No auge da minha adolescência, lá no início dos anos 2000, o sonho de consumo na minha bolha era um MP3. Os modelos que pareciam um pen drive eram os mais populares. E, também, os mais práticos. Até hoje, acho que um dos momentos mais inspirados da humanidade foi colocar uma tela minúscula e uma entrada P2 já com a entrada USB lá. Não precisava de cabos, nem nada. Que design brilhante.
E, com os incríveis 1GB de armazenamento, dava pra colocar a discografia inteira de talvez uns 4 artistas (ou 2, se um deles for o Johnny Cash)! Era um aparelho tão brilhante que, não duvido, seria capaz até de rodar Doom.
Hoje, essa descrição parece meio arcaica. Afinal, qualquer celular vai ter lá um Spotify ou um Youtube Music com uma biblioteca infinitamente superior.
Claro, vivendo em uma sociedade capitalista, esse não era nem poderia ser o único desejo de consumo das massas. Outro ponto de convergência no imaginário coletivo eram as câmeras digitais. Um avanço absurdo entre os modelos anteriores, de filme.
Agora, nesse pretérito perfeito, não era mais necessário se limitar aos 10 ou 12 disparos disponíveis em um filme. Com o armazenamento interno, os limites estavam apenas na sua disposição de tirar fotos.
Também no passado (ou no pretérito mais que perfeito) estava à espera de alguns dias para ver o resultado. Bastava olhar para a tela, ali, na sua frente. Um imediatismo tão atrativo que é até estranho pensar como esses aparelhos simplesmente sumiram.
Aliás, não. Não é. Afinal, qualquer celular hoje em dia já vem com seu aplicativo de câmera, que faz basicamente a mesma coisa. E, muitas vezes, melhor.
Poderia seguir em frente, elencando exemplos como videogames portáteis (DS ou PSP), relógios de pulso e várias outras quinquilharias que sumiram do nosso entorno para serem absorvidas por um único aparelho.
O conceito de “máquina universal”, proposto por Alan Turing, seria um aparelho capaz de reproduzir qualquer outro aparelho, dado o código correto. O conceito é mais profundo que isso, mas tomemos emprestada essa simplificação. Nessa noção, é possível ver o celular como uma máquina universal para nossos tempos. Daria para argumentar que esse posto é dos computadores, mas acredito que a universalidade do uso dos aparelhos móveis já superou desktops e notebooks.
Além disso, celulares ocupam um espaço muito mais constante no dia a dia Não é necessário sair de casa com mais que esse aparelho. Nele você tem documentos de identidade, formas de pagamento, blocos para anotações, calculadora, entretenimento para fila do banco e outras coisas que vão variar entre cada pessoa.
Pensa só no espaço que isso ocuparia dentro da sua mochila ou bolsa.
Bom, posto o estado atual das coisas, vou tentar dizer por que isso tudo é um problema. E qual poderia ser a alternativa?
Talvez uma das principais vítimas dos excessos do celular sejam os filmes. Ou, pelo menos, uma certa qualidade que alguns roteiros apresentam. Um dos princípios básicos do cinema é o “mostre, não fale”. Por ser uma mídia de imagens, faz sentido que o filme conte sua história com, bom, imagens. Da mesma forma que livros contam histórias com palavras, por exemplo.
Um dos meus exemplos favoritos para ilustrar isso está em Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel. No filme, o personagem Boromir é claramente afetado na presença do Um Anel, tendo já manifestado desejo de usar o mesmo como arma para defender seu povo. Porém, é convencido de que isso é uma péssima ideia e decide se contentar em integrar a sociedade que irá levar o item até Mordor para ser destruído.
Em uma cena, porém, Frodo, o portador do Um Anel, desliza na neve e, quando se dá conta, perdeu o artefato. Quando olha pros lados, vê Boromir segurando o mesmo, com um olhar vidrado. Se constrói o início de uma tensão que é logo resolvida quando a devolução é feita, acompanhada das palavras “não ligo para isso”.
Porém, antes de encerrar a cena, temos um vislumbre de Aragorn, o virtuoso herdeiro do trono, também integrante da comitiva, que observou tudo de longe, em silêncio. A última cena mostra sua mão repousando sobre a espada, pronto para desembainhar caso a situação não se resolvesse.
Naquele momento, o filme não te informa que Aragorn está disposto a proteger Frodo. Mais que isso, que está disposto a atacar Boromir caso esse caia na influência do Um Anel. Nada disso é dito. Não existe um comentário entre Aragorn e Gandalf do tipo “estou preocupado com Boromir”. Nada disso é falado porque não é preciso. A imagem mostra tudo. Ou seja, corre o risco de passar despercebido por alguém que se distraia conferindo as notificações do celular mesmo. “Ah, mas é rápido”. A cena também é rápida. O frame da mão na espada dura 3 segundos. Não é do tipo “piscou e perdeu”, mas exige uma atenção.
