Em 2018, morei por 6 meses num orfanato no Quênia fazendo trabalho voluntário. Dava aula para as crianças e ajudava em tarefas gerais do lugar. Essa é uma história que não ilustro com fotos porque poucas existem. Tem essa coisa meio Rafa Kalimann de ir prum ambiente desfavorecido e capitalizar socialmente em cima disso. Evitando passar pela síndrome de pessoa branca que acha que vai salvar quem não pediu pra ser salvo, optei por guardar poucos registros e não falar muito sobre o assunto.
Infelizmente, não nego que existem alguns proveitos em ter essa história. Para além do engrandecimento pessoal, esse acaba sendo um ponto ótimo em entrevistas de emprego ou outras avaliações do tipo. E, sempre que o assunto escapa, é normal me perguntarem como foi a experiência, contar alguma coisa, o que isso significou pra mim. Para momentos assim, costumo guardar uma história em particular. É mais ou menos essa:
O orfanato ficava localizado em uma área rural. O distrito não era propriamente uma cidade, mas era composto de pequenos agrupamentos de algumas lojas e casas aqui e acolá. No meu caso, o mais próximo desses núcelos, ficava por volta de 2 quilômetros de distância, era composto de algo em torno de 200 habitantes e algumas poucas lojas. Nestas, a coisa mais luxuosa para se comprar era um pacote de macarrão instantâneo e nada muito além disso.
Em algum momento do meu tempo lá, conversando com outra voluntária, decidimos preparar um almoço especial de domingo, algo diferente. Para os ingredientes do preparo, estávamos limitados a essa pequena aglomeração próxima, então tentamos manter a expectativa baixa.
No fim, depois de conferirmos todas as restrições alimentares, optamos por macarrão com molho bolonhesa. Afinal, era uma receita simples, precisariamos de basicamente 3 coisas: massa, carne e molho de tomate. Todas elas pareciam suficientemente simples para serem encontradas nas redondezas, de uma forma ou de outra.
A massa em si seria relativamente fácil de achar.
Sabiamos que na vila tinha um açougue. Se assemelhava bem pouco ao que estavamos acostumados, mas, considerando o quão fora de mão era o lugar, fazia sentido. Não tinha muita variedade, e eram compostos basicamente de uma ou duas peças bovinas maiores de onde se extraia os cortes dos clientes. Também não tinha opção moída, mas ok. Tínhamos facas e disposição.
Por fim, não sabíamos o quão difícil seria achar um molho de tomate, mas já tínhamos visto tomates a venda. Nas sextas a tarde, em uma praça aberta, alguns fazendeiros da região realizavam uma feira ao ar livre. Sem dúvidas tinham tomates. Para quem estava disposto a picar a carne até ficar em tamanho próximo da carne moída, fazer o molho de tomate caseiro parecia um mero detalhe.
Ah, tempero? Sal e algumas especiarias que conseguimos encontrar nessa mesma feira. A escolha destes foi mais no sentimento que no conhecimento.
Se teve dúvidas sobre a qualidade do prato final, deixo registrado que mais de uma criança afirmou que “essa é a melhor coisa que já comi” com um sorriso no rosto. Acabamos transformando o almoço em um dia festivo, então talvez não estivessem se referindo só à comida, mas ao dia como um todo sendo muito bom. E, quando se é criança, qualquer dia minimamente alegre serve para o melhor dia da sua vida.
Alguns meses depois desse almoço, quando já tinha voltado para minha vida normal, ainda guardava com carinho essa história. Me lembrava dos bons momentos que passei lá, e vez ou outra abria uma caixa lotada de papéis com dedicatórias que as crianças me presentearam quando estava de partida.
Um dia (não sei precisar quanto tempo depois da minha volta), estava com um amigo em casa em um fim de semana, ambos completamente absorvidos em algum jogo de videogame, quando batemos o olho no relógio e percebemos que era boa hora para o almoço.
Uma rápida volta na cozinha e chegamos na conclusão que não tinha ali nenhuma opção para uma refeição. Meu amigo deu nos ombros e me convocou para uma ida no mercadinho do outro lado da rua. Lá, compramos: macarrão, carne moída e molho de tomate. Já tinha tempero em casa, mas não teria sido problema. Tinha tudo lá, na comodidade da vida moderna.
