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Alex Castro · May 26, 2026

Diadorim, homem ou mulher? (Novas leituras de Grande sertão: veredas)

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Por que Riobaldo, ao contar sua história ao "dotô", se refere a Diadorim sempre só no masculino?

O romance Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, está completando 70 anos de publicação em 2026. Como todo texto clássico, ele convida o público a se engajar com ele das mais diversas maneiras. Um exemplo dessas diferentes leituras diz respeito ao gênero da personagem Diadorim. Até pouco tempo atrás, Diadorim era universalmente considerada uma mulher: só se fazia referência a ela no feminino e seu sexo era uma não-questão. Atualmente, porém, um novo arcabouço teórico (ainda em disputa) está sugerindo uma leitura do romance literalmente ao avesso: Diadorim seria um homem, pois era assim que vivia, falava, se apresentava. O amor entre Riobaldo e Diadorim, antes visto como hetero, algumas vezes como gay, agora está sendo lido como trans. Todas essas várias interpretações giram em torno da mesma pergunta: afinal, Diadorim é homem ou mulher?

(Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, é a nossa leitura de abril e maio no curso Grande Conversa Romance. A aula ao vivo acontece amanhã, quarta, 27 de maio e, sim, ainda dá tempo de participar. Em junho e julho, nossa leitura será Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Marquez. Vem com a gente?)

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Formação do cânone

Quase todo texto literário é escrito com um público-alvo contemporâneo em mente e, quando bem-sucedido, estabelece um diálogo com esse público.

Na maioria dos casos, o tempo passa, as gerações se alternam, e aquela obra já não tem mais nada a dizer ao novo público. A maioria dos romances brasileiros que compartilhava as livrarias com Machado de Assis já desapareceu, nem por serem ruins, mas por não comunicarem mais com as gerações posteriores. (Monteiro Lobato está passando por esse processo agora.)

Assim se forma o cânone literário. São canônicas as obras que conseguem manter a comunicação viva com as sucessivas gerações.

Novíssima biografia de Guimarães Rosa

Dom Casmurro, de Machado de Assis

Por exemplo, Dom Casmurro foi lançado em 1899 e, por sessenta anos, foi lido como uma história de ciúme obsessivo. O adultério de Capitu era um dado: ela era autoevidentemente adúltera e desonesta.

Leitura imperdível para quem gosta de Dom Casmurro

De repente, na década de 1960, uma pesquisadora norte-americana sugeriu que talvez Capitu fosse inocente. Não havia nenhuma prova cabal de seu adultério. Vai ver era tudo loucura da cabeça de seu marido obcecado. (Quando estudei Dom Casmurro na escola, na década de 1980, era essa a leitura dominante. Fizemos até um julgamento de Capitu: traiu ou não traiu?) Ou seja, sessenta anos depois, o livro continuava se comunicando conosco, gerando novas leituras, que abriam novas possibilidades interpretativas.

Por fim, quando ensinei Dom Casmurro na década de 2020, para um público mais jovem, a leitura já era radicalmente outra: as moças da turma consideravam que Bentinho era tão fraco e inseguro que ele merecia ser traído. Capitu não era nem desonesta nem adúltera: a questão não era mais “Capitu traiu ou não?” mas sim que Capitu deveria ter traído aquele esposo fraco que obviamente não estava à altura da esposa.

Minha edição preferida, pelas notas

Grande sertão: veredas, romance hétero

Grande sertão: veredas está passando por um processo semelhante.

Para seus primeiros leitores, Diadorim era claramente, autoevidentemente uma mulher, como revelado nas últimas páginas. (Todos os críticos dessa época, ainda não se importando com spoilers, só se referem a Diadorim no feminino. Afinal, se já sabemos que ela é mulher, só podemos nos referir a ela no feminino.)

Logo, o relacionamento central do livro era, por definição, heterossexual, uma história de amor e de amizade que foi, desde o começo, entre um homem e uma mulher. Riobaldo não sabia, e se torturou continuamente achando que amava um homem, mas Diadorim sabia e, de acordo com as pistas salpicadas ao longo do romance, estava prestes a revelar tudo, assim que a vingança pela morte do seu pai fosse realizada. Houve enganos, houve disfarces, houve travestismo, mas, debaixo disso, sexos biológicos e gêneros estavam separados e definidos.

Nada que não tivesse sido visto nas peças de Shakespeare.

