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Alex Castro · Apr 3, 2026

Guerra e paz, de Tolstói: um livro que é a própria vida

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Alex Castro · Alex Castro

Ler Guerra e paz é uma verdadeira aula de como não confiar em promessas narrativas e pistas literárias. Em meio a uma multidão de pessoas e de acontecimentos, nunca sabemos com certeza o que será relevante. De certo modo, tudo é importante, pois é o olhar de Tolstói que torna importante tudo aquilo no qual pousa sua atenção. O romance é longo e desconjuntado, traiçoeiro e brilhante como a própria vida.

(Guerra e paz, de Tolstói, foi a nossa leitura de dezembro a março do curso Grande Conversa Romance. A aula ao vivo aconteceu ontem, quarta, 1º de abril, e já está disponível a todas as pessoas alunas. O texto abaixo é, em larga medida, o roteiro dessa aula. Em abril e maio, nossa leitura será Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Vem com a gente?)

Guerra e paz é um livro sobre História. Mais precisamente, é um livro de teoria da História que usa situações ficcionalizadas para demonstrar seus argumentos.

A tese principal de Tolstói é que, ao contrário de como se pensava e se escrevia a História no século XIX, ela não era pautada, criada, implementada por grandes homens, tomando grandes decisões, em grandes eventos, mas sim pela vida cotidiana e cumulativa das pessoas simples e comuns.

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Para demonstrar essa tese, porém, não só a História real é falsificada, como são criados personagens falsos para expor essa realidade.

Napoleão, por exemplo, um daqueles poucos homens que de fato mudaram a história por força de suas ações individuais, é mostrado como um bobão vaidoso indeciso – alguém que ele talvez tenha sido intermitentemente durante a campanha de Moscou, mas que certamente não era A verdade sobre ele. Já Kutúzov, comandante em chefe das forças russas, que era um general cortesão cheio das politicagens, torna-se um sábio que “aprende” que a única verdade da vida é que existem forças maiores que nós e que é impossível nos rebelarmos contra elas.

Escreve Tolstói:

“Nos acontecimentos históricos, é mais evidente do que em qualquer outro caso a proibição de provar o fruto da árvore do conhecimento. Só a ação inconsciente dá frutos, e a pessoa que desempenha um papel nos acontecimentos históricos nunca entende seu significado. Se tenta compreendê-lo, dá-se conta de que isso é infrutífero.” (Guerra e paz, Tomo 4, Primeira parte, IV)

Tolstói era, antes de mais nada, um homem atormentado entre sua ética pessoal rigorosa e um corpo que quer beber e gozar. (Sua prosa é impressionante por sua fisicalidade. Se Dostoiévski era o escritor do espírito, Tolstói certamente era do corpo.) Em uma discussão sobre a verdade histórica de Jesus, ele cortou:

“Pouco me interessam essas questões. O que me interessa é: como devo viver? O que devo fazer?”

Essa era a questão desesperada que Tolstói estava sempre tentando responder.

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Sua teoria da História tenta fornecer algumas respostas. Como Platon Karatáiev ensina a Pierre durante seu cativeiro em Moscou, a vida não pede ações grandes e heroicas, mas, simplesmente, manter os rituais prosaicos cotidianos. Viver a própria vida seria o ápice da moralidade.

O que Tolstói parece defender é que, para entender o mundo, viver de forma moral e agir corretamente, é preciso primeiro entender, na verdade, aceitar, tanto a incerteza do mundo quanto a ignorância necessária do mundo.

Tudo em Guerra e paz gira em torno de “planos”. Todos estão sempre fazendo planos que nunca dão em nada, pois, faz sentido fazer planos em um universo tão mutável e incognoscível? Em Tolstói, as narrativas que construímos estão sempre em conflito com as vidas que levamos, tudo sempre pode ser destruído pela morte a qualquer momento, todos os sistemas são falhos, a incerteza impera. Nesse universo, como decidir quais ações tomar? Como decidir quem é bom e quem é mau?