Voltamos para casa e preparamos o almoço. Toda a aventura não deve ter durado 30 minutos. A rapidez em nada roubou o gosto. Estava uma comida saborosa. Não era a melhor da minha vida, mas tão bom quanto se espera de um bom macarrão ao molho bolonhesa.
Para comparação, só a jornada coletando os ingredientes no orfanato custou toda uma tarde de sexta.
Normalmente completo essa história falando sobre como é importante reconhecer esses pequenos momentos, colocar em perspectiva ajuda a aproveitar essas coisas simples. Ver elas como algo especial.
A história termina ai, e todos costumam gostar. Sinto que fiz um bom trabalho ilustrando esse período e o que ele representou com uma história fácil de se identificar.
Mas existe uma outra reflexão que costumo deixar de fora. Ela tem um pouco menos desse ferniz de escutar e se sentir bem, embora envolva essencialmente o mesmo relato. É algo que re-soa com um conto do escritor argentino Julio Cortazar. Autopista del sur.
Nessa história, a rodovia título sofre um grande congestionamento de carros. Grande mesmo, a ponto de atingir níveis de realismo fantástico.
A princípio, o problema era apenas um inconveniente. Um amontoado de carros parados, aguardando o que deve ser um problema que vai se resolver em alguns minutos. Mas não se resolve. Esses minutos vão se transformando em horas. Novos automóveis chegam, e nenhum parte.
Logo, tem-se toda uma pequena população, presa em seus veículos. A esperança de saírem dali vai sumindo conforme horas dão lugar aos dias. Com a situação se confirmando como permanente, as relações humanas vão se adaptando.
Freiras, no desejo de propagar seu ofício, vão passando de janela em janela para conversar e ajudar com as crianças. Uma mulher passa mal, um médico a atende, usa cobertas para cobrir as janelas e faz de um veículo parado um quarto de hospital. Facção vão se formando, bem como relacionamentos amorosos. Fazendas que margeiam a estrada se tornam fonte de escambo para suprimentos enquanto os prisioneiros da situação param de contar a quanto tempo estão parados, um dado que vai perdendo a importância a cada dia.
Algumas situações mais trágicas, como mortes e suicídios, acontecem. Outros desesperançosos simplesmente abandonam o veículo e seguem a pé.
Toda uma comunidade se cria ali. Novos relacionamentos surgem. Uma nova organização como resposta à situação imposta, que perdura por um longo período. Ao fim, porém, a fila simplesmente volta a andar. E basta alguns minutos com os carros andando em alta velocidade para os grupos se desfazerem, relacionamentos acabaram e tudo voltar a ser o que era.
O conto busca apontar o que pessoas fazem em situações extremas, descrevendo os mais diversos cenários. Seja adaptação, busca por um novo sentido ou o simples abandono da esperança.
Pra mim, porém, esse conto sempre tocou em um sentimento bem específico. O mesmo sentimento que tenho sempre que reflito quando comparo aqueles dois almoços tão parecidos e tão diferentes.
Sempre que somos colocados em situações excepcionais ou atípicas, fora da nossa “zona de conforto”, seja as que nos trazem grande felicidade ou extrema tristeza, temos o devaneio de que isso vai mudar quem somos. Que estamos testemunhando um dos momentos que vai definir nossas vidas. Esses momentos existem, mas acredito que na maioria das vezes erramos em apontá-los.
Esses momentos nos colocam em lugares novos e inesperados com os quais não estamos acostumados. Mas não são fixos. Existe um lugar para voltarmos depois. E, por mais que no momento sintamos que aquelas experiências vão ressoar para sempre, no fim, acabam se tornando um fato esporádico que lembramos às vezes. Quando lembramos, podemos rir, chorar, sentir um aperto de nostalgia no peito ou um alívio do que ficou para trás.
Em uma mesa de bar, certa feita, um amigo levantou o ponto de que acha absurdo como normalizamos a vida pós-pandemia. Passamos quase dois anos soterrados por notícias que reforçavam a incerteza de como e quando aquilo ia terminar. Víamos pessoas oferecendo medicamentos ineficazes, outras simplesmente ignorando protocolos de saúde pública. Alguns perderam empregos, outros terminaram relacionamentos e, em último caso, muitas pessoas tiveram suas vidas abreviadas por aquele momento.
Segundo meu amigo, muitos traumas foram enterrados e muita coisa não foi falada, simplesmente voltamos para a vida sem se importar em passar a limpo aquele período.