Após o lançamento da última temporada de Stranger Things, o discurso coletivo por algumas semanas foi pautado pelos acertos e fracassos da mesma. Um dos pontos unânimes, mesmo entre os que gostaram, era como o seriado se esforçava para repetir e verbalizar a informação diversas vezes. Às vezes, com alguns artifícios visuais óbvios que, lá pela primeira vez, já soavam velhos.
Esse efeito já foi notado em produções originais da Netflix há algum tempo. É uma maneira que o serviço encontrou de se blindar contra essas olhadas no celular de alguns segundos. Ao invés de exigir a atenção do espectador, melhor oferecer um produto final adequado para esse propósito. E se o produto não for adequado? Adeque ele.
Enquanto promovia seu novo filme, The Rip, distribuído pela companhia, Matt Damon citou como havia diretrizes diretas sobre alguns elementos necessários. A verbalização de informações era uma delas, bem como a necessidade de ter uma cena de ação nos primeiros 3 minutos de filme. Essa última parte é meio assombrosa. Mesmo para um filme de ação. A título de comparação, John Wick leva exatos 45 minutos de filme para disparar o primeiro tiro em um filme que é sempre lembrado como um primor do cinema-adrenalina.
E se isso parece a receita de filmes prontos ou pouco valorizados feitos para não terem importância, vale acrescentar que mesmo filmes como Frankenstein, Hamnet e Agente Secreto incluem segmentos que forçam a verbalização de informação de maneiras tão pouco naturais que acabam por tirar o espectador da história. No fim, talvez essa solução seja mesmo necessária. Afinal, o celular é um inimigo difícil de se combater. Como se concentrar em algo sabendo que ali, no alcance da sua mão, estão disponíveis uma infinidade de vídeos, memes, conversas e informações?
Para ser justo, o cinema não é a única vítima disso. É comum em conversas de bares momentos em que pessoas vão se distrair do debate geral para ver suas notificações. A depender, podem motivar outras a fazer o mesmo e, assim, silenciar temporariamente a mesa por alguns segundos. Tudo isso para ver algo que muito dificilmente não estará lá daqui a duas ou três horas.
Mas talvez a pessoa tenha recebido uma mensagem? Sim, acontece. Mas, por experiência, garanto que na maioria das vezes essas mensagens podem esperar. Nunca vai ser algo urgente ou extremamente necessário. E mesmo abrindo, lendo o que recebemos e sabendo que é algo que pode esperar, ainda assim muitas vezes optamos por não ignorar. Temos esse estranho senso de urgência com algo trivial que pode esperar em favor de um momento real que estamos vivendo com outras pessoas.
Um estudo recente publicado no periódico Nature testou os efeitos da presença do celular na concentração, rodando testes que eram realizados com o celular sobre a mesa, guardado no bolso ou em outro quarto. Importante dizer que, em todos os cenários, o celular estava desligado. Ou seja, a pessoa sabia que não haveria sequer a possibilidade de notificações ou avisos.
O resultado foi que, mesmo desligado, o aparelho afetou negativamente os resultados em testes de concentração. Como esperado, o efeito é reduzido conforme se colocam barreiras entre o usuário e o aparelho. A perda é levemente menor caso ele esteja no bolso e significativamente menor caso esteja em outro ambiente. Mas o ponto é que, mesmo com o efeito minimizado, ele ainda existe. Não é preciso um barulho de notificação, alguma luz piscando nem mesmo o aparelho ligado. Ele só precisa existir e você está distraído.
Isso não é culpa dos usuários. Colocar isso na simples força de vontade individual é ignorar que a raiz desse problema não começa no indivíduo. Companhias que desenvolvem aplicativos e redes sociais o fazem visando esse comportamento. A ansiedade que uma pessoa sente quando sai de casa sem o celular é algo benéfico para essas empresas. Mais que isso, é desejável. É rentável. E elas fazem isso muito bem.
Diversos estudos reforçam como a necessidade de ter sempre o celular por perto pode resultar em danos para o bem-estar do usuário. Como bem explica o neurologista Richard Cytowic (em tradução livre):
Estudos mostram que vicios comportamentais como doom scrolling em redes sociais ativa as mesmas areas cerebrais de vicios como cocaina, alcool e outras drogas. Isso é demonstrado por diversos estudos que mostram como a ansiedade do usuário cresce minuto por minuto quando se tira o celular deles.
A economia da atenção resume bem esse problema: o foco das pessoas é limitado, e cada empresa busca fisgá-lo para si. E, com esse fim, aplicam técnicas comuns em cassinos ou casas de aposta. A maestria dessa prática é perceptível cada vez que sentimos o impulso de desbloquear o celular para ver se algo novo apareceu por lá.
Caramba, essa força de distração é tão forte que às vezes somos distraídos por ela enquanto usamos o celular. Quem não teve já a experiência de pegar o celular para fazer uma tarefa específica, se distrair por 10 minutos com outras coisas e, no fim, não fazer a tarefa? Eu já peguei o celular para ver as horas e, no processo, li e-mails, notícias e mensagens, bloqueei por fim o aparelho e percebi que não tinha olhado as horas.
E foi assim que comprei um relógio.
