E, mais uma vez, minha procrastinação e péssima gestão do tempo entram em choque com minha produção de textos. Depois eu não entendo porque tão poucas pessoas, no fim, acabam lendo o que eu escrevo, afinal, pra que acompanhar um colunista que só escreve quando algum tipo de iluminação divina vem?
Muito aconteceu desde a última vez que escrevi aqui. Como alguns de vocês sabem, mudei de emprego novamente depois de 10 meses e 1 burnout na Meta. Eu pretendia escrever algo especificamente sobre esse tema em si, mas acabou que não consegui encontrar o tom correto, até agora.
Esse é o texto mais longo que eu já escrevi em todo tipo de blog que já tive na vida (e talvez o mais pessoal). Já aviso desde já para, caso decida me acompanhar, ter um pouquinho de paciência - mas sua leitura é muito importante. :)
Pra quem não me conhece pessoalmente ou não me acompanha lá na rede mais esquizofrênica do planeta (Linkedisney), eu trabalho com publicidade online já há pouco mais de 20 anos, mais especificamente na parte técnica da indústria, comumente conhecida como “AdTech”. Comecei minha carreira na Globo (e, honestamente, aprendi boa parte do que eu sei hoje do negócio, lá no longínquo 2005) e, durante essas duas décadas, passei por diversas empresas de todos os tamanhos até chegar no Google, em 2018.
Aqui cabe um à parte rápido: todas as empresas pelas quais passei têm grande importância e significância na construção da minha “persona corporativa”. No entanto, pra esse texto específico, faz mais sentido focar na experiência a partir do Google.
Certamente o Google foi (e é, até o momento) a minha grande realização profissional. Por quase 7 anos, lá trabalhei como Arquiteto de Soluções para Ads numa área chamada “gTech”, que é a área do Google que abraça a maioria dos times técnicos da empresa, especialmente com foco em produtos e negócios (explicação bem superficial pra fins de ilustração); os engenheiros de software, como comparação, fazem parte de outra organização.
A maior parte do meu tempo dentro do Google foi, sem exagero, incrível. Toda a conversa sobre cultura que a gente vê (ou via) por aí era, de fato, super real e eu lidava diariamente com pessoas incríveis e um ambiente bem acolhedor, mesmo. É óbvio que o deslumbre, do meu lado, sempre vinha com camada de precaução já que sempre tive muito presente pra mim que uma empresa sempre vai ser uma empresa, seja ela o Google ou uma empresa familiar de bairro, afinal, o capitalismo só se preocupa com, bem, ele mesmo.
No entanto, como alguns de vocês também sabem, uma das minhas características mais marcantes é me jogar de corpo inteiro nas coisas que me envolvo, mais ainda se forem relacionadas a trabalho (e haja terapia…). Vejam: minha relação com trabalho, responsabilidade e dinheiro é algo extremamente complexo que não cabe uma digressão aqui, porém, é importante ressaltar que isso tem enorme influência na minha vida corporativa - e no meu burnout.
O Google é uma empresa fantástica, mas igualmente exigente. O fato mais conhecido de se trabalhar pra uma big tech é todo o lance da “independência” de seus funcionários, onde você é responsável por sua carreira: suas entregas, seus objetivos, seus horários etc. Mas essa liberdade aparente vem com contrapartidas bem específicas e definidas desde o dia 1, por conta disso, todo semestre os funcionários passam por um ciclo de avaliação de performance bem parecido com provas semestrais de faculdade, fazendo uma autoavaliação por escrito, ressaltando suas contribuições e o impacto no resultado de negócio e recebendo “notas” dos seus managers. Essas avaliações são usadas pra:
Entender se você está atingindo seus OKRs (objetivos), ou seja, se o que você está entregando está de acordo com as expectativas
Entender, também, se como você está desempenhando sua função está dentro do esperado pelo seu gerente e pelo Google
Se há pontos de atenção ou correções a serem feitas
E, finalmente, se você está apto a ser promovido e qual será seu reajuste salarial, bônus e outros ganhos financeiros pro ano seguinte.
Como vocês devem imaginar, esse é um processo extremamente desgastante e estressante, mas é parte do jogo. Se você entende isso minimamente, é possível ter uma carreira sólida e de sucesso. Mas a conta chega.