Guerra e paz, hoje, transformou-se num romance tão canônico que é difícil de recuperar o quão estranho e não-convencional ele é – ou pareceu ser, a seus contemporâneos. Um exemplo: narrativas comuns e convencionais se esforçam para mostrar as conexões causais no seu enredo e, especialmente, dos seus fatos históricos. Não Guerra e paz. Tolstói cria um panorama amplo que busca incorporar tudo, tanto os detalhes importantes quanto os insignificantes, sem distinção. Por causa disso, a extensão do texto era necessária. Guerra e paz não funcionaria como texto curto.

Hoje em dia, em um filme, se a câmera dá um close em uma garrafa, já sabemos que ela será importante. Será que tem veneno? Será usada para bater na cabeça de alguém? A regra da “arma de Tchecov”, que ele inventou como uma piada, uma crítica irônica a enredos previsíveis e melodramáticos, os roteiristas hoje usam como prescrição. Tolstói, escrevendo Guerra e paz na década em que Tchecov nascia, trabalha com saturação de detalhes: ele nos mostra tantas armas que não tem como todas dispararem – e, efetivamente, não disparam. (Escrevi sobre Tchecov e sua arma aqui.)

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Sob um olhar que mostra cada detalhe com tanto foco, com tanta intensidade, não existe detalhe que não pareça sumamente importante. Se o cineasta de hoje mostra a garrafa para nos preparar para algum uso futuro daquela garrafa no enredo, Tolstói nos mostra a garrafa porque, ali, naquele momento, aquela garrafa é a coisa mais importante do mundo. Se a garrafa não aparecer mais no enredo, não tem problema. Não é que ela não era importante no enredo. Claro que era. Ela foi importante, foi de suma importância, em si mesma, na hora em que estávamos olhando para ela, considerando todos os seus detalhes com intensidade total. Como ela não teria importância? Mas nada disso quer dizer que ela aparecerá de novo ou que terá relevância para o enredo. Ela é importante como si só, como são importantes todos os detalhes onde Tolstói escolhe pousar sua atenção.

Se tudo é importante em si mesmo, nem tudo é relevante para o enredo: mas, por ser importante, tudo é potencialmente relevante. Em alguns personagens, em alguns eventos, esse potencial é maior, em outros, menor. Algumas vezes ele se realiza, algumas vezes não.

São tantos detalhes mostrados, tantos personagens apresentados, tantos acontecimentos narrados, tantas pistas sugeridas – só que, essa é a questão, não são pistas. Nós, erradamente, mal acostumadas que somos, julgamos que são pistas, mas não são. Porque chamá-las de pistas é julgá-las em relação ao que serão – o close na garrafa é uma pista que ela será usada para bater em alguém. Mas quando o close na garrafa é importante em si só ele não é pista de nada futuro: ele só é, agora, no presente. Em Tolstói, não existem pistas, tudo acontece agora, no presente plenamente iluminado. Nesse sentido, nenhum método narrativo poderia ser mais budista.

Os personagens “irrelevantes” servem a mesma função que os incidentes “irrelevantes”. É essa enorme massa de começos sem fim, de detalhes dispersos, de personagens que parecem influentes e que de repente somem, que ajuda a vender a teoria da História de Tolstói. Como disse um crítico, ler Guerra e paz é uma lição de modéstia epistêmica. A gente nunca sabe o que vai vir, o que vai acontecer, o que será relevante. É como passar centenas de vezes pela experiência de conhecer uma pessoa achando que ela se tornará sua amiga para então nunca mais encontrá-la de novo.

Um bom exemplo é o personagem Dólokhov, que parece que será importante, domina o começo do romance, quase mata Pierre, quase casa com Sônia, fracassa em tudo, e, então, some para só voltar a ser mencionado muito no final.

Somos uma espécie em busca de padrões: vemos três pontos no céu e já achamos que é um cabrito. Criar conexões e padrões ao escrever uma obra literária é quase automático. Tolstói lutou conscientemente contra isso, um processo que podemos acompanhar em suas muitas revisões.

