A Argentina acabou de se classificar para a final da Copa do Mundo de 2026, depois de ganhar da Inglaterra de virada.
(Como disse um gaiato, a Argentina só joga por vinte minutos — infelizmente para seus adversários, são sempre os últimos!)
Vários times jogaram melhor, inclusive alguns que ela derrotou, mas nenhum com tanta raça, com tanto desespero. Algumas seleções parecem milionários brincando de bola: sabem que, perdendo ou ganhando, semana que vem estarão na Disney. Já os hermanos não param, não desistem, não desmontam: jogam como se suas vidas dependessem da vitória.
Ver a Argentina jogar nesse Mundial, disputando cada partida no desespero máximo, me fez pensar como deve ter sido disputar uma guerra de verdade contra eles.
Com vocês, uma rápida história da Guerra da Cisplatina (1825-1828).
Considerando a raça desses filhos da puta, que tenha terminado em empate foi uma honra.
(Todo mês, eu dou uma aula avulsa de literatura e história para minhas pessoas mecenas. A aula desse mês será sobre as independências da América Latina e acontece na quarta, 22 de julho, às 19h, como complemento à leitura de Cem anos de solidão no curso Grande Conversa Romance. As aulas e os curso são só para mecenas, mas é super fácil se tornar mecenas: basta fazer uma contribuição ao meu Apoia-se. As mecenas têm acesso a todos os meus cursos, passados, presentes e futuros, enquanto durar o mecenato. // Todos os links levam à Amazon Brasil e, se você comprar qualquer coisa por lá depois de clicar, eu ganho uma comissão, você apoia meu trabalho e fico muito, muito grato. Sim, mesmo se não for o item que clicou inicialmente. Pra facilitar, esse aqui é o link direto para as ofertas do dia em livros.)
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Uma rápida história da nossa única guerra contra a Argentina
1825. O Uruguai era brasileiro. Segundo a ideologia geopolítica da época, nossas fronteiras naturais seriam o Amazonas, ao norte, e o Prata, ao sul.
Deixar qualquer potência dominar a foz desses rios seria o equivalente a perder o controle sobre as terras internas que eles irrigavam.
Uma Argentina dona das duas margens do Prata, por exemplo, poderia fechar o acesso fluvial ao Mato Grosso, que era a única maneira de chegar lá.
(A hipocrisia desse jogo era tanta que, para o Amazonas, argumentávamos que ambas as margens eram nossas e pronto; para o Prata, que era um absurdo a Argentina controlar ambas as margens!)
Perseguindo esse objetivo, travamos várias guerras para manter o controle sobre o Uruguai.
Poucos anos antes, em 1820, o grande líder uruguaio Artigas tinha sido derrotado na Batalha de Tacuarembó (22 de janeiro de 1820) e se autoexilara no Paraguai, de onde nunca mais lhe deixaram sair.
(Ele morre em 1850 e, apesar de inimigo figadal do Brasil, é um dos maiores líderes populares da América Latina, uma figura realmente incrível.)
Em 1825, patriotas uruguaios se erguem mais uma vez contra o Brasil e declaram independência. Era uma briga claramente desequilibrada. Logo, uma vitória dos uruguaios contra os gaúchos brasileiros na Batalha de Sarandí (12 de outubro de 1825) lhes dá confiança para, então, pedir incorporação à Argentina.
Era tudo que os argentinos queriam e com razão: uma vitória lhes daria ambas margens do Prata e, portanto, controle total sobre todo mundo que entra e sai em direção ao interior do continente, do Paraguai ao Mato Grosso.
A guerra, agora, não era mais entre o Império do Brasil e uma província rebelde, mas entre o Brasil e a Argentina, e o prêmio era o controle de uma das maiores bacias fluviais do mundo.
Ao longo dos quatro anos que durou o conflito, de 1825 a 1828, duas coisas ficaram claras:
Em terra: gaúcho contra gaúcho
Em primeiro lugar, que nossos gaúchos brasileiros (perdão, leitores gaudérios!) não eram lá essas coisas como cavalaria montada, pois perderam várias batalhas equestres para os gaúchos argentinos e uruguaios.