Em 2023, não só estávamos lidando com o mundo das big tech pós-pandemia e com a chuva de demissões em massa no setor, mas eu também estava em um momento pessoal super complicado e, obviamente, minha performance caiu drasticamente. Além disso, eu já vinha um pouco “cansado” da minha rotina e procurando outras oportunidades dentro da empresa, que foram reduzidas a quase nada por conta dos cortes e tudo o mais.
Por sorte, eu fazia parte de uma equipe bacana demais e tinha um gestor extremamente competente e parceiro. Isso é importante, porque, não fosse isso certamente esse texto teria outro tom e enredo. Bem, o fato é que eu já não me sentia a mesma pessoa lá dentro e, por mais que eu ainda gostasse muito do Google e das pessoas com quem trabalhava diariamente, meu corpo e minha mente já começavam a dar sinais de exaustão. Hoje, em retrospecto, eu sei que deveria ter prestado atenção nestes sinais pra além do “estou de bode do meu trampo”, porque, certamente, eram os primeiros sintomas de algo mais sério.
Consegui recuperar uma parte do tesão e da vontade de trabalhar lá e na minha posição e, depois da turbulência, parecia que ia conseguir me estabilizar de novo. No entanto, a flutuação de humor e vontade vinha cada vez mais e mais e, no finzinho de 2024, eu passei num processo seletivo pra entrar na Meta (antigo Facebook). Parecia uma ótima oportunidade: mais dinheiro, um escopo aparentemente que eu vinha buscando há tempos e uma mudança de indústria: de ads pra business messaging (em outras palavras, WhatsApp for Business).
Quando decidi aceitar a proposta, por conta de umas cabeçadas do RH do Google, acabei ganhando 40 dias entre uma empresa e outra. A minha última semana de Google foi extremamente (repito, extremamente) difícil, mas, eu tinha certeza que estava indo para um lugar melhor pra mim naquele momento.
Quarenta dias, tempo pra fazer muito coisa, né? Pois bem, não. Eu acabei fazendo algumas coisas que estavam pendentes na minha vida, mas não muito. Boa parte do tempo eu passei “preguiçando” e dizendo pra mim mesmo que eu merecia e precisava daquilo, afinal, tinha acabado de sair esgotado de 7 anos na maior empresa de tecnologia do planeta.
O problema é que eu ignorei todos os sintomas claros de que minha saúde mental não estava em dia. Mesmo sem trabalhar e sem “problemas financeiros”, eu vivia ansioso, meio deprimido, sem vontade… e aqui é o pulo do gato: eu não fiz nada com isso e lá fui eu pra minha nova casa, a Zucklândia.
As primeiras semanas na Meta foram legais. Apesar de sentir alguma coisa de estranha lá (era difícil pra mim, desde aquela época, estar em uma empresa que rotineiramente fazia coisas com as quais eu não concordava e cujo dono é basicamente um imbecil com dinheiro), as coisas rolavam bem. As pessoas com quem eu trabalhava imediatamente eram super legais, a empresa parecia muito com o Google do ponto de vista cultural e estrutural, o que facilitava algumas coisas, e eu realmente acreditava que podia fazer a diferença e “me dar bem ali” considerando toda a minha experiência no mercado.
No entanto, conforme o tempo foi passando, eu comecei a perceber que o escopo esperado do meu trabalho era diametralmente oposto não somente ao que eu queria, mas ao que me foi prometido nas entrevistas. Isso, como sabem, acontece o tempo todo no mundo do trabalho, só que pra uma pessoa ansiosa com um burnout cozinhando dentro do corpo, foi a chama no pavio.
A cada dia que passava eu me sentia mais incomodado com o meu trabalho, decepcionado com a minha escolha e extremamente irritado com meu dia-a-dia; funções e entregas extremamente simples eram um sofrimento e uma dor sem tamanho pra mim. Além disso, por fazer parte de um time global e ser uma pessoa desgraçadamente envolvida com trabalho e com a necessidade da perfeição (novamente, haja terapia), eu me via fazendo reuniões 6 da manhã, 11 da noite etc.
No pico desse momento, eu passei a olhar vagas no mercado e, desesperadamente, falar com amigos do Google sobre oportunidades pra voltar: o Google era meu lugar seguro e onde eu conhecia tudo e todos, prós e contras. No entanto, essa minha busca pela volta era mais um grito de desespero de quem não sabia mais o que fazer (e de, sejamos francos, arrependimento).