Diferente de um computador, com lugar fixo, ou um cassino com estabelecimento físico, celulares têm a vantagem de estar sempre presentes em nossas vidas. Afinal, podemos sair de casa só com ele no bolso. É a incrível vantagem de ter, em um único aparelho, documento de identidade, tocador de músicas, câmera fotográfica, método de pagamento e mais uma infinidade de coisas. Muitos deles que você não abre fazem já alguns meses.
Mas ei, melhor não deletar. Vai que…
Listamos essas vantagens e ignoramos que também temos uma máquina moderna de indução de ansiedades e distrações. E não a distração boa, aquela que colocamos em nosso tempo livre para exercitar hobbies ou fomentar paixões pessoais. Não. É a distração sem motivo. O preenchimento do tempo que antes nossas mentes usavam para divagar sem rumo num processo bem importante na produção de novas ideias.
Diante disso, comecei uma busca por soluções para esse estado de entorpecimento. Uma delas, veio da memória que tinha dos momentos com meu finado MP3 pen drive.
Naqueles tempos imemoriais da minha adolescência, cada item tinha um único propósito. Era basicamente o oposto da máquina universal. Sim, eu até podia ver as horas na tela de um Nintendo DS, mas esse era um objetivo tão tangente que não fazia muito sentido abrir ele com esse único propósito. Não, quando alguém pegava o DS na fila do banco, era com um propósito claro. Ele não iria se distrair porque naquele aparelho haveria 10 funções diferentes digladiando por atenção.
Ele era um dispositivo de uso único.
Isso me colocou em uma jornada que se inicia por entender o que realmente preciso do meu celular e tirar essa função dele. Descentralizar tanto quanto possível. Para jogos? O DS. Escutar músicas? Tenho iPod Classic com incríveis 250Gb de armazenamento, de fazer inveja ao meu MP3 Player de 1Gb. Tédio no meio da tarde de trabalho? Deixo um livro ao alcance da mão. Quero saber as horas? Um relógio. E não, não um smartwatch. Que jamais entre na minha vida um aparelho que permita notificações 24 horas por dia no meu pulso.
A ideia não é abandonar a tecnologia e voltar ao arcaísmo completo. As ferramentas que o avanço digital trouxe são importantes, tanto pelas facilidades quanto pelo puro entretenimento e lazer. Meu ponto, porém, é que deixamos de usar essas tecnologias para sermos usados por elas. Por isso, talvez uma boa solução seja usar esses elementos com propósito.
Claro que não é algo cômodo. Sair com só uma coisa no bolso é atrativo por um motivo. Tudo isso que citei precisa, no mínimo, de uma bolsa, uma mochila ou uma pochete, o tipo de acessório que você não quer pegar sempre que vai à padaria.
E concordo, é um incômodo que sofro vez ou outra. Mas menos do que parece, já que na maioria das vezes não quero levar tudo isso. Da mesma forma que não usaria tudo que está no meu celular toda vez que saio com ele, também não vou precisar de tudo isso em cada ida na esquina. Foco no que preciso pro momento.
Preciso ir na academia? Levo só o iPod. Vou fazer algum exame ou esperar na fila do banco? Um livro ou algum jogo portátil. Supermercado? Carteira e só. Sim, vez ou outra saio de casa não levando nada além da carteira.
É engraçado que sair assim, levando o mínimo necessário, seja algo tão pouco comum. É compreensível. Parte da minha vontade de abandonar o smartphone veio da constatação de que sair de casa sem ele me dava uma leve angústia. Não era nada sério, do tipo ataque do pânico ou coisa do gênero. Era só uma repulsa à ideia.
É engraçado como esse parece ser um sentimento comum. Sentimos a necessidade de levá-lo a todo lugar, por qualquer motivo, e muitas vezes o aparelho nem sai do bolso. O que, é claro, não é suficiente para nos convencer de que não precisamos dele todas às vezes que pisamos fora de casa. Ainda levamos, normalmente motivados por aquela ideia de que “vai que preciso”. Supondo que sua vida inteira esteja nele, sim, você provavelmente vai precisar.
“Mas e se alguém precisar de mim?” é outra justificativa comum. Na maioria das vezes, ninguém vai precisar. Uma pessoa te mandar um meme de cachorro no WhatsApp não é precisar. Isso pode esperar. E dos problemas reais, aqueles que surgem umas duas vezes no ano, dificilmente são coisas que não poderiam esperar. Sendo bem exagerado aqui, se alguém ligar para avisar que um parente morreu, essa informação não vai mudar até você chegar em casa.
Sabe quando as pessoas entram no cinema e colocam os celulares em modo avião? Um filme pode durar até duas horas. Duas horas em que você está completamente incomunicável. E ainda assim, você sobrevive.
Obviamente, esse não é um discurso para quem tem filhos ou o convívio familiar inclui pessoas com necessidades especiais. Como não faço parte de nenhum desses grupos, não sou capaz de opinar sobre as peculiaridades exigidas.
Para todo o resto, porém, informações sensíveis ao tempo de abertura são extremamente raras. Vamos sobreviver, assim como nossos pais e avós sobreviveram.
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