Lembrei então que tinha alertado ele sobre esse roteiro. Durante a pandemia, criei, jundo desse mesmo e de mais um bem-aventurado, um clube do livro. Escolhíamos um livro, liamos algo em torno de 70~100 páginas por semana, e nos reuníamos no sábado em uma sala no Google Meet, 20 horas, para conversar sobre. A primeira reunião foi em 20/06/2020 e aconteceu durante todas as semanas, até o dia 17/07/2021.
Os encontros sempre se estendiam para além do livro, claro. E, numa dessas conversas, se iniciou uma debate sobre imaginar como seria um mundo pós-pandemia. Com tudo que estava acontecendo, talvez um mundo com mais resiliência a mudanças, um apego maior pela segurança do próximo, ou simplesmente um desejo mais árduo de estar perto de familiares e amigos.
Diante desse relato, apostei que esse novo mundo seria “exatamente igual ao que existia antes”. Podíamos nos iludir pensando que um evento daquela magnitude iria definir as próximas gerações. Mas, argumentei, cada pessoa vai, ao seu modo, voltar para a vida que tinha antes. Alguns irão carregar lutos, outras saudades, uma parte boa vai abraçar essa retomada com alívio. Mas voltaremos para a normalidade que deixamos para trás.
Olhando para o mundo hoje, nos primeiros meses de 2026, acho que da pra dizer que aconteceu mais ou menos isso. Pensar que retomamos as coisas como eram antes, depois de dois anos, me deixa um pouco menos mal de saber que o efeito daqueles seis meses que passei no Quênia acabaram sendo diluído em memórias pontuais.
Algumas músicas falam sobre como toda a vida humana é “um grão de areia no vento”. Acho que nossas vidas também são assim. Pequenos momentos, alguns duram poucos segundos, outros duram anos. E, enquanto existem, são o centro dos nossos universos. Mas, cedo ou tarde, ficam para trás. Assim como nós também ficaremos.
Se isso tudo tem um ar meio melancólico, é porque não soube expressar bem a ideia. Meu ponto aqui não é que nada dos grandes momentos importam. Mas que, pelo contrário, os momentos que importam são vários, e estão distribuídos ao longo das nossas memórias vividas.
Sim, morar no Quênia não remodelou por completo minha maneira de existir no mundo. Mas sempre que lembro do tempo que passei lá, inventando brincadeiras para as crianças, planejando atividades junto com outros voluntários, recebendo as cartinhas que guardo até hoje numa caixa em um lugar especial na casa dos meus pais… Todos esses momentos foram, cada um ao seu modo, o momento mais importante da minha vida.
Assim como também foram as conversas que tive com meus amigos no clube de leitura, uma atividade boba, mas que foi uma boia na minha vida durante a pandemia. Ou quando lembro do calor de carnaval que passei com amigos que não mais fazem parte da minha vida, na véspera de viajar para a África. Encontros com outros que nem estão mais nessa vida. A vida não é o que é por um grande momento específico, mas por todos esses pequenos momentos.
Quando o clube do livro estava caminhando para seus dias finais, decidimos escolher um filme para marcar esse momento. Afinal, sabíamos que não teríamos tempo para outro livro. O escolhido foi a animação Soul, da Pixar.
Resumindo sem spoiler, o filme acompanha a saga de Joe Gardner, um professor e músico apaixonado por jazz. Ele recebe a chance da sua vida para tocar junto da respeitada cantora Dorothea Williams. Passando direto pela história, o que me pega sempre é a cena, já no terceiro ato, de Joe depois da apresentação.
Antes de entrar no palco, ele encara seu reflexo e avisa: ”Se prepare Joe, sua vida vai começar agora”. Ele fez o show de sua vida. Todos elogiam, aplaudem e exaltam a banda. Mas, quando termina, todos vão embora e a emoção se esvai. Ele volta para a sua realidade. Mas não sem antes ser confrontado por Dorothea, que questiona o que está errado com ele. “Achei que ia me sentir diferente”, ele responde.
Ela, então, conta uma anedota mais ou menos assim:
Uma vez escutei uma história sobre um peixe. Ele nadou até os peixes mais velhos e falou: “estou tantendo achar essa coisa que chamam de oceano”. “O oceano?” perguna o peixe mais velho, “É onde você esta nesse momento”. “Isso?”, replica o peixinho “Isso é só água. Eu quero o oceano”.
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