Destaque para a Batalha do Passo do Rosário, também chamada Batalha de Ituzaingó (20 de fevereiro de 1827), travada às margens do rio Santa Marta, perto da cidade de Rosário, no Rio Grande do Sul.
Seis mil brasileiros lutaram por onze horas contra oito mil argentinos e uruguaios: a Argentina disse que venceu porque os brasileiros se retiraram do campo de batalha, e o Brasil disse que foi um empate, pois fizeram uma retirada tática em boa ordem e não foram perseguidos.
Mas nada mudou, nada se decidiu, nada foi resolvido.
E esse era o problema: ao longo de todos esses anos, os gaúchos brasileiros se mostraram incapazes de vencer decisivamente os gaúchos platinos. Quem diria que, quando jogamos gaúchos contra gaúchos, os nossos eram piores que os deles!
(Na década seguinte, encontraríamos esses mesmos nomes, Bento Manuel, Bento Gonçalves, etc, em ambos os lados da Guerra dos Farrapos.)
Interlúdio para falar de números
A Batalha do Passo do Rosário, com seus 14 mil combatentes e 400 mortos, exatos duzentos anos atrás, foi a maior batalha campal jamais travada em território brasileiro.
Sim, 14 mil pessoas, num descampado, tentando matar umas às outras, é sim muita coisa.
Mas, para fins de comparação, na Batalha de Kursk (5 de julho a 23 de agosto de 1943), se enfrentaram mais de dois milhões de soldados, com 250 mil mortes. (Esse é o meu livro preferido sobre a Segunda Guerra na Rússia.)
Para não falarem que é covardia trazer o século XX, na Batalha de Austerlitz, acontecida vinte anos antes (2 de dezembro de 1805), estiveram envolvidos 160 mil soldados e houve 25 mil mortos. (Meu livro preferido sobre as guerras napoleônicas — também dei essa aula aberta.)
O fato de nossa maior batalha campal ter envolvido apenas 14 mil soldados, ter acontecido dois séculos atrás, e ter sido travada contra o país que hoje é nosso mais fiel aliado… é um testemunho de como realmente vivemos em um continente pacífico.
Hoje, felizmente, nossos grandes números são outros: há dois meses, a colombiana Shakira tocou pra duas milhões de pessoas na Praia de Copacabana, aqui do lado. Estava cheio de argentino feliz.
No mar: domínio do Brasil
A outra coisa que ficou clara era que tínhamos uma Marinha de Guerra profissional, imbatível e única no continente. Enquanto nossos vizinhos todos estavam convertendo navios mercantes para guerrear, só nós tínhamos uma Marinha de verdade.
Assim que começou a guerra, nossa Marinha rumou para o sul, bloqueou o porto de Buenos Aires e bloqueado ele ficou ao longo de toda a guerra. Quase todas as batalhas navais foram da Marinha argentina improvisada tentando furar o bloqueio e a nossa impedindo. A Argentina teve que recorrer a liberar cartas de corso contra o Brasil, e mesmo isso teve impacto quase zero.
O impasse
Estávamos num impasse.
No mar, a Argentina não conseguia nem sair do seu próprio porto, estava totalmente bloqueada, sufocada, engasgada. Buenos Aires, sem a receita da alfândega, não tinha mais dinheiro para nada.
Por outro lado, apesar de dominante no mar, o Brasil não conseguia decidir a guerra em terra, onde tomava sovas em cima de sovas dos gaúchos argentinos e uruguaios.
E aí?
A solução
No final das contas, foram os “malvados” ingleses que conseguiram romper o impasse.
Em primeiro lugar, eles eram comerciantes e aquela guerra estava causando muitos prejuízos, especialmente pelo porto fechado em Buenos Aires.
Além disso, eles também se deram conta do seguinte:
A Argentina nunca estaria tranquila com um rival do tamanho do Brasil logo ali na outra margem do Prata.