Isso tudo culminou em uma consulta com uma psiquiatra que, em menos de 15 minutos, já tinha dito: “isso é burnout e você está no seu limite. Precisamos falar sobre afastamento e medicação”, e foi o que aconteceu. No começo de Junho eu estava afastado por quase 30 dias (licença médica + dias que eu tirei por conta) e sem saber o que ia acontecer.
Durante esses dias, o meu grande objetivo era olhar pra mim de maneira profunda e verdadeira e me comprometer a fazer as mudanças. E mais: eu queria voltar bem pra Meta e fazer meu trabalho com a qualidade que eu sempre tive; crescer, ter uma história decente lá dentro e, caso algo melhor surgisse depois, sair sem a sensação de que eu estava fugindo.
Honestamente esse foi um dos melhores períodos da minha vida recente no que diz respeito a cuidados com saúde. Não só a medicação (Sertralina) começou a e me ajudar a me sentir um pouco menos ansioso, desesperado e depressivo, mas colocar minha mente pra planejar e projetar meu futuro foi super importante. Embora mais uma vez eu tenha feito muito menos do que eu gostaria (e precisava) durante esses 30 dias, eu fiz e mudei coisas das quais me orgulhei. Grande parte desse entendimento, também, veio das consultas com uma nova psicóloga, mais focada em mudanças comportamentais.
No fim de junho eu voltei pra Meta meio que sem saber como ia me sentir. A verdade é que, na primeira semana, percebi que estava conseguindo separar algumas coisas dentro da minha cabeça e que, minha relação com o trabalho, estava diferente. Por exemplo: eu conseguia, quando parava de trabalhar, simplesmente ignorar o meu telefone corporativo e suas notificações até o dia seguinte.
Mas o fato era: eu não gostava daquilo com que eu trabalhava e me sentia perdendo meu tempo. Também preciso ressaltar que, depois da eleição do Laranjão nos Estados Unidos, todas as big techs (como vocês devem ter acompanhado) sofreram uma reviravolta em vários aspectos. No caso da Meta, no entanto, isso foi mais agressivo e violento, o que (sem nenhuma tentativa de parecer uma pessoa acima do bem e do mal e que nunca fez nada de ruim na vida) contribuiu ainda mais pro meu desconforto de fazer parte da companhia. O meu objetivo passou a ser completar 1 ano lá, cumprir meus objetivos da melhor maneira possível, sair de férias no ano seguinte e, então, ver o que fazer.
Porém, a vida, não faz as coisas da maneira que nós queremos.
No fim, combinando o fato do mercado de AdTech ser super pequeno com um pouco de sorte, recebi um contato do Mercado Livre para participar de um processo seletivo pra uma vaga de Gerente de Produto dentro do time de Mercado Ads. Produto é uma área na qual eu sempre busquei oportunidades, inclusive dentro do Google. Ao fim de um processo com 6 entrevistas muito boas, o Meli me fez uma proposta e eu aceitei. Essa semana completei 3 semanas de Mercado Livre (também papo pra outro texto).
Comecei no Mercado Livre de maneira completamente diferente a quando comecei na Meta. Não só estou num momento mental muito melhor, por conta da terapia e do tempo de medicação acumulada, mas dessa vez estou fazendo o que me foi prometido e o que sempre quis fazer, mas nesses primeiros dias, existe uma áurea diferente no dia-a-dia profissional.
Aqui acho que fica a lição mais importante depois desse texto de proporções acadêmicas de tão extenso: a grande diferença está em como eu olho pra mim, minha saúde mental e até onde eu estou disposto a ir. Trabalho é, certamente, uma das coisas mais importantes no dia das pessoas, sobretudo aqueles que não podem se dar ao luxo de não trabalhar ou escolher trabalho. Porém, se não prestarmos atenção de verdade nos sinais que nosso corpo e mente dão a respeito do ambiente profissional em que vivemos, seguramente estaremos à beira de um precipício depressivo em que o único passo seguinte possível seja pular.
Não é sobre “trabalhar com o que você ama”, mas sobre amar você mesmo a ponto de entender e respeitar seus limites.
Se você que está lendo esse texto se identifica ou está num momento similar e quer conversar sobre, fique à vontade de dar um salve, deixar um comentário ou o que você preferir.
Obrigado a vocês que leram até aqui.
Abraços
Se você curtiu esse texto, por favor, espalhe por aí. Obrigado!
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