Grande sertão: veredas, romance gay

Ao longo das décadas de 1970 e 1980, entretanto, começa a surgir um contradiscurso que, mesmo nunca colocando em questão que Diadorim é mulher, argumenta que o Grande sertão: veredas é, na prática, por toda sua extensão, até literalmente a última página, um romance homossexual, que explora e dramatiza todas as dores e dificuldades de um homem, até então hetero, tentando lidar com seus desejos homossexuais por um colega de bandidagem.

Se tivéssemos calhado de perder a última página do manuscrito, como aconteceu com tantos manuscritos medievais − as primeiras e últimas páginas são sempre as mais prováveis de caírem, queimarem, molharem, se extraviarem – Grande sertão: veredas seria considerado um dos maiores romances homossexuais de todos os tempos.

Por que, então, não ler a obra por essa chave? O cânone acolhe tão poucas obras abertamente homossexuais: por que ler essa obra fingindo que ela não representa um relacionamento homossexual?

Um guia bem competente para o romance.

Grande sertão: veredas, romance trans

Por fim, atualmente, na década de 2020, surgiu uma nova interpretação que teria sido praticamente impensável para o público leitor contemporâneo:

Riobaldo até pode ter considerado Diadorim mulher, pois isso lhe liberava da culpa de sentir desejo por um homem, mas nada indicava que ela fosse de fato mulher. Sim, claro, ela foi “designada mulher ao nascer”, mas viveu sua vida como homem, falava como homem, se apresentava como homem. Tudo o que vemos Diadorim fazer, falar, viver é como homem. A sua condição de mulher é literalmente algo que existe apenas na certidão de batismo e em seu corpo morto. Não seria Diadorim, então, um homem trans?

Quais novas possibilidades de leitura não são abertas por essa interpretação? A grande maioria desses novos críticos agora se refere a Diadorim no masculino, para “respeitar sua identidade de gênero”, como aliás faz Riobaldo ao longo do livro inteiro, mesmo sabendo que ela era biologicamente mulher.

Será que Riobaldo também via Diadorim como homem?

Ainda em pré-venda, quero muito ler.

A premissa de Grande sertão: veredas

Grande sertão: veredas é uma história contada oralmente ao longo de vários dias (três?), pelo ex-jagunço, atual latifundiário Riobaldo, em sua própria casa, para um interlocutor visitante de maior nível cultural, pretensamente um dotô urbano. Ouvimos apenas a fala de Riobaldo, mas sabemos que o interlocutor está lá por várias reações, perguntas, respostas de Riobaldo. A existência do interlocutor é o que justifica, possibilita a contação dessa história.

Riobaldo tem uma grande dúvida: o diabo existe? Fiz mesmo um pacto com ele? Em teoria, toda a história que ele conta é para dar ao interlocutor os subsídios para ajudá-lo nessa dúvida.

O personagem principal da narrativa, além dele próprio, é um companheiro de bandidagem chamado por todos de Reinaldo, mas que revela a Riobaldo que seu verdadeiro nome é Diadorim. Ao longo do livro, Riobaldo narra o que não pode deixar de ser visto como uma forte paixão carnal por Diadorim, algo que Riobaldo não nega ao interlocutor em nenhum momento:

Mas eu olhava esse menino, com um prazer de companhia, como nunca por ninguém eu não tinha sentido. Achava que ele era muito diferente, gostei daquelas finas feições, a voz mesma, muito leve, muito aprazível. Porque ele falava sem mudança, nem intenção, sem sobêjo de esforço, fazia de conversar uma conversinha adulta e antiga. Fui recebendo em mim um desejo de que ele não fosse mais embora, mas ficasse, sobre as horas, e assim como estava sendo, sem parolagem miúda, sem brincadeira — só meu companheiro amigo desconhecido.

Por fim, depois de quinhentas páginas de tensão sexual homoafetiva recalcada, Riobaldo revela que Diadorim era mulher: ao morrer, revelou-se um corpo feminino e buscas posteriores encontraram sua certidão de batismo, em nome de Maria Deodorina. Ela era, portanto, biologicamente mulher, designada mulher ao nascer.

Talvez o melhor livro sobre Grande Sertão: Veredas — empatada com Utéza, abaixo.

Por que Riobaldo se refere a Diadorim no masculino?

Mas fica uma dúvida prática: por que Riobaldo, quando conta a história da sua vida para seu interlocutor, se refere a Diadorim sempre no masculino, até o fim?

Não diegeticamente, por óbvio, o autor Guimarães Rosa escreve as falas de Riobaldo assim para manter segredo e suspense sobre a identidade de gênero de Diadorim. Mas, diegeticamente, por que o personagem Riobaldo, idoso, trinta anos depois, contando essa história a um interlocutor doutor da cidade grande, teria interesse em manter esse suspense sobre o relacionamento mais central de sua vida?

