Em 2019, frequentei o mesmo bar durante 24 semanas seguidas. Religiosamente, toda quinta-feira, 17:40, saia da última aula do mestrado, andava por 20 minutos até um pequeno bar bem fora de mão. Ele ficava numa rua pouco movimentada, no andar debaixo de um prédio que tinha também uma loja de roupas para noivas.
O bar tinha um sinal bem tímido com o nome na porta, e só. Durante o dia, enquanto estava fechado, era difícil pensar que naquele prédio inteiro se vendia algo além de vestidos de casório. O fato da logo da loja de roupas ser enorme e ocupar boa parte da fachada ajudava pouco.
O bar se chamava Boca da Noite. Esse nome fazia sentido, já que o bar abria justamente na boca da noite, lá pelas 18 horas. Ou seja, era comum eu ser o primeiro cliente a entrar. Em algum ponto dessas muitas idas, algo que “mágico” aconteceu.
Terminei minhas aulas, cansado, em uma tarde um pouco mais quente que o normal. E, apesar de ir para casa demandar um esforço físico menor que andar até aquele bar, decidi não quebrar a tradição. Andei uma caminha desconfortável sendo consolado somente pela possibilidade de ter algo para me refrescar ao fim dela. Quando cheguei no bar, as portas ainda estavam sendo abertas, mas atrás do balcão já estava a moça que sempre me atendia. E, no balcão, um copo de chopp e uma comanda com meu nome.
Minha ida se tornou tão certa que esperar minha chegada parecia um detalhe menos relevante para a atendente. Esse roteiro também era certo para amigos que, vez ou outra, simplesmente apareciam lá por volta desse horário, sem aviso, só porque sabiam que eu iria estar lá. Em algumas situações, fazia o convite para outras pessoas, mas nunca foi um requisito ter companhia. Não me importava de sentar lá sozinho nas quintas, tomar umas duas cervejas, comer algo, bater papo com a moça do balcão e ir para casa.
Não lembro se foi nessa época que conheci o termo “terceiro lugar”, mas tenho certeza que, quando vi a definição, foi no Boca da Noite que pensei logo. E, até hoje, mesmo com o bar já fechado (encerrou as atividades durante a pandemia), ele é minha referência para o que é um terceiro lugar, embora tenha ressalvas de usar esse termo hoje em dia.
A ideia exposta em vídeos e textos segue mais ou menos nessa linha: o primeiro lugar é onde moramos e o segundo lugar é onde trabalhamos, o terceiro lugar é onde nos reunimos para conversar com pessoas que gostamos fora de nossas casas. É o local onde podemos conhecer elas antes de saber se queremos convidá-las para nossas casas, contar para colegas de trabalho uma história talvez imprópria para o ambiente profissional ou simplesmente poder dialogar com amigos sem toda a preparação de arrumar a casa e lavar a louça.
O termo virou meio que algo querido especialmente pelo pessoal meio intelectual, meio de esquerda, que gosta de ter um pensamento um pouco mais crítico sobre as coisas. Com o tempo, essa solução virou meio que a resposta para todos os problemas da sociedade. Sério. Alguns vídeos dizem que ter um terceiro lugar pode gerar benefícios nos mais diversos campos da vida cotidiana. E até que faz sentido, numa era de individualismo, pessoas verem locais que visam o contato humano “real” como o santo graal da sociedade moderna.
No geral, o termo é usado para se referir a bares e cafés, algumas pessoas estendem isso para parques, academias ou locais de aulas coletivas. Esses últimos locais acabam fugindo de alguns requisitos exigidos na definição original. Sim, existe uma definição clara e específica sobre o que é um terceiro lugar. Ela surgiu quando o termo foi proposto por Ray Oldenburg, em 1998, no livro The great good place. E foi nesse livro que percebi que talvez essa definição seja mais problemática do que youtubers emocionados parecem perceber.
Porém, foi também lendo esse livro que me pareceu relativamente claro porque, de uns tempos para cá, o termo ficou tão popular. Apesar de escrito na década de 90, foi um evento bem recente que gerou na população jovem um sentimento semelhante ao que acometeu Roy 30 anos atrás.
Sim, o avanço dos smartphones e redes sociais.
Mas, ainda lendo o livro, senti que talvez o que as pessoas nos vídeos e nas redes sociais buscam com o terceiro lugar é radicalmente diferente do que Ray estava procurando.
Para organizar melhor essa ideia, convém começar pelo começo.
Roy nasceu em 1932, e esse é um detalhe importante. Ele viu o surgimento dos subúrbios americanos no pós-segunda guerra, e como isso remodelou a cultura do país. Segundo ele, esse tipo de formação priorizava o individualismo das relações. Afinal, em um bairro exclusivamente residencial, você tem poucos motivos para sair andando e ir até a esquina. As famílias desenvolvem uma certa dependência dos carros, você precisar entrar neles e dirigir talvez alguns quilômetros para frequentar um restaurante, um bar ou um café, por exemplo.
Paralelo a isso (e, em partes, por causa disso), se desenvolveu uma cultura de consumismo extremo. Ao invés de se deslocar até algum pub para jogar sinuca com amigos, melhor comprar uma mesa de sinuca. Se é tão difícil chegar à sua cafeteria favorita, melhor comprar logo uma máquina de café que te poupa a viagem.
