Tem algum tempo já que eu rumino na minha cabeça um texto sobre “ser inteligente”. Acontece que esse não só é um tema polêmico, mas também, um tema dificílimo pra expor o meu ponto de vista da maneira adequada, pra representar bem o que eu penso.
No entanto, mesmo depois desse tempo todo (acredite, faz TEMPO que isso rodopia aqui dentro), eu não consegui chegar a lugar algum no que diz respeito à forma ideal pro texto. Talvez porque não haja uma, mas, de qualquer modo, decidi jogar pro mundo e ver no que dá.
Tudo partiu de uma conversa que eu tive há alguns anos com uma pessoa que, num churrasco, virou do nada e me perguntou se eu achava que o Elon Musk era um gênio. Eu disse que não, que ele era só mais um babaca com muito dinheiro que sabia fazer (com ressalvas) investimentos e comprou empresas com gente qualificadíssima, mas que de gênio num tinha nem a roupa. Aí a resposta foi “o cara é bilionário e num é gênio? Explica isso aí! [risada de tiozão]” - eu só levantei e saí.
Só que isso ficou, com dizia minha vó, pinicando por dentro. Há tempos eu já vinha incomodado com frases do tipo “nossa, fulano fez tal absurdo, mas poxa, ele é tão inteligente… fiquei surpreso!”. Há, pra mim, dois problemas fundamentais com isso: o primeiro é que se reconhece como válida apenas um tipo de inteligência, a intelectual; o segundo é justamente uma conseqüência do primeiro, pois ser inteligente automaticamente concede ao ser uma espécie de imunidade perante a situações mundanas, vividas por pessoas ordinárias.
Explico.
Sobre os diferentes tipos de inteligência
Ser inteligente intelectualmente é só uma faceta dessa coisa toda. Uma pessoa considerada intelectual por quaisquer padrões que desejemos usar, pode muito bem dizer coisas imbecis ou absurdas. Vejam, por exemplo, o Roger do Ultraje: por anos o assunto era o QI acima da média do rapaz, mas, no fim, o tal QI só serve pra ele bostear com mais vocabulário, talvez. E, juro, não falo só da opção política dele não (até porque do lado de cá do espectro, olha, só por Deus também…), mas sim pelo conjunto de absurdos que este cidadão já proferiu, por vezes chegando a serem comentários puramente preconceituosos e criminosos.
Outro nome que me vem à mente é o meu ex-patrão Zuckinha da massa. Ter sido o responsável por construir o Facebook com a idade que eu me preocupava com o horário de Cavaleiros do Zodíaco na Cartoon e, de certa forma, liderar a transformação da companhia até os dias de hoje num é um feito qualquer. No entanto, vocês já pararam pra prestar atenção em qualquer entrevista, apresentação ou vídeo do menino? É um show de obviedades que, muitas vezes, não se conectam vindas de alguém que vive, desde sempre, na bolha da bolha da bolha. Lé com cré mandaram lembrança.
Agora, quantos de nós conhecemos pessoas que não têm o primeiro grau completo (e pobres, outro ponto importante na distinção), mas são de uma inteligência acima da média em assuntos específicos? O ponto é que, como a inteligência dessas pessoas não é intelectual e elas geralmente não são ricas, a gente usa todo tipo de “eufemismos” pra nos referirmos a elas; são pessoas vividas, experientes, sagazes, safas - jamais inteligentes.
O seleto grupo dos intelectuais não aceita simplicidade - só sofisticação.
Sobre inteligência e dinheiro
Isso tudo me leva de volta ao início do texto e, ironicamente, sua conclusão.
Criou-se (quem criou? Uma dica: começa com ca, termina com pitalismo e num tem nada no meio) essa idéia de que se um sujeito tem muita grana ele só pode ser inteligente e isso virou um selo de autenticidade: tudo o que a pessoa fala ou faz é impecável e irrepreensível, ou pior: gera sempre o tal comentário “mas fulano é tão inteligente pra ter feito algo assim”. Pois bem.
A gente precisa, de uma vez por todas, desfazer essas duas mentiras convenientes: que ter dinheiro é sinônimo de inteligência e que o único tipo de inteligência existente é o intelectual. Essas duas coisas têm causado mais danos do que a gente pode imaginar e são responsáveis por alimentar uma máquina moedora de gente, de sonhos e ideais.
Afinal, já dizia o nosso querido Emicida: “eles conhecem Marx, nós conhece a fome” - e não consigo pensar em nada que exemplifique melhor.
É isso. Até o próximo.
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