Por outro lado, o Brasil também nunca estaria tranquilo com a Argentina dominando as duas margens do Prata e podendo impedir seu acesso ao interior.
Se qualquer um dos lados ganhasse decisivamente a guerra, a região continuaria tensa e militarizada por décadas.
A Inglaterra sugeriu a criação de um Uruguai independente como estado-tampão entre Brasil e Argentina, tendo os três países como garantidores de sua independência. Se qualquer um dos três tentasse invadir, ocupar, intervir no Uruguai, os outros dois teriam obrigação de defendê-lo.
Incapazes de vencer a guerra, tanto o Brasil quanto a Argentina acharam essa solução intermediária muito melhor do que a alternativa.
E assim nasceu o Uruguai independente.
(Em tempo: “malvados ingleses” está entre aspas porque é óbvio que eles são tão malvados quanto todos os outros agentes históricos envolvidos aqui, todos correndo atrás de seus próprios objetivos da melhor maneira possível. Ler a História como se houvesse “bonzinhos e malvados” é garantia de entender tudo errado.)
Quem venceu?
Para ambos o Brasil e a Argentina, a Guerra da Cisplatina foi, ao mesmo tempo, empate técnico e derrota.
A Argentina entrou na guerra com o objetivo de anexar o Uruguai e controlar as duas margens do Prata. Conseguiu? Não. Então, perdeu. (Mas ficou feliz pois, pelo menos, o Brasil não ficou com o Uruguai.)
Já o Brasil entrou na guerra para manter o Uruguai como parte do país. Conseguiu? Não. Então, perdeu. (Mas ficou feliz pois, pelo menos, a Argentina não estava controlando as duas margens do Prata.)
Na prática, ambos perderam, mas, para seu público interno, conseguiram vender o prêmio de consolação como se tivesse sido uma grande vitória.
O futuro
Do ponto de vista dos contemporâneos, não deu certo. A região continuou conflagrada, militarizada e foco de inúmeras guerras pelas quatro décadas seguintes.
Quando eclode a maior guerra do continente, a Guerra do Paraguai (1864-1870), uma de suas causas imediatas foi justamente a cláusula constitucional que obrigava Brasil e Argentina a “defenderem” a independência do Uruguai – uma independência que ambos tinham passado os quarenta anos anteriores pisoteando.
Mas, quando acaba essa guerra, a região entra de fato num período de paz que dura até hoje e não parece dar mostrar de acabar.
Pelos cem anos seguintes, Brasil e Argentina continuaram se olhando estranho, com desconfiança mútua. Havia um clima de agressão latente.
Quando construímos a usina de Itaipu (1975), uma de suas vantagens, raramente articulada mas entendida por todos, era que ela funcionava, na prática, como uma bomba atômica, uma arma de último recurso, apontada para a Argentina: se o Brasil abrisse as porteiras, Buenos Aires seria lavada do mapa – e não só ela, claro.
Finalmente, em 1982, os milicos de lá fizeram a loucura temerária de atacar as Ilhas Malvinas e os milicos de cá, já de saída, fizeram algo inusitado e surpreendente: se posicionaram inequivocamente ao lado de Buenos Aires, um gesto de apoio tão aberto e tão gratuito, tão sem nada de prático a ganhar, que conquistamos de vez a amizade do nosso vizinho mais próximo, ex-inimigo figadal.
Em 1991, menos de dez anos depois, já durante a democracia, nascia o Mercosul (basicamente um mercado livre Brasil-Argentina + coadjuvantes), que cimentou a relação especial entre ambos os países.
Pelos últimos quarenta anos, esse têm sido o mundo onde nascemos e crescemos: Brasil e Argentina parceiros e amigos, adversários só no futebol.
Que continue assim para sempre.
Quarta que vem, 22 de julho, 19h, na aula avulsa sobre as independências da América Latina, vou contar essa história, e muitas outras. Não deixem de vir.
