Tem dias que as coisas não andam e que a gente só não quer. Não quer o que, você pergunta? Bem, não quer ser.
Quando isso acontece a primeira coisa racional que a gente faz (de maneira automática, até) é começar a buscar razões. Nosso cérebro inicia uma varredura completa por todos os nossos neurônios e sinapses em busca da (ou das) razão causadora de tamanha falta de vontade de existir. Como nossa mente, em geral, não lida bem com situações sem explicação, quando percebe que não está chegando em lugar nenhum, faz aquilo que, na minha opinião, a mente humana faz de melhor: fabrica coisas do mais absoluto nada.
Tudo precisa de explicação. Tudo precisa de explicação?
Hoje, assim que me dei conta de que tinha amanhecido numa espécie de deserto existencial, tudo o que escrevi acima entrou em ação. No entanto, talvez por finalmente já estar escaldado com meus próprios comportamentos (com 40 anos de idade, é o mínimo né?), empurrei as barras das portas da saída de emergência da minha cabeça e me lancei pra fora. Hoje não aconteceu nada nem eu aconteci - e não vou perder tempo caçando motivo só pra satisfazer minha própria necessidade de racionalização.
Penso que há algum tipo de condicionamento (proposital ou acidental) pra que nós sempre busquemos motivos válidos pra justificar um humor, comportamento ou postura menos, digamos, positivos. Mas… o que são motivos válidos? Existe uma tabela, ou um dicionário, aos quais podemos consultar pra categorizar nosso Gemütszustand1? Existe algum tipo de grupo de iluminados responsável por julgar as razões? Não, né? No entanto, quem nunca se sentiu culpado num nível religioso por estar ausente de si mesmo?
Essa escalada vertiginosa da exploração-travestida-de-auto-performance acelerou exponencialmente essa coisa da gente não respeitar a nossa própria angústia enquanto seres pensantes, que lidam com a complexidade e imprevisibilidade da vida e nos impede (ou proibe?) de reconhecer que, às vezes, a gente só quer um canto, uma manta e uma bebida quente, metaforica e literalmente, e que não são respostas pra nenhum acontecimento específico. É só nossa alma cansada pedindo calma. Isso não te faz irresponsável com seu trabalho, com seus familiares, com as pessoas próximas, muito pelo contrário, te faz responsável por você. Mais: o mundo, usando qualquer definição que você queria do que “mundo” representa, não vai sair do eixo com a sua ausência. Já dizia Álvaro de Campos:
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 22.
Portanto, hoje, quarta-feira, 10 de Dezembro de 2025, acordei sem querer ser.
Abraços
Mais que humor, estado do nosso ânimo de maneira mais profunda; da nossa alma.
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