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Alex Castro · Jul 18, 2026

Em qual livro Aquiles morre?

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Alex Castro · Alex Castro

Não é a mitologia que vem da literatura, mas a literatura que vem da mitologia.

Acabou de sair nos cinemas a adaptação da Odisseia de Christopher Nolan e está todo mundo falando de Homero nas redes sociais. Então, aproveito para lembrar que a segunda aula, Gregos, do meu curso Introdução à Grande Conversa é sobre a Ilíada e também sobre As Bacantes e a Orestéia. As aulas e os curso são só para mecenas, mas é super fácil se tornar mecenas: basta fazer uma contribuição ao meu Apoia-se. As mecenas têm acesso a todos os meus cursos, passados, presentes e futuros, enquanto durar o mecenato.

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Uma participante do curso Introdução à Grande Conversa perguntou:

“Se o calcanhar de Aquiles não está na Ilíada, de onde veio essa expressão calcanhar de Aquiles?”

Eu, na sala aqui em casa, respondi:

“Da mitologia grega, ué. De onde mais?”

Aí minha esposa ralhou comigo, apontou que seria uma resposta rude, e que ela obviamente queria saber a fonte.

Bem, as evidências textuais mais antigas do calcanhar de Aquiles são o poema As argonáuticas, escrito por Apolônio de Rodes, no século III aEC, e o poema Aquileida, escrito pelo poema romano Estácio, no século I EC, onde aparece a história de Tétis segurando Aquiles pelo calcanhar e ou queimando sua mortalidade no fogo (no primeiro) ou banhando-o no rio Estige (no segundo).

Mas é importante entendermos que essas não são as fontes dessa informação. Aliás, a própria pergunta “qual é a fonte do calcanhar de Aquiles” é, por si só anacrônica.

A mitologia grega era uma tradição popular, oral, viva. Ela não tinha dono. Qualquer pessoa podia escrever uma poema sobre Aquiles, assim como hoje qualquer pessoa pode escrever um conto sobre o Curupira.

Perdemos quase tudo, quase tudo mesmo, da literatura grega. O que sobrou foram só aqueles poucos textos que, por serem considerados os melhores, foram copiados e recopiados em vários manuscritos. (Existem algumas raras exceções de manuscritos que sobreviveram por acaso, em uma única cópia, mas 99% do que temos era aquilo que os antigos consideravam o melhor.)

Então, o que posso dizer é que as evidências textuais mais antigas que temos do “calcanhar de Aquiles” são esses dois textos, escritos centenas de anos depois de Homero, um deles, inclusive, de outra cultura que canibalizou a grega.

Esses textos não são a fonte do calcanhar de Aquiles: eles são a evidência textual que essa história estava em circulação, em diferentes versões.

(Mas reparem que o fato de eu escrever hoje um conto sobre um Curupira que mora na Av Paulista e trabalha em escritório, um conto que pode ser lido daqui a mil anos, não quer dizer que, na tradição oral brasileira de hoje, o Curupira fosse um bicho que morasse na Paulista e trabalhasse em escritório. Pode ser que o Curupira da Paulista seja uma criação pessoal minha.)

Ou seja, voltando à minha resposta original:

“De onde vem o calcanhar de Aquiles?”

“Da mitologia grega”.

Na sequência, uma outra aluna perguntou:

“Entendi que o livro não é a fonte do mito, mas que a gente conhece o mito por causa do livro, certo?”

Na verdade, não. Essa é precisamente a diferença.

Se esse livro desaparecer, se nunca tivesse existido, provavelmente teríamos a expressão “calcanhar de Aquiles” do mesmo jeito.

* * *

A mitologia é como se fosse um dicionário.

Pensem em um lago. Todas sabemos que um lago é uma extensão de água cercada de terra por todos os lados.

Se alguém me perguntar “de onde veio essa informação?”, a resposta não é “do dicionário”.

Pois o dicionário não é a fonte dessa informação: o dicionário apenas registra que essa informação existe.

O dicionário nunca é prescritivo, ou seja, ele não diz como as pessoas devem usar a língua: ele, por definição, é descritivo, ou seja, descreve como as pessoas de fato usam a língua.

(Quem decide o significado de “lago” somos todas nós, não o dicionário. O dicionário é uma ata da língua, que somente registra o que nós já decidimos e praticamos.)

Da mesma maneira, se todos os dicionários sumirem, a palavra “lago” não some, nem esqueceremos o significado dela.

Nós, nascidas e criadas em uma sociedade cada vez mais dependente da palavra escrita, perdemos um pouco a noção da importância da oralidade, da quantidade enorme de coisas que sabemos sem que precisem estar escritas em nenhum lugar.