Por exemplo, Pierre salva a vida de um oficial francês durante a ocupação de Moscou, o capitão Ramballe. Pouco depois, Pierre é preso pelos franceses. Naturalmente, nosso primeiro instinto de leitor é achar que o oficial francês salvará Pierre – ou que eles terão algum tipo de relação, ou mesmo alguma conversa futura, qualquer coisa, na real. Mas nada acontece. Ramballe só voltará a aparecer, brevemente e sem nenhuma relevância, na emboscada que Dólokhov (outro sumido) faz aos franceses em fuga.

Nenhum desses “acasos” é por acaso. Tolstói deliberadamente cortou as ligações entre personagens e enredo, deixando só alguns poucos fios tênues. Nada seria mais fácil e mais tentador do que ser Ramballe a matar o jovem Pétia, conectando assim vários mundos separados e nos dando uma morte patética, memorável e, mais importante, amarradora de pontas soltas. (A generosidade de Pierre com um inimigo em perigo acabaria, sem querer, levando à morte de seu jovem futuro cunhado, em sua primeira missão militar!)

Mas Tolstói intencionalmente não constrói um romance convencional. Todas as pontas são deixadas intencionalmente soltas. Guerra e paz é uma verdadeira aula de como não confiar em promessas narrativas e pistas literárias. Ele nos puxa o tapete a cada momento.

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Uma outra crítica relacionada é que os “arcos” dos personagens não têm explicações. Em outras palavras, os personagens mudam, mas nunca sabemos porque – vemos apenas os sinais externos de que mudaram. Como a mudança não é “sinalizada” nem preparada com pistas prévias, ela parece arbitrária. Como não é explicada, parece mais arbitrária ainda. Apesar disso, em nossa vida real, sabemos que é rigorosamente assim que as pessoas mudam de vida. É a teoria da História de Tolstói em ação.

Apesar de tudo, essas mudanças nos convencem. Por quê? Em grande parte por causa da autoridade da voz narrativa de Tolstói. Ele assume realmente a postura de um deus onipotente sobre sua criação: “A caçada foi o dia mais feliz da vida de Nikolai”, ele afirma, sem nunca explicar ou demonstrar, matizar ou suavizar. É um fato inquestionável que cabe ao leitor somente interpretar, entender, justificar, aceitar. Parece que Tolstói tem todas as respostas, mas apenas escolhe não compartilhá-las conosco. O efeito cumulativo de centenas de momentos como esse é a construção de uma autoridade inquestionável do autor sobre nós.

Foi essa estrutura meio amorfa, algo disforme que fez Guerra e paz ser tão criticado quando de seu lançamento por ser uma obra “não-convencional”. Naturalmente, para nós, hoje, o livro já está canonizado há tanto tempo que é difícil de recuperarmos esse sentido da estranheza original.

Essa falta de estrutura – tão cuidadosamente estruturada – é responsável pela sensação de que o livro não é um livro, que não foi fruto do engenho de nenhuma pessoa, mas que é um pedaço não-filtrado da vida, da vida como ela é, uma fatia de vida. Algo que caiu pronto do céu.

Para Tolstói, a arte não deveria ser “estética” e a única estética possível era uma “não-estética”. Daí, ele frequentemente falar, em referência aos seus Contos de Sebastopol e a Guerra e paz, mas, na prática, a respeito de toda sua obra, que seu personagem principal, seu único protagonista, é sempre a Verdade.

Sobre História, Tolstói também afirma que ela avança continuamente, logo, todo começo e todo final será sempre arbitrário: qualquer história sempre poderia “começar” ou “terminar” um pouco mais pra cá, ou mais pra lá, pelo simples fato que nenhuma história nunca efetivamente nem começa nem termina. A questão é apenas onde começar e parar de contar.

Sua intenção inicial em relação a Guerra e paz era escrever uma narrativa contemporânea, passada em 1856, e mostrando a volta dos dezembristas de seu exílio na Sibéria. Mas, para isso, ele sentiu que precisava mostrar o movimento dezembrista de 1825. Para ela fazer sentido, porém, era necessário contar da invasão da Rússia em 1812, que levou o Exército russo a ocupar Paris por vários anos e tomar contato com os ideais da Revolução Francesa. Como falar da invasão, entretanto, sem narrar as derrotas de 1805? E assim sucessivamente. Tolstói acaba decidindo começar seu romance em 1805 não porque a história que quer contar começa em 1805... mas porque ele tinha que começar de algum lugar.

