Grande sertão: veredas, escrito por Guimarães Rosa e publicado há 70 anos, é um pequeno milagre literário, daqueles que poderíamos passar toda uma vida nos perguntando como foi possível existir.
Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, é a nossa leitura de abril e maio no curso Grande Conversa Romance. A aula ao vivo acontece hoje, domingo, 31 de maio e, sim, ainda dá tempo de participar. Em junho e julho, nossa leitura será Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Marquez. Vem com a gente?
Aqui vão minhas últimas notas de leitura.
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Grande sertão: veredas talvez tivesse sido a maior contribuição do Brasil à literatura mundial... se fosse possível de ser lido em outro idioma que não o português.
(Aliás, por ter sido escrito em uma língua criada especialmente para ele, precisamos ler por um número mínimo de páginas — digamos vinte — para darmos aos nossos ouvidos o tempo necessário para se adaptar, se adequar, se acostumar.)
Nenhuma obra literária brasileira é, ao mesmo tempo, tão inovadora no estilo e tão arrebatadora no enredo, tão fortemente regional e tão absolutamente cósmica. O paradoxo de Grande sertão: veredas é ser, ao mesmo tempo, nossa obra mais moderna, mais contemporânea, mais vanguardista, e também a que mais bebe nas fontes mais profundas de nossos tradições culturais, folclóricas, religiosas: o que move Riobaldo e seus capangas a lutar não seria incompreensível para Rei Arthur e seus cavaleiros.
Em Grande sertão: veredas, o mundo jagunço movido a honra e violência é um universo tão estilizado e tão literário quanto o mundo dos heróis da Ilíada ou de qualquer épico cavalheiresco medieval. Com exceção de Riobaldo, alter-ego da pessoa leitora, todos as outras personagens parecem muito confortáveis e adaptadas a esse ambiente, inclusive Diadorim.
Aliás, a grande tragédia no cerne do romance é a incapacidade de Riobaldo de transmitir esse seu estranhamento e deslocamento a Diadorim, retirando-a desse mundo e salvando sua vida. Assim como Aquiles, que teve todas as chances de abandonar o combate, voltar para casa e ter vida longa, Diadorim escolhe conscientemente o ódio e a vingança. Grande sertão: veredas é o que aconteceria com a Ilíada se ela se passasse no sertão e Aquiles fosse um homem do século XX, introspectivo e alfabetizado, capaz de refletir sobre o Bem e Mal, capaz de escolher a vida e não a morte.
(O ponto alto do romance é o julgamento de Zé Bebelo, temos uma micro-Orestéia brasileira, uma passagem dos tempos da jagunçagem, onde valia a lei do mais forte, para uma etapa mais civilizada, onde já existem julgamentos, onde o acusado pode falar e se defender. Apesar de Riobaldo, em sua narração, ter nostalgia dos tempos de guerra, não é à toa que coloca esse julgamento como clímax do romance. Afinal, ele, também, é um jagunço que abandonou a bandidagem.)
Aparentemente regionalista, Grande sertão: veredas consegue vencer os maiores perigos do regionalismo literário: reduzir os personagens a tipos pitorescos e superficiais, e recair em uma nostalgia conformista e conservadora. O grande feito de Rosa é fundir a perspectiva paroquial do regionalismo com as técnicas mais vanguardistas da nova literatura internacional: apesar de ancorado na brasilidade, Grande sertão: veredas é uma obra que transcende o país, supera as discussões nacionalistas sobre o que é ou deixa de ser o Brasil e atinge, enfim, a universalidade artística.
Grande sertão: veredas é regionalista?
Mas, primeiro, o que é o regionalismo? Machado de Assis nunca saiu do Rio de Janeiro e toda sua obra se passa nessa cidade. É um autor regionalista?
Uma possível distinção: obras regionalistas seriam deterministas. Ou seja, a vida dos personagens seria determinada pela região onde habitam.
E, sim, de fato, Riobaldo claramente transcende, em alguma medida, o seu meio físico. Essa é a explicação canônica: Grande sertão: veredas não é uma obra regionalista pois transcende o mero determinismo geográfico regionalista.