Hoje em dia, a língua é praticamente o único grande exemplo que nos restou. Quando falamos, escrevemos, pensamos em português, estamos usando uma belíssima e eficiente tecnologia coletiva e anônima, orgânica e milenar. Quem inventou a definição de “lago”? Ninguém. Essa palavra, assim como a Ilíada, apenas chegou até nós porque, ao longo de todos os milênios desde a sua “invenção”, ela foi usada continuamente por milhões e milhões de pessoas.

A Ilíada e a Odisseia começaram a circular oralmente em uma época quando os gregos ainda não tinham nem alfabeto. Não se menciona a palavra escrita nos poemas, com uma breve exceção. Era um mundo sem livros e sem bilhetes, sem cartazes e sem relatórios. Todo o conteúdo, toda a sabedoria, todas as informações, dependiam da memória e eram transmitidas oralmente.

O que hoje chamamos de “mitologia grega”, essa expressão que nos parece tão acadêmica e erudita, essa “coisa” que pagamos cursos para aprender e lemos livros para entender, isso era o ar que essas pessoas analfabetas respiravam, era sua vida, era seu contexto.

Esse é o mundo que precisamos habitar ou, pelo menos, conceber, se quisermos minimamente entender e apreciar a Ilíada.

Os gregos antigos sabiam que Aquiles morreu em Tróia e que Tróia, na sequência, foi destruída, da mesma maneira que nós sabemos que lago é uma extensão de água cercada de terra por todos os lados.

Alguns comentários que surgiram entre as alunas:

“Ué, mas Homero vai acabar a história sem mostrar a morte do Aquiles?”

“Na Odisseia o Aquiles está morto, isso “prova” que ele morreu na Ilíada ou livros diferentes, histórias diferentes?”

Homero, ou o bardo cantando a Ilíada naquele momento, não precisa mostrar a morte de Aquiles porque Aquiles sempre esteve morto. (Ninguém não-sabe que Aquiles morreu em Tróia.)

A morte de Aquiles não acontece em nenhum livro: para um grego antigo, que nem mesmo conhecia a escrita, quem dirá livros!, a morte de Aquiles é um fato da vida.

Aquiles sempre esteve morto. Aquiles sempre morreu em Troia. É isso que Aquiles fundamentalmente é: um guerreiro invencível que vai para Tróia, mata Heitor e morre lá.

O mesmo vale para todas as grandes histórias da tradição mitológica grega: a caça calidônia, Jasão e os argonautas, os sete contra Tebas, Teseu e o minotauro, Édipo e seus filhos, a gigantomaquia, todo esse gigantesco ciclo de histórias.

As pessoas sabiam a história de Aquiles como nós sabemos que os pais de Bruce Wayne foram mortos na saída do cinema, ou que Papal Noel desce pela chaminé na noite de Natal, ou que o Curupira tem os pés voltados pra trás.

Tanto o bardo quanto os ouvintes sabiam a história toda, sabiam o que tinha acontecido antes e o que iria acontecer depois.

É impossível ver o desespero de Agamenon em trazer Aquiles de volta à batalha sem pensar:

“Esse é um homem que sacrificou a própria filha por essa guerra.”

É impossível ver o jantar de reconciliação entre Aquiles e Príamo sem pensar:

“Em breve, o filho de Aquiles arrastará esse digno ancião pelos cabelos e o matará humilhantemente no altar de seu próprio palácio.”

Essas informações não estão na obra, mas nós lendo, o bardo cantando, o público ouvindo, todas sabemos.

Mais importante, a obra presume que sabemos. Essas informações adicionam camadas, complexidade, significado ao que está na obra.

Podemos ler literatura como quisermos. Mas sim, existem leituras mais e menos superficiais.

* * *

Na Internet, abundam discussões sobre se Jack cabia ou não na porta onde Rose estava flutuando depois do naufrágio do Titanic. Pessoas fazem gráficos, cálculos, experimentos para provar que, sim, ele de fato caberia na porta. Respondeu James Cameron:

“Jack tinha que morrer. A história só faz sentido com a morte de Jack. Se por acaso caberiam os dois em cima da porta, então foi erro do carpinteiro que deveria ter feito uma porta menor.”

Jack, assim como Aquiles, tinha que morrer. Senão não tinha história. Ser mortal é parte integrante da persona de Aquiles. Se Tétis tivesse conseguido torná-lo imortal, ele seria outra pessoa, a Ilíada seria outro poema, nossa conversa aqui seria outra conversa. Tudo seria diferente.

De certo modo, é um testamento ao poder da literatura que estamos aqui, três mil anos, discutindo como uma deusa grega deveria ter banhado o filho para transformá-lo em imortal.

Mas esse é o equivalente a gritarmos para o personagem no filme de terror: “Não entra aí! Fica em casa!”