(Para quem não conhece o termo, diegético se refere ao que acontece dentro da narrativa e não-diegético, fora. Por exemplo, o tema do James Bond é uma música não-diegética, porque ela está tocando pra nós, aqui, fora no filme, mas não está tocando dentro do filme: o personagem James Bond não escuta essa música quando começa a perseguir um espião inimigo. Já se James Bond entra na casa do suspeito e ele está ouvindo um álbum de jazz, e ambos os personagens estão ouvindo essa música dentro do filme, ela é diegética. É um conceito que pode soar muito especializado, mas é bem útil, especialmente em discussões como essa aqui.)

O livro em si ensaia uma explicação:

“E disse. Eu conheci! Como em todo o tempo antes eu não contei ao senhor — e mercê peço: — mas para o senhor divulgar comigo, a par, justo o travo de tanto segredo, sabendo somente no átimo em que eu também só soube… Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita… Estarreci. A dôr não pode mais do que a surpresa. A côice d’arma, de coronha… Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me benzer — mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucúia, como eu solucei meu desespero.” (grifos meus)

Ou seja, Riobaldo queria que o dotô descobrisse a identidade de Diadorim junto com ele.

Talvez o melhor livro sobre Grande Sertão: Veredas — empatado com o Bolle, acima.

Ambivalência de Riobaldo em relação ao gênero de Diadorim

Pelo trecho acima, parece fora de dúvida que Riobaldo considera Diadorim mulher, pois tinha “corpo de mulher, moça perfeita”: Riobaldo enfatiza a materialidade do corpo de mulher de Diadorim. Mas e depois?

Nas poucas linhas que faltam para acabar o livro, Riobaldo se refere a Diadorim como mulher, mas também como homem, como se ele mesmo não conseguisse se decidir. Primeiro, no feminino:

“Como tinham ido abrir a cova, cristãmente. Pelo repugnar e revoltar, primeiro eu quis: — “Enterrem separado dos outros, num aliso de vereda, adonde ninguém ache, nunca se saiba…” Tal que disse, doidava. Recaí no marcar do sofrer. Em real me vi, que com a Mulher junto abraçado, nós dois chorávamos extenso. E todos meus jagunços decididos choravam. Daí, fomos, e em sepultura deixamos, no cemitério do Paredão enterrada, em campo do sertão. Ela tinha amor em mim.” (grifos meus)

Reparem que o “primeiro eu quis” indica que Riobaldo teve o impulso de enterrar Diadorim em separado, mas mudou de ideia. E, logo após, se refere a Diadorim agora no masculino e, também, no feminino:

“E, o pobre de mim, minha tristeza me atrasava, consumido. Eu não tinha competência de querer viver, tão acabadiço, até o cumprimento de respirar me sacava. E, Diadorim, às vezes conheci que a saudade dele não me desse repouso; nem o nele imaginar. Porque eu, em tanto viver de tempo, tinha negado em mim aquele amor, e a amizade desde agora estava amarga falseada; e o amor, e a pessoa dela, mesma, ela tinha me negado. Para quê eu ia conseguir viver?”

Mas é realmente crível (dentro da plausibilidade do romance) que Riobaldo faria suspense da identidade de gênero de seu grande amor por três dias inteiros?

Ao longo da narração, Riobaldo relata que claramente se incomoda de pensarem que ele sentia desejos sexuais por Reinaldo, ou que tinham qualquer tipo de relação sexual. Inclusive, afirma que ambos ameaçavam de morte quem desse a entender tamanha calúnia:

Diadorim e eu, nós dois. A gente dava passeios. Com assim, a gente se diferenciava dos outros — porque jagunço não é muito de conversa continuada nem de amizades estreitas: a bem eles se misturam e desmisturam, de acaso, mas cada um é feito um por si. De nós dois juntos, ninguém nada não falava. Tinham a boa prudência. Dissesse um, caçoasse, digo — podia morrer. Se acostumavam de ver a gente parmente. Que nem mais maldavam.

Em outro momento, faz questão de afirmar longamente sua macheza ortodoxa:

Mas ponho minha fiança: homem muito homem que fui, e homem por mulheres! — nunca tive inclinação pra aos vícios desencontrados. Repilo o que, o sem preceito. Então — o senhor me perguntará — o que era aquilo? Ah, lei ladra, o poder da vida. Direitinho declaro o que, durando todo tempo, sempre mais, às vezes menos, comigo se passou. Aquela mandante amizade. Eu não pensava em adiação nenhuma, de pior propósito. Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava. Diga o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa-feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar por longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente — tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. Muitos momentos. Conforme, por exemplo, quando eu me lembrava daquelas mãos, do jeito como se encostavam em meu rosto, quando ele cortou meu cabelo. Sempre. Do demo: Digo? Com que entendimento eu entendia, com que olhos era que eu olhava?