Em sua versão final, a ação do romance acontece entre 1805 e 1820, comprimindo nesses quinze anos tudo que teria acontecido nas longas décadas do romance “original”. A vida louca de Pierre acaba resumida a uma festa doida, seu casamento com Helene, o duelo. Depois, sua fase revolucionária, seu envolvimento com o golpe dezembrista em si, é resumido em sua admiração por Napoleão, seu flerte com a maçonaria, suas tentativas de melhorar a vida dos servos, seu plano quixotesco de matar Napoleão. Por fim, para sua desilusão e subsequente regeneração espiritual não foram necessários os anos de exílio na Sibéria, mas apenas suas experiências de prisioneiro de guerra e sua amizade com Platon Karatáiev. Dessa maneira, em uma sequência temporal comprimida, tudo o que aconteceria nesse romance sobre a volta dos dezembristas... acontece antes mesmo de terem ido, antes mesmo de terem se rebelado. Todo um romance em ponto de fuga, apontando para um evento fora dele, mas em função do qual tudo acontece.

Para Tolstói, a História é um touro chucro, uma besta fora de controle. Só nos resta tentar não cair. Na falta de conexões causais entre os eventos, também não podem existir verdadeiros começos nem verdadeiros finais, somente pontos arbitrários para iniciar ou terminara narrativa. No final, o próprio Tolstói adverte os leitores para não se enganarem que a história “acabou”: não há fechamento, não há encerramento. Os personagens são apenas abandonados quando o autor perde o interesse neles, substituídos pelos ensaios teóricos que eram o verdadeiro interesse de Tolstói.

Tolstói tinha uma profunda compreensão do comum, do ordinário, do detalhe banal. Em um século de grandes sistemas totalizantes, onde os maiores pensadores buscavam grandes sistemas onde encaixar suas grandes verdades, do marxismo ao evolucionismo, Tolstói não acreditava em nada disso. Ele era um filósofo do presente, do aqui e do agora, com todas suas oportunidades não realizadas, vidas não vividas, começos não desenvolvidos, todas essas pequenas coisinhas, detalhes banais que não cabem em nenhum grande sistema, mas que são a essência da vida como ela é.

Somente mais tarde, muito mais tarde, a historiografia vai seguir em seus passos e autores como Gilberto Freyre serão os maiores praticantes de um novo tipo de História, uma História da vida privada, uma História não mais das guerras e das grandes mudanças políticas, mas das roupas, das comidas, das brincadeiras de quintal.

Tolstói percebia a realidade em toda a sua complexa multiplicidade, mas buscava desesperadamente por uma grande teoria que a resumisse, abarcasse. Sua existência era tese e antítese: Materialismo e espiritualismo. Vida ativa e vida intelectual. Vitalidade irracional e penetrante racionalidade analítico. Desejo de viver na sua plenitude seus gozos hedonistas, entregue ao momento presente, sem precisar pensar e se justificar, e a necessidade de justificar suas ações moral e eticamente. Observação empírica e empática da vida como ela é e opinião rígida, moral, totalizante de como a vida deveria ser.

Como quer que queiramos definir, era essa fratura que, ao mesmo tempo em que atormentava sua vida, dava energia a sua obra. Teorias totalizantes não faltavam no XIX (marxismo, evolucionismo, espiritismo etc) mas Tolstói, com seu olhar clinico e gênio crítico, demolia todas elas, até não sobrar nada. Sabia destruir, mas não sabia construir.

Passou a vida buscando pelo um e seus dons de artista só lhe permitiam ver os muitos.

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Esse texto é largamente baseado, e parafraseia alguns trechos, de Hidden in Plain View: Narrative and Creative Potentials in “War and Peace”, de Gary Saul Morson, meu livro preferido sobre Guerra e paz.

Também usei, e recomendo, O ouriço e a raposa: Um ensaio sobre a concepção de história de Tolstói, de Isaiah Berlin, e Tolstoy and the Genesis of War and Peace, de Kathryn B Feuer.

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Quarta, 27mai: aula, Grande sertão: veredas, Grande Conversa Romance

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