Argentina: o que ler
O Brasil é, em sua essência, um país antihispânico. Temos orgulho de virar as costas para tudo que venha dos nossos hermanos. Então, tem muito pouca coisa publicada em português.
Para saber mais sobre as guerras do Prata, ainda não se escreveu nada melhor do que esse livro, que dá todo o contexto histórico.
Também recomendo o grande clássico da historiografia argentina, finalmente disponível em português, equivalente hermano de Casa-Grande & Senzala, igualmente odiado, igualmente indispensável.
Em termos de ficção, dois dos meus top 10 livros são argentinos:
Primeiro, o poema épico do gauchismo, que já teve excelentes traduções ao português, mas nenhuma em catálogo – já escrevi sobre ele aqui;
E, em segundo, os contos do grande mestre da “literatura menor”, seja em português ou em espanhol – também escrevi sobre ele aqui. Falo de ambos no meu curso Introdução à Grande Conversa.
Outros livros argentinos que recomendo:
— O melhor romance sobre essa grande Descoberta do Outro que foi a chegada dos europeus às Américas;
— O Grande Romance Argentino, a melhor articulação novelesca do que significa essa enorme e fascinante nação;
— Um dos romances mais dolorosos que já li na vida – escrevi sobre ele na Folha e ainda dei essa aula em vídeo;
— Os três livros de contos da nova matriarca argentina do terror – também escrevi sobre ela para a Folha e dei essa aula em vídeo.
Próximas atividades para mecenas
Todo mês, dou aulas e promovo conversas livres sobre literatura e história para minhas pessoas mecenas. Aqui vão as próximas. Seja mecenas, é a melhor forma de me apoiar. Além disso, minhas mecenas têm acesso a todas as aulas dos meus cursos passados.
Quarta, 22: aula, As independências na América Latina
Quarta, 29: aula, Cem anos de solidão, Grande Conversa Romance
Domingo, 2: Conversa livre, Tetralogia napolitana, Grande Conversa Romance
(calendário completo para 2026)
Grande conversa romance: 1 ano para ler 6 romances perfeitos
O curso Grande conversa romance: 1 ano para ler 6 romances perfeitos é um mergulho profundo em alguns dos maiores e mais perfeitos romances da literatura mundial.
Dois meses para cada livro (quatro para Guerra e paz): um encontro livre para conversar sobre a leitura no primeiro domingo de cada mês e uma aula expositiva ao final dos dois meses, ambos no Zoom, e muito bate-papo literário todo dia no Whatsapp.
Ninguém precisa de ajuda para ler os livros fáceis e curtos. A ideia do curso é ajudar vocês a lerem aqueles livrões que, talvez, estavam adiando ler a vida inteira e, quem sabe, ajudá-los também a encontrar novos livrões legais.
Leremos só grandes livros, um romance em cada uma das principais línguas literárias ocidentais. Abaixo, a lista completa, em ordem cronológica. Os links já levam à edição recomendada.
1 Moby Dick, inglês, 1851 (agosto & setembro 2025)
2 Os miseráveis, francês, 1862 (outubro & novembro 2025)
3 Guerra e paz, russo, 1867 (dezembro 2025, janeiro, fevereiro & março 2026)
4 Grande sertão: veredas, português, 1956 (abril & maio 2026)
5 Cem anos de solidão, espanhol, 1967 (junho & julho 2026)
6 Tetralogia napolitana, italiano, 2015 (agosto, setembro & outubro 2026)
Saiba mais sobre o curso aqui.
Grande Conversa: Romance, Calendário
Qua, 22jul26, 19h: aula, As independências na América Latina
Qua, 29jul26, 19h: aula 5, Cem anos de solidão
Dom, 2ago26, 19h: Conversa livre, Tetralogia napolitana
Dom, 6set26, 19h: Conversa livre, Tetralogia napolitana
Qua, 30set26: aula, História da Itália
Dom, 4out26, 19h: Conversa livre, Tetralogia napolitana
Qua, 28out26, 19h: aula, Tetralogia napolitana
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