Mas, se Riobaldo se incomoda de pensarem que ele é o tipo de homem que amaria outro homem, por que então ele escolher narrar toda a sua vida fazendo de tudo para dar a entender ao seu interlocutor que ele sentia desejos sexuais por um homem colega de jagunçagem?

Na verdade, ele não somente “dá a entender”: em várias ocasiões, ele afirma textualmente seus desejos de agarrar, beijar Diadorim.

De perto, senti a respiração dele [Diadorim], remissa e delicada. Eu aí gostava dele. Não fosse um, como eu, disse a Deus que esse ente eu abraçava e beijava.

Uma vez, no auge do tesão, chega a perguntar se Diadorim tem irmã:

Meu corpo gostava de Diadorim. Estendi a mão, para suas formas; mas, quando ia, bobamente, ele me olhou — os olhos dele não me deixaram. Diadorim, sério, testalto. Tive um gelo. Só os olhos negavam. Vi — ele mesmo não percebeu nada. Mas, nem eu; eu tinha percebido? Eu estava me sabendo? Meu corpo gostava do corpo dele, na sala do teatro. Maiormente. .... Falei sonhando: — “Diadorim, você não tem, não terá alguma irmã, Diadorim?” — voz minha; eu perguntei.

Em outra ocasião, sonha que Diadorim passou por debaixo do arco-íris, o que, segundo o folclore, faz a pessoa mudar de sexo:

A voz dele era o tanto-tanto para o embabo de meu corpo. Noite essa, astúcia que tive uma sonhice: Diadorim passando por debaixo de um arco-íris. Ah, eu pudesse mesmo gostar dele — os gostares…

Qual é a narrativa de Reinaldo?

Qual é então a narrativa de vida que Riobaldo conta para si mesmo e para seu interlocutor?

“Sou um homem hetero que é tão hetero, mas tão hetero que farejei uma mulher disfarçada no meio de um bando de jagunço e vivi esse amor sempre por essa mulher, mesmo que eu não soubesse que era mulher.”

ou

“Sou um homem que amou e desejou outro homem, em uma relação homoafetiva nunca consumada, e descobri depois da morte que ele tinha calhado de ter sido ‘designada mulher ao nascer’, mas isso é um detalhe, amei foi o homem Reinaldo.”

Ao longo dos primeiros sessenta anos da recepção do livro, a primeira alternativa foi vista como quase autoevidente. Diadorim é mulher. Riobaldo escolhe esconder isso de seu interlocutor, mas esse fato nunca está em questão.

Agora, porém, surge uma leitura alternativa.

Diadorim, homem

De acordo com essa nova interpretação, Diadorim, apesar de “designada mulher ao nascer”, já se identificava como homem no mínimo desde a infância, antes mesmo de virar jagunço, antes mesmo de qualquer vingança. É como “menino” que Diadorim cruza o rio com Riobaldo.

A personagem Diadorim é constantemente estudada como uma manifestação das donzelas guerreiras da tradição folclórica e medieval, mas elas só se travestiam de homem para cumprir uma missão específica e, logo depois, revelavam sua verdadeira natureza de mulher. Então, por um lado, sim, Diadorim faz várias promessas de revelar um grande segredo a Riobaldo assim que a vingança esteja realizada. Mas, por outro, o episódio do Rio São Francisco parece escrito explicitamente para desautorizar essa leitura:.

Então, uma consequência possível dessa nova leitura é que Riobaldo se refere a Diadorim no masculino por reconhecer e respeitar sua identidade de gênero. O corpo morto de mulher e a certidão de batismo, ao nascimento, seriam assim apenas detalhes, de começo e de fim de percurso, que empalideceriam em comparação a toda uma vida que Riobaldo compartilhara com um Diadorim que falava, se apresentava, agia, se identificava como homem. A condição feminina de Diadorim só aparece à sua revelia, no batismo e na morte: entre esses dois extremos, todas as suas decisões conscientes são como homem. Tudo o que Diadorim faz, todas as decisões que toma, o jeito como se apresenta, a vida que escolher levar, é tudo masculino desde criança. Seria Diadorim então homem?