Mas, por outro lado, que aspecto da vida de Riobaldo não é determinado por ser um sertanejo? Se não fosse, alguma de suas aventuras no romance teria acontecido?
E, ao mesmo tempo, todos os fatos da vida de Brás Cubas, no romance machadiano, não são também determinados por ter nascido e vivido na Corte Imperial?
O livro já começa em diálogo e em disputa. Quando um escritor escolhe chamar seu livro de Grande sertão: veredas em um país cujo maior clássico é Os sertões, de Euclides da Cunha, não pode ser coincidência. Ele já está abrindo um diálogo com esse clássico. No caso, Euclides traça em seu livro uma dicotomia clara entre a gente do Litoral e a gente do Sertão. Em teoria, para mostrar a barbárie do povo do Sertão, mas acaba também mostrando a barbárie do povo do litoral – como quando as turbas da Rua do Ouvidor, na Capital Federal, destroem os jornais monarquistas. (Um texto meu sobre Os sertões.)
Guimarães Rosa, quando chama seu livro de Grande sertão: veredas, já está nos avisando que vai entabular um diálogo com Euclides, e faz isso já no primeiro parágrafo.
Ou seja, Rosa já abre o livro apresentando o sertão como um território em disputa, em fluxo, fluido. Para os de Curvelo e Corinto, é aqui, esse aqui indistinto onde está o velho jagunço aposentado Riobaldo. Para os de Cordisburgo, terra natal de Guimarães Rosa, quem sabe? Afinal, o que é o sertão? Onde está o sertão? O sertão é sempre um outro. O sertão, quem sabe, somos nós.
O livro sobre o “grande sertão” já começa desestabilizando a nossa noção de sertão. Se nem o sertão é o sertão, então tudo é possível. O livro sobre o grande sertão já começa puxando o tapete da pessoa leitora.
E o tapete continua sempre puxado. A narração do Riobaldo, para a maioria das pessoas leitoras, é o maior empecilho à leitura do livro. Riobaldo fala conosco (ele está sempre se dirigindo a um interlocutor, que, no caso da leitura, somos nós, eu e você), ele fala conosco com carinho e consideração, faz perguntas, manifesta interesse na nossa opinião... mas a verdade é que não está interessado em se fazer entender, não respeita nosso tempo, parece não perceber o quão desorientadas nós estamos.
Então, nossa relação com Riobaldo é de amor e ódio, proximidade e distância: ao mesmo tempo em que ele nos seduz (todo narrador de grande romance é necessariamente sedutor, ele precisa nos seduzir a continuar lendo), ele também nos afasta, com seu total desinteresse em se fazer compreender por nós, em nós guiar no emaranhado de sua narração. Continuamos a ler não porque estamos entendendo o que está acontecendo, mas porque nos afeiçoamos a esse velho falador, confuso e enrolado, que aparentemente está dando voltas em torno de algo muito, muito importante que quer nos contar.
A voz de Riobaldo é o grande toque de gênio de Grande sertão: veredas.
As narrativas regionalistas são frequentemente sabotadas por seu próprio paternalismo e condescendência: o autor é sempre um intelectual de fora, que se coloca acima daquela região e de seus problemas, olhando de cima para baixo seus pobres personagens cujas vidas são determinadas por sua região. (Pensem em um homem culto e articulado como Gracialiano Ramos tentando escrever sobre uma família quase afásica como a de Fabiano, em Vidas Secas.)
Duas de nossas maiores obras-primas, Grande sertão: veredas e A hora da estrela, resolvem esse problema de maneiras semelhantes.
Clarice Lispector não tenta ela mesma escrever sobre Macabéa: pelo contrário, ela coloca um escritor homem sudestino entre ela e sua personagem. A hora da estrela é a história do escritor Rodrigo S.M. tentando escrever sobre Macabéa… e falhando. É a história de um olhar. É a história da impossibilidade de um olhar. (Escrevi mais sobre isso aqui.)
