ele ganha um prêmio ridículo, tipo festa com melancia esculpida.
Metade da internet riu, a outra metade sentiu um frio na barriga ao reconhecer a própria terça-feira. Afinal, xóvem, a gente já fez isso não fez? Quantos bombons de agradecimento você recebeu nessa vida?
No fundo, ali no refino de macrodados é sobre um sujeito clicando em número que dá medo para gerar gráfico bonito no fim do mês. A série que parece ser sobre uma distopia, na real, retrata o que acontece em muito desse mundo.
Em julho de 2025, pesquisadores da Microsoft Research liderados por Kiran Tomlinson analisaram 200 mil conversas anônimas de usuários com o Bing Copilot, coletadas entre janeiro e setembro de 2024. Parece absurdo? Absurdo é quem não lê os termos de uso e acha que qualquer solução gratuita é uma doação no maior estilo Madre Teresa de Calcutá (embora ela mesma seja hoje tema de muitas críticas sobre a bondade que era vendida na mídia).
Ali na pesquisa, eles cruzaram cada pedido com um banco de dados oficial americano que descreve as atividades que compõem cada profissão, e calcularam uma nota de aplicabilidade da IA por ocupação.
A imprensa fez o de sempre e publicou a lista dos “empregos ameaçados”. No topo: intérpretes e tradutores, historiadores, atendentes de passageiros, vendedores, escritores. No fundo, com nota zero, gente que opera lancha, lixa piso, levanta trilho, cuida de estação de tratamento de água e abre ponte levadiça. Borracheiro tirou 0,02, profissão protegida.
Agora o detalhe que quase ninguém comentou é que a maior nota da tabela inteira, entre 785 ocupações, é 0,49, e é justamente a do intérprete e tradutor, o primeiro colocado.
Nem metade. A profissão mais “substituível” do estudo tem menos da metade das suas atividades ao alcance da máquina. O pânico inteiro foi construído sobre um número que, olhado de perto, diz o contrário do que a manchete prometia.
Então, da próxima vez que ouvir “a IA vai roubar o seu trabalho” responda “que ótimo, assim posso descansar de fazer coisas inúteis”. Brincadeira, responda com uma pergunta “todo ele ou apenas uma parte, e qual parte?”. Quem afirmou vai ficar com cara de paisagem, pois vai entregar que fez uma afirmação baseada no que ouviu por aí, e desconhece completamente a natureza do seu trabalho.
A Microsoft, na pesquisa Work Trend Index feita pela Edelman com 31 mil profissionais em 31 países entre fevereiro e março de 2025, mostrou onde o dia dessa gente está indo: de interrupção a cada dois minutos, 117 e-mails e 153 mensagens de Teams por dia, 60% do tempo em comunicação sobre o trabalho, e não no trabalho.
Sessenta por cento do seu dia é com coisas que não se tratam de trabalho real. A famosa frase “essa reunião poderia ter sido um e-mail de dois parágrafos”. E eu já fiquei em reunião com mais de 8 horas de duração que não resolveu nada e só atrasou ainda mais o trabalho real.
Tem um custo real nisso, e eu não vou maquiar. Emprego de verdade some todo ano enquanto outros surgem, gente de verdade paga a conta, e falar em “transição” para quem perdeu o salário é grosseria e falta com empatia. Vivemos num mundo organizado num sistema de bens e consumo que depende das horas trabalhadas para um salário para comprar alimento, moradia, lazer. A falta de um trabalho implica em questões sérias de sobrevivência. Então a preocupação com perder o trabalho para a IA e ter que descobrir uma nova função é genuína.
Mas olhando ali para a lavagem, se você tirar sobra o que nenhum papagaio faz. Decidir o que merece ser feito, que é bem diferente de executar bem o que mandaram. Sustentar uma conversa difícil com alguém que está com medo. Julgar o caso que não se parece com nenhum caso anterior. Assumir responsabilidade por um erro, e responsabilidade só existe onde tem corpo, nome e consequência.
Repare que a lista de nota zero é quase toda de gente que sustenta o mundo físico funcionando. A água que você bebeu hoje passou por um operador de estação de tratamento. Nota 0,00 no ranking do medo.
Mas isso pode mudar.
Já são inúmeros casos em todo o mundo em que pessoas são colocadas para monitorar suas atividades, como se filmar lavando a louça, para gerar dados que irão para uma empresa de robótica desenvolver um robô capaz de lavar toda e qualquer louça. O mesmo com funcionários em linhas de produção em fábricas, com dispositivos em suas cabeças para gerar o mesmo tipo de dado que será usado para substituí-los depois.
Nada novo nesse mundo cão. Ainda hoje tem professor especialista, por exemplo, sendo contratado para criar conteúdo que será usado pela “eternidade” na empresa, sem a presença dele, em troca de algumas centenas de reais.
Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
Gritar!
Hoje não tenho protocolo, mas tenho perguntas que valem para qualquer profissão e dão trabalho de responder com honestidade:
Das tarefas que ocupam minha semana, quais um papagaio faria bem? Faça a lista no papel. Vai ser mais longa do que você gostaria.
Dessas, quantas existem porque alguém precisa de prova de que o trabalho aconteceu, e não porque o trabalho precisa delas?
O que eu faço que exige olhar uma situação nova e decidir sobre algo?
Quando foi a última vez que alguém me procurou pelo julgamento, e não pelo formato?
A inteligência artificial não inventou o trabalho vazio. Ficou boa o suficiente em imitar formato para revelar quanto do nosso dia era formato. Uma lente de contato colocada na frente de todo mundo que ignorava o grande elefante branco no centro da sala.
Isso assusta quem construiu uma carreira sendo confiável na entrega de coisas que ninguém lê. E é a melhor notícia em décadas para quem gosta da parte do trabalho que exige presença e julgamento, e passou a vida sem tempo para ela, engolida pela ata da reunião.
Papo reto: o papagaio não veio tomar o seu lugar. Veio mostrar quanto do seu lugar já estava vazio.
Bjo!

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