O problema, ainda segundo Oldenberg, é que esses lugares que deixamos de frequentar existiam com um propósito oculto, alheio para seus frequentadores e, talvez, até para seus administradores. Eram neles que as pessoas se reuniam para terem o contato social que a vida humana tanto pede. Eles permitiam a interações com pessoas que não moram na nossa casa nem trabalham conosco. Eram janelas para outras realidades sociais e ofereciam novos pontos de vista para entendermos nossa própria vivência. Eles eram os terceiros lugares.
Ganhamos uma vida voltada para o consumo imediato e individual, mas perdemos a chance de interagirmos com pessoas reais.
Para Oldenberg, um terceiro lugar exige alguns requisitos. Dentre eles, destaca-se:
Terreno neutro: todos que ocupam aquele lugar, devem ter a mesma relação com ele. Isso impede que seja, por exemplo, a casa de uma pessoa. Isso resulta em dois pontos importantes. O primeiro, que não exige uma organização de uma das partes para o encontro acontecer. E, segundo, não existe uma relação de poder, afinal o local não pertence a nenhuma das partes exclusivamente. Pertence a ambas de maneira igualitária.
Nivelação: no terceiro lugar, todos são iguais. Não existe uma distinção social que torne alguém melhor ou pior que outro. Como num sonho comunista, não existem classes, cores, raças, somente conhecidos conversando e papeando sobre a vida.
Acessível: todos são bem vindos. Não pode haver exigências prévias sobre quem pode entrar no terceiro lugar. Esse é um dos motivos de academias ou aulas particulares serem excluídas desse tipo de definição. Outro motivo para essa exclusão é…
Conversa: a principal atividade do local deve ser a conversa. Quando sentamos em um café com amigos, estamos lá para falar e escutar, o resto, incluindo o café, é secundário. E assim deve ser no terceiro lugar. Isso não pode ser dito de uma biblioteca, por exemplo.
Publico local: o local tem frequentadores recorrentes. Pessoas que você sabe que vão estar (ou que é extremamente provável) lá todas as sextas, por exemplo. É aquele grupo de senhores que senta tanto no mesmo bar da esquina que você se questiona se são clientes ou parte da mobília local.
Essas definições tornam quase claro que Oldenberg se referia a bares e cafés, com algumas outras raras inclusões. E, para uma pessoa que estava interessada no diálogo entre pessoas, faz muito sentido. Atualmente, muitas pessoas que estão defendendo a busca por terceiros lugares citam como exemplos, além destes, academias, parques, aulas coletivas, dentre outros. Esses lugares falham, em maior ou menor grau, nos requisitos propostos. Porém, o desejo de incluir estes ambientes diz muito sobre porque acredito que as pessoas estão atrás de terceiros lugares.
E, se pareço chato por desconsiderar esses lugares, devo dizer duas coisas. A primeira é que um lugar não precisar ser um terceiro lugar para ser especial e merecer nossa atenção. Em segundo lugar, deixo as palavras de Roy:
“Vou insistir que o terceiro lugar é como eu descrevi, ou então não é um terceiro lugar.”
Roy cresceu em um mundo de contato social, em que as pessoas sabiam o nome dos vizinhos, ofereciam uma xícara de café no fim de tarde e se sentavam na calçada para falar da vida. Em algum ponto, isso se perdeu. As pessoas se entrincheiraram em suas casas e ficou cada um por si. Adotaram o consumismo como resposta, criaram áreas de laser privadas cada vez maiores e cada vez mais vazias.
Hoje, temos na sociedade a última geração que cresceu sem internet garantida em todo lugar. Muitas pessoas que viram como a sociedade era quando você precisava ir para um cômodo específico da sua casa para a internet surgir. Era uma época em que ninguém sonhava que um dia, fora do futuro cyberpunk, poderíamos fazer isso de qualquer lugar, que esse acesso estava sempre disponível em nossos bolsos.
Naquela época, ligávamos para as pessoas para marcar encontros e era nessas reuniões físicas que a maioria das conversas acontecia. Com o tempo, reuníamos todos em um grupo de MSN e pulávamos a ligação física. Eventualmente, findamos os encontros presenciais também.
A pandemia não causou nada disso, mas sem dúvidas acentuou. E, talvez por isso, hoje o Youtube está inundado de videos afirmando de maneira categórica que você precisa de um terceiro lugar, a solução moderna para a aflição solitária que todos parecem estar sentindo.
Eu entendo. Associamos bares e cafés com momentos bons, gostosos. Quando nos lembramos de bons momentos com amigos, é bem provável que seja em algum lugar assim. E quando nos lembramos de lugares assim, muito provavelmente vai ser uma lembrança boa. Em um momento do livro, Roy lança a estatística de que o americano ri, em média 15 vezes por dia. Segundo ele, seria um chute baixo dizer que rimos essa mesma quantidade por hora quando estamos no terceiro lugar. Ele não fornece nenhuma evidência, mas, assim como ele, defendo esses números.
Toda essa visão se encontra nos três primeiros capítulos do livro. É bem organizado: primeiro define o panorama do problema, depois define a solução e, por último, debate os benefícios dela. Se alguém quiser ler e ter ideias sobre o assunto, isso basta. O problema é que o livro não termina ai. Ele continua, e começa a navegar em águas… turvas.
Ainda no terceiro capítulo, algumas das vantagens ficam entre o questionável, o exagerado e o perigoso. Um desses casos é sobre a importância de socializar no terceiro lugar. A ausência desses espaços cria pessoas mais solitárias, que é um padrão