Grande sertão: veredas faz um pouco diferente: Guimarães Rosa reconhece a presença disruptiva que um dotô urbano pode ter sobre um ex-jagunço que deseja parecer culto e importante.
Por isso, a voz de Riobaldo, a voz genial que acompanhamos por 500 páginas, não se pretende nunca a voz “real”, “pura”, “típica”, “pitoresca”, etc, de um autêntico jagunço de verdade, mas, pelo contrário, é a voz de um jagunço já alterada, influenciada, adaptada, corrompida?, por sua interlocução com um dotô da cidade grande que ele quer impressionar, com quem ele quer, no mínimo, dialogar de igual pra igual, e, às vezes, até superar.
Daí, inclusive, ser uma voz tão única, tão específica.
Rosa evita, assim, todo o paternalismo condescendente de boa parte da literatura regionalista e se coloca fora dela: não mais regionalista, Grande sertão: veredas é um romance cósmico, existencial, humano.
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Quarta, 31mai: aula, Grande sertão: veredas, Grande Conversa Romance
Quarta, 10jun: aula, Cidade, Grande Conversa Medieval
Domingo, 14jun: conversa livre, Cem anos de solidão, Grande Conversa Romance
Quarta, 17jun: aula, United Fruit e as repúblicas de bananas, Grande Conversa Romance
(calendário completo para 2026)
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O curso Grande conversa romance: 1 ano para ler 6 romances perfeitos é um mergulho profundo em alguns dos maiores e mais perfeitos romances da literatura mundial.
Dois meses para cada livro (quatro para Guerra e paz): um encontro livre para conversar sobre a leitura no primeiro domingo de cada mês e uma aula expositiva ao final dos dois meses, ambos no Zoom, e muito bate-papo literário todo dia no Whatsapp.
Ninguém precisa de ajuda para ler os livros fáceis e curtos. A ideia do curso é ajudar vocês a lerem aqueles livrões que, talvez, estavam adiando ler a vida inteira e, quem sabe, ajudá-los também a encontrar novos livrões legais.
Leremos só grandes livros, um romance em cada uma das principais línguas literárias ocidentais. Abaixo, a lista completa, em ordem cronológica. Os links já levam à edição recomendada.
1 Moby Dick, inglês, 1851 (agosto & setembro 2025)
2 Os miseráveis, francês, 1862 (outubro & novembro 2025)
3 Guerra e paz, russo, 1867 (dezembro 2025, janeiro, fevereiro & março 2026)
4 Grande sertão: veredas, português, 1956 (abril & maio 2026)
5 Cem anos de solidão, espanhol, 1967 (junho & julho 2026)
6 Tetralogia napolitana, italiano, 2015 (agosto & setembrp 2026)
Saiba mais sobre o curso aqui.
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Qua, 27mai26, 19h: aula, Grande sertão: veredas
Dom, 14jun26, 19h: Conversa livre, Cem anos de solidão
Qua, 17jun26, 19h: aula, United Fruit e as repúblicas de bananas
Dom, 5jul26, 19h: Conversa livre, Cem anos de solidão
Qua, 22jul26, 19h: aula, As independências na América Latina
Qua, 29jul26, 19h: aula 5, Cem anos de solidão
Dom, 2ago26, 19h: Conversa livre, Tetralogia napolitana
Qua, 19ago26: aula, História da Itália
Dom, 6set26, 19h: Conversa livre, Tetralogia napolitana
Qua, 30set26, 19h: aula, Tetralogia napolitana
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40 livros escritos por mulheres, escolhidos por Elena Ferrante e comentados por mim
8 poetas (que seriam) preferidos... se eu conseguisse ler no original
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Se meus textos tiveram impacto em você, se minhas palavras te ajudaram em momentos difíceis, se usa meus argumentos para ganhar discussões, se minhas ideias adicionaram valor à sua vida, por favor, considere fazer uma contribuição do tamanho desse valor. Assim, você estará me dando a possibilidade de criar novos textos, produzir novos argumentos, inventar novas ideias.
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