RSS Amplifier

Alex Castro · Jul 8, 2026

A Celestina, de Fernando de Rojas

0
Sign in to vote or save

Alex Castro · Alex Castro

A Celestina, de Fernando de Rojas (1470-1541), é a última grande obra-prima da Idade Média, ainda plenamente medieval em suas preocupações e prioridades, mas também uma obra da transição ao renascimento, à Idade Moderna, ao capitalismo.

A aula de hoje, quarta, 8 de julho de 2026, do meu curso Grande Conversa Medieval, é sobre A Celestina.

(O curso é só para mecenas, mas é super fácil se tornar mecenas: basta fazer uma contribuição ao meu Apoia-se. As mecenas têm acesso a todos os meus cursos, passados, presentes e futuros, enquanto durar o mecenato.)

Um mocinho vê uma mocinha em um jardim e se apaixona à primeira vista. Querendo se aproximar, contrata, por intermédio de seu criado, uma velha casamenteira.

Com uma sinopse que poderia ser a de uma novela sentimental, a Celestina rapidamente se transforma uma tragédia irredimível, terrível, inesquecível.

Nada é o que parece, nenhum personagem é virtuoso, a subversão dos cânones sentimentais é total: os nobres apaixonados pensam apenas em seus próprios prazeres, os pobres se esfaqueiam para ver quem enganará os nobres e os burgueses só querem saber de amealhar mais riquezas.

Sátira iconoclasta e demolidora, A Celestina é precursora do Dom Quixote e do romance moderno; paródia cruel das novelas sentimentais; denúncia do mundo irreal de expectativas irreais de virtudes irreais dessa literatura do amor cortês cavalheiresco; obra-limite e verdadeiro testemunho literário da total crise de valores que marca a passagem da Idade Média para o Renascimento.

Também é a primeira obra verdadeiramente urbana da literatura: no começo do XVI, as cidades crescem, habitadas por uma classe servil pobre e sem laços, servindo uma nobreza irresponsável e corrupta, que se aliou à uma monarquia cada vez mais absolutista e autoritária.

Enquanto isso, as classes urbanas, que tentaram se fortalecer ao longo do XV, terminam o século derrotadas e sem rumo, lideradas por um nova (e débil) burguesia tão focada em aquisições materiais que acredita que acumular riquezas lhe isolará, lhe protegerá dos horrores e vicissitudes da existência.

A Celestina é sintoma e produto desse processo histórico: ela coloca em cheque e expõe ao ridículo não só os antigos valores medievais, sentimentais, cavalheirescos, não só a religião cristã e o amor cortês, mas também os novos valores racionais, burgueses, pré-capitalistas que vão surgindo.

Se o Renascimento simboliza a vitória da razão, essa mesma razão revela um universo sem sentido, onde os bons sofrem e os maus são recompensados, onde a própria razão pode ser utilizada para atacar e questionar a si mesma.

A Celestina é o testemunho ótimo, perfeito, não só de uma época em crise política, religiosa, moral, mas também literária: todos os modelos literários estabelecidos estavam em crise, mas o romance como o conhecemos ainda não havia surgido.

É empolgante ler A Celestina pensando que foi escrita em uma breve janela literária onde todas as possibilidades ainda estavam em aberto, onde tudo ainda era possível. É um conto ou é uma novela? Uma peça ou uma obra de teatro? Está escrita em prosa, então, não é poesia? É composta somente de diálogos, então, é teatro? Mas é longa demais para ser encenada e, apesar de ser toda dialogada, contém uma deliciosa quantidade de apartes, que nos permitem um acesso profundo à interioridade das personagens que nos remete mais ao romance que ao teatro.

Todos estão contra todos, em conflito feroz, mas não temos uma voz narrativa autoral que nos dê um porto seguro, que nos indique um caminho, que nos mostre por quem torcer: quem está certo? Quem está errado? Nós, pessoas leitoras, devemos estar do lado quem? Onde nos encaixamos? Não sabemos.

O romance (a peça? o livro?) nos puxa o tapete a cada página e, quando finalmente nos abandona, é em uma posição de desamparo total, quase todas as personagens mortas e em um dos mais dolorosos gritos fúnebres da literatura. E a nós, pessoas leitoras, só nos resta, à revelia e dolorosamente, formar nossos próprios juízos, nossas próprias opiniões.