Tétis não era uma mulher real encarando o problema concreto de como banhar um bebê no rio Estige. Tétis é um mito, o rio Estige é um mito, Aquiles é um mito.

A obra de arte não é um vidro transparente que nos permite espiar a vida de pessoas reais do outro lado e, assim, discutirmos a mecânica de suas decisões: como se equilibrar numa porta, como banhar um bebê, como sobreviver aos zumbis, etc.

A obra de arte é um vitral: ela é o objeto em si. Tétis nunca existiu, logo ela não poderia ter tomado decisões melhores. Já a Ilíada existe, e ela é fruto de incontáveis decisões ao longo de incontáveis séculos.

Então, por um lado, cada uma de nós lê como quer e como pode, trazendo para a leitura as ferramentas das quais dispomos. Não existe leitura errada.

Por outro lado, existem sim leituras mais simplistas e mais superficiais que outras.

Meu papel aqui é ensinar é que existem outras formas, mais abstratas e mais profundas, mais simbólicas e mais frutíferas, de lermos e analisarmos, pensarmos e conversarmos sobre literatura.

Que não precisamos ler a Ilíada da mesma maneira que assistimos um filme de terror, gritando para tela: “Não entra aí, menino!”

Minha melhor sugestão para quem quer o contexto da mitologia grega é comprar um dicionário de mitologia grega. Que vai servir para o resto da vida, para toda vez que alguém mencionar Antenor, ou Pantasiléia, ou Cassandra, e bater uma dúvida, vocês vão lá e veem quem é.

Meu dicionário de mitologia preferido, o que uso todo dia e resolve minha vida, é esse aqui, dividido em verbetes, com o nome e a história de simplesmente todo mundo que é mencionado em todos os poemas, peças, livros. Ele é infinitamente útil, para a vida inteira, não poderia recomendar com mais empolgação.

Para quem não lê inglês, a autora também escreveu esse guia de mitologia, narrativo e dividido em capítulos, publicado no Brasil. (Não gosto tanto, mas o capítulo da Guerra de Troia resolve todas as dúvidas.)

O melhor dicionário em português é esse aqui, que não é efetivamente bom: ele não fala de todo mundo, só das figuras principais. Para a maioria das leitoras, porém, será mais que suficiente, foi escrito por um dos maiores experts em mitologia que já tivemos e está disponível em ebook.

Felizmente, já existem muitas Ilíadas no mercado editorial brasileiro. Em breve, vou publicar um texto comparando várias traduções, e indicando os prós e os contras de cada uma. Por enquanto, a mais indicada para o público iniciante é essa.

Então, experimenta assistir as aulas da Introdução à Grande Conversa. As aulas e os curso são só para mecenas, mas é super fácil se tornar mecenas: basta fazer uma contribuição ao meu Apoia-se. As mecenas têm acesso a todos os meus cursos, passados, presentes e futuros, enquanto durar o mecenato.

Todo mês, dou aulas e promovo conversas livres sobre literatura e história para minhas pessoas mecenas. Aqui vão as próximas. Seja mecenas, é a melhor forma de me apoiar. Além disso, minhas mecenas têm acesso a todas as aulas dos meus cursos passados.

Quarta, 22: aula, As independências na América Latina

Quarta, 29: aula, Cem anos de solidão, Grande Conversa Romance

Domingo, 2: Conversa livre, Tetralogia napolitana, Grande Conversa Romance

(calendário completo para 2026)

O curso Grande conversa romance: 1 ano para ler 6 romances perfeitos é um mergulho profundo em alguns dos maiores e mais perfeitos romances da literatura mundial.

Dois meses para cada livro (quatro para Guerra e paz): um encontro livre para conversar sobre a leitura no primeiro domingo de cada mês e uma aula expositiva ao final dos dois meses, ambos no Zoom, e muito bate-papo literário todo dia no Whatsapp.

Ninguém precisa de ajuda para ler os livros fáceis e curtos. A ideia do curso é ajudar vocês a lerem aqueles livrões que, talvez, estavam adiando ler a vida inteira e, quem sabe, ajudá-los também a encontrar novos livrões legais.

Leremos só grandes livros, um romance em cada uma das principais línguas literárias ocidentais. Abaixo, a lista completa, em ordem cronológica. Os links já levam à edição recomendada.

Saiba mais sobre o curso aqui.

Qua, 22jul26, 19h: aula, As independências na América Latina

Qua, 29jul26, 19h: aula 5, Cem anos de solidão

Dom, 2ago26, 19h: Conversa livre, Tetralogia napolitana

Dom, 6set26, 19h: Conversa livre, Tetralogia napolitana

Qua, 30set26: aula, História da Itália

Dom, 4out26, 19h: Conversa livre, Tetralogia napolitana

Qua, 28out26, 19h: aula, Tetralogia napolitana

Read the original on alexcastro.substack.com

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