A obra do cabo-verdiano Joaquim Arena nos convida a fazer parte de uma grande conversa lusófona e afroatlântica. Para nós, pessoas brasileiras, essa conversa pode parecer ao mesmo tempo muito próxima, mas também muito exótica. É como se fosse uma grande festa da nossa família estendida que insistimos em não prestigiar.
(Uma versão resumida desse texto saiu na edição 98, de outubro de 2025, da Revista 451, só para assinantes. Essa aqui é uma versão expandida. Não deixem de ir lá, cliquem, comprem, assinem: prestigiem os veículos que ainda encomendam e compram resenhas. Como sempre, clicando nos links e comprando qualquer coisa na Amazon — não precisa necessariamente ser o ítem que você comprou — eu ganho uma comissão e fico muito grato.)
No Brasil, temos dois de seus livros editados fora da ordem de publicação original.
Seu romance “Siríaco e Mister Charles” (2022) conta a história de Siríaco, escravizado brasileiro nascido no Sergipe na década de 1760. Por sofrer de vitiligo e ter a pele manchada, ele se torna uma curiosidade científica e é enviado para Lisboa como presente à família real. Quando as tropas de Napoleão invadem o país, em 1807, Siríaco faz parte da evacuação forçada de Dom João VI rumo ao Brasil. Já na primeira parada, entretanto, nas ilhas do Cabo Verde, Siríaco se apaixona e abandona a viagem. Décadas mais tarde, em 1832, o navio inglês Beagle, transportando o jovem Charles Darwin, faz em Cabo Verde uma de suas primeiras escalas em sua viagem de cinco anos ao redor do mundo.
O centro do romance está na improvável amizade entre o velho Siríaco e o jovem Mister Charles. Afinal, o que significa ser um homem negro com vitiligo nesse mundo afroatlântico que rapidamente se moderniza? Em 2023, o romance ganhou um merecido Prêmio Oceanos e foi publicado no Brasil pela Gryphus no ano seguinte.
(O verdadeiro Siríaco, pintado por Manuel Joaquim da Rocha em 1786.)
Embalado por esse sucesso, sai agora no Brasil, pela mesma editora, uma de suas obras anteriores, “Debaixo da nossa pele: uma viagem”, originalmente publicada em 2017 e já traduzida ao inglês e ao chinês. Arena veio ao Brasil para o lançamento e esteve na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), onde falou em mesas da programação paralela. O autor tem várias outras obras ainda inéditas em nosso país, inclusive o recém-lançado “As mortes do meu pai”. Para Arena, esse livro encerraria o que ele chama de “Trilogia Negropolitana”, formada por “Debaixo da nossa pele” e “Siríaco e Mister Charles”, e tendo como objetivo dar vida aos homens e mulheres, descendentes de africanos escravizados, que foram levados à Metrópole.
Em “Siríaco e Mister Charles”, o protagonista nasce no Brasil, cresce em Lisboa e morre em Cabo Verde. Sua vida articula perfeitamente os três vértices de um triângulo que poderíamos chamar de lusoatlântico ou afropolitano. Já “Debaixo da nossa pele” consegue, ao mesmo tempo, ser mais intimista e mais expansivo. De estilo indefinido, não-ficção que pode ser lida como ficção, misto de ensaio pessoal com livro de viagens, a obra começa com uma análise de um quadro lisboeta do século XVI, passa por uma viagem às ex-comunidades de pessoas escravizadas às margens no rio Sado, no Além-Tejo, e termina traçando não apenas um panorama da presença africana negra na Europa como também um trajeto sentimental pelas memórias de infância do autor.
Joaquim Arena nasceu em Cabo Verde em 1964, filho de pai português e mãe cabo-verdiana. Ainda criança, foi para Portugal e, na idade adulta, voltou a Cabo Verde, onde mora e trabalha como jornalista. Ou seja, sua vida também reflete as migrações diaspóricas desse entrelugar afropolitano lusófono.
Em “Debaixo da nossa pele”, a partir de pequenos e fascinantes detalhes da História, Arena consegue colocar em questão valores caros à cultura ocidental como raça e nação. Ele começa sua crônica da negritude e da mestiçagem nesse nosso mundo afro-luso-atlântico a partir de um quadro do século XVI retratando uma cena urbana de Lisboa. Chama a atenção que, das 136 pessoas retratadas no quadro andando pelas ruas, 79 são negras. Não é o que esperaríamos da capital metropolitana de um império branco europeu.