O Dom Quixote é considerado como o primeiro romance moderno, entre outras coisas, por criar a figura do primeiro leitor moderno, o primeiro leitor que precisa formar sua própria opinião sem o auxílio (na verdade, à revelia) da voz narrativa. Mas, se for esse o critério, talvez o primeiro romance seja A Celestina.

É uma das minhas obras preferidas da literatura mundial, bem pouco conhecida apesar de ter boas traduções ao português e é sempre um prazer apresentá-la a novas pessoas leitoras. (Veja o meu Top10 da literatura.)

Para quem só lê português, temos excelentes traduções. Em catálogo, tem essa tradução integral do Millôr Fernandes pela L&PM:

Também tem essa outra tradução integral, que gosto ainda mais (pois trabalha melhor o registro informal), publicada em 1990 pelo poeta gaúcho Paulo Hecker Filho. Não está em catálogo, mas é fácil de achar.

Esse áudiolivro dramatizado traz o texto completo e é simplesmente sensacional, o texto ganha vida na voz dos atores. Recomendo demais. Dica: se o seu espanhol não é seguro, você pode ouvir em espanhol e acompanhar lendo uma das traduções brasileiras.

Bom mesmo, claro, é ler em espanhol. São línguas tão próximas que eu recomendo tentar. Para quem ainda assim tem medo, existem versões modernizadas. Gosto dessa aqui da coleção Odres Nuevos, da editora Castalia, disponível em ebook.

Por fim, o melhor é ler no espanhol original, em uma das boas edições anotadas. Em termos de clássicos espanhóis, tem três editoras que nunca falham: Cátedra, Castália, Penguin (ex-DeBolsillo). Eu adoro tudo da coleção Letras Hispânicas, da Catédra:

Pessoalmente, minha edição preferida, a que está toda anotada, é a da Castalia, organizada por Peter E. Russell:

Por fim, para clássicos espanhóis, as melhores edições que dá pra comprar barato aqui no Brasil são mesmo as da Penguin. Essa aqui, por exemplo, está R$5 o ebook e R$91 o impresso — e tem tudo, introdução, notas, glossário. É a minha edição recomendada.

Curso de literatura e história, com foco na experiência estética de alteridade radical dos textos medievais, como também nas continuidades e rupturas históricas e literárias com a cultura contemporânea. // Leituras não obrigatórias. 24 aulas, 2h cada, 3ª quarta-feira do mês às 19h. Encontros e aulas ao vivo via Zoom; aulas gravadas via Facebook; grupo de discussão no Whatsapp. // R$99 mensais, no Apoia-se, por todos os meus cursos. Compre agora.

Sempre lembrando que minhas mecenas têm acesso a todos os meus cursos, passados, presentes e futuros, enquanto durar o mecenato.

Se meus textos tiveram impacto em você, se minhas palavras te ajudaram em momentos difíceis, se usa meus argumentos para ganhar discussões, se minhas ideias adicionaram valor à sua vida, por favor, considere fazer uma contribuição do tamanho desse valor. Assim, você estará me dando a possibilidade de criar novos textos, produzir novos argumentos, inventar novas ideias.

Sou artista independente. Não tenho emprego, salário, renda, pai rico. Vivo exclusivamente de escrever esses textos que abriram seus olhos e mudaram sua vida. Dependo da sua generosidade. Se não você que me lê, então quem?

Se quiser fazer um pix, agradeço: eu@alexcastro.com.br

Se for comprar na Amazon BR, faça pelos meus links. Você não perde nada e eu ganho uma comissão de tudo o que comprar — não necessariamente só do item que clicou. Link para a página de ofertas do dia em livros. (Se puderem salvar essa bookmark nos seus browsers, já resolve.)

Para quem está fora do Brasil, a melhor, a maior ajuda que você pode me dar é me ajudando a comprar livros. (Livros importados são, longe, minha maior despesa.)

Se você puder e quiser, por favor, deposite alguns dólares via cartão de presente na Amazon EUA (amazon.com/gift-cards) para o email eu@alexcastro.com.br (É só clicar no link e digitar o valor. Só serve se for na Amazon EUA: nas outras, não tenho conta.)

Por fim, por favor, considere se tornar mecenas. Pode ser por qualquer valor.

Fazendo meu mecenato de R$99, você ganha acesso a todos os meus cursos — passados, presentes e futuros — textos exclusivos pra ler e grupos de Whatsapp exclusivos pra participar.

Assine e nunca mais perca um texto. É grátis. :)

Read the original on alexcastro.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.