Diadorim, mulher

Por outro lado, Diadorim nasceu mulher, morreu mulher e foi mulher a vida inteira. Sua condição feminina marcou toda sua vida, influenciando talvez uma agressividade maior, para se pré-defender de ataques, e fazendo com que sempre tomasse banho à noite, em separado. Certamente, o fato de ser secretamente uma mulher, e, ainda por cima, filha do chefe, determinou o comportamento de Diadorim, que não era um jagunço como os outros.

Ao mesmo tempo, mesmo nesse contexto hiper masculino, em um universo onde todos eram autossuficientes em suas tarefas pessoais, ela fazia questão de fazer para Riobaldo (seu homem?) várias pequenas tarefas, pequenos carinhos, tradicionalmente associados ao gênero feminino. Ou seja, Diadorim se apresentava como homem, escondia de todos a visão de seu corpo nu e realizava para seu companheiro algumas tarefas associadas ao feminino.

Ele [Diadorim] tinha lavado minha roupa: duas camisas e um paletó e uma calça, e outra camisa, nova, de bulgariana. Às vezes eu lavava a roupa, nossa; mas quase mais quem fazia isso era Diadorim. Porque eu achava tal serviço o pior de todos, e também Diadorim praticava com mais jeito, mão melhor.

Em um dado momento, depois de ouvir os jagunços se gabando dos estupros que cometiam, Diadorim diz:

Mulher é gente tão infeliz… — me disse Diadorim, uma vez, depois que tinha ouvido as estórias.

Diadorim lamentava a condição das mulheres, sim, mas lamentava enquanto mulher forçada a se travestir de homem, ou enquanto homem trans designado mulher ao nascer?

Em resposta à forte tensão sexual entre eles, uma vez Diadorim diz a Riobaldo:

O que não digo, o senhor verá: como é que Diadorim podia ser assim em minha vida o maior segredo? De manhã, naquele mesmo dia, ele tinha conversado, de me dizer: — “Riobaldo, eu gostava que você pudesse ter nascido parente meu…”

Diadorim queria ser parente de Riobaldo... para serem ainda mais próximos? Ou para serem ambos libertados da sufocante possibilidade de uma relação sexual iminente?

Mais do que tudo, existem as promessas, insistentemente repetidas, de que Diadorim revelaria um grande segredo a Riobaldo uma vez que a missão fosse cumprida.

“Daí, mesmo, que, certa hora, Diadorim se chegou, com uma avença. Para meu sofrer, muito me lembro. Diadorim, todo formosura. / — “Riobaldo, escuta: vamos na estreitez deste passo…” — ele disse; e de medo não tremia, que era de amor — hoje sei. /— “…Riobaldo, o cumprir de nossa vingança vem perto… Daí, quando tudo estiver repago e refeito, um segredo, uma coisa, vou contar a você…” / Ele disse, com o amor no fato das palavras. Eu ouvi. Ouvi, mas mentido. Eu estava longe de mim e dele. Do que Diadorim mais me disse, desentendi metade.”

Esse fato, entretanto, corta para ambos lados. A intepretação tradicional sempre foi que Diadorim revelaria que, na verdade, era mulher, que ela e Riobaldo podiam ser um casal heterossexual padrão. Mas, talvez, o grande segredo era uma variação desse: Diadorim revelaria que era um homem trans, designado mulher ao nascer, mas que escolhia viver e se identificar como homem. E não era, afinal, pelo homem Reinaldo que Riobaldo se apaixonara?

Pensar em Diadorim, era o que me dava cordura de paz.

Conclusão

Naturalmente, não existem respostas certas. Uma leitura queer atual não é menos correta, ou menos possível, do que a leitura hetero tradicional só porque ela certamente não teria sido intencionada pelo autor Guimarães Rosa. A beleza dos clássicos é que eles continuam conversando com as novas gerações a medida em que o tempo passa. O Grande sertão: veredas de 1956 não é o mesmo de 2026 porque nós também não somos mais as mesmas pessoas: já temos outros modos de ver a vida, novas prioridades, diferentes maneiras de entender o sexo e o gênero. Essa multiplicidade de leituras é justamente o que caracteriza os grandes livros e o motivo pelo qual permanecem no cânone.

Fica a última dúvida para cada pessoa leitora responder: se a vingança tivesse sido bem-sucedida, se Riobaldo e Diadorim tivessem conseguido abandonar o jaguncismo e se perder no sertão, se tivessem encontrado uma casinha para viver seu amor longe dos olhos de todos... a pessoa ao lado de Riobaldo nesse idílio amoroso seria uma Diadorim mulher, finalmente livre para usar vestidos ou deixar o cabelo crescer, ou seria um Diadorim homem, finalmente livre para amar outro homem enquanto homem?

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