(Quadro “O chafariz d’el Rey”, pintado por um holandês anônimo na década de 1570.)
Uma das figuras negras é identificável como João de Sá Panasco, filho de escravizados, ex-bobo da corte, cavalheiro da importante Ordem de Santiago e veterano da Conquista de Túnis, em 1535. De tudo o que poderia ter citado, eis a maravilhosa anedota que Arena escolhe pinçar do esquecimento da História:
“No meio dos combates, da carga dos cavaleiros e do silvo das setas, João de Sá, então um jovem adolescente, reparou num pequeno cão junto a uma oliveira, numa colina às portas da cidade. Atravessou o campo de batalha, impávido ao movimento de fugitivos e perseguidores, e recolheu o pequeno animal assustado, um pastor da Anatólia, que conservou até a morte.”
Em seguida, expandindo seu foco para além do mundo lusoatlântico, Arena apresenta a suas pessoas leitoras os antepassados negros de dois autores canônicos raramente apresentados como afrodescendentes.
Thomas-Alexandre Dumas (1762-1806) nasceu na colônia francesa de Santo Domingo, hoje, Haiti, filho de um marquês e de uma escravizada, e acabou se tornando o primeiro general negro do exército francês, tendo combatido longamente nas guerras napoleônicas. Perto do fim da vida, passou três anos encarcerado na fortaleza de Tarento, no Reino de Nápoles. Essa experiência vai inspirar Alexandre Dumas (1802-1870), filho do general, a escrever “O conde de Monte Cristo”. “As injustiças sofridas por Edmond Dantès não são mais do que aquelas sofridas pelo general seu pai”, escreve Arena.
(Um detalhe que Arena não conta: uma estátua de Thomas-Alexandre em Paris foi derretida pelos nazistas em 1940, durante a ocupação da França; em 2009, foi inaugurada em seu lugar uma escultura de dois grilhões gigantes e abertos, simbolizando o fim da escravidão.)
Já Abram Petrovich Gannibal (1696-1781) nasceu na Etiópia, foi escravizado pelos turcos e, então, comprado pelo embaixador russo e enviado de presente para o Czar Pedro, o Grande, que se tornou seu padrinho. Em uma longa carreira a serviço à Rússia, Gannibal chegou a ser matemático, linguista, diplomata, engenheiro e general. Voltaire o chamou de “a estrela negra do Iluminismo russo.” Teve dez filhos, que fizeram parte dos mais altos escalões da nobreza. Seu bisneto mais famoso foi Alexander Puchkin (1799-1837), considerado por escritores como Tolstoi e Dostoievski como o grande fundador e patriarca da literatura russa.
(A história de seu bisavô pode ser encontrada na noveleta “O negro de Pedro o Grande”, disponível no livro “A dama de espadas: prosa e poemas”, publicado no Brasil pela 34 em tradução de Bóris Chnaiderman.)
O que Arena nos mostra, nesses e em muitos outros exemplos, é o quanto não só o Império Português, mas a própria Europa é profundamente negra, diaspórica, afroatlântica. “A ideia de raça foi uma construção”, diz ele, na orelha. “Desfazer essa construção exige recontar o que foi esquecido — e também nos reencontrar com os fantasmas que deixamos para trás.”
Portugal parece nunca ter perdido o contato com suas ex-colônias e se abriu particularmente a elas depois das independências. As ex-colônias, por seu lado, tanto africanas quanto asiáticas, vêm mantendo uma troca cultural frutífera com a antiga metrópole. Enquanto isso, o enorme e autossuficiente Brasil parece continuar deitado em berço esplêndido do lado de cá do Atlântico, como se fosse a única nação lusófona do mundo, praticamente só consumindo sua própria cultura e ignorando solenemente esse caldo cultural cada vez mais vivo, cada vez mais vasto. Está na hora de nos juntarmos a essa festa.
Essa grande conversa lusófona acontece não só em ambos os lados do Atlântico, mas também na Ásia e na Oceania, tensionando identidades raciais e nacionais e provando que o português é uma língua global, dinâmica e pujante.
Excelentes lançamentos como “Debaixo da nossa pele”, de Joaquim Arena, servem para nos fazer perceber tudo que nós, pessoas brasileiras, estamos perdendo ao nos fecharmos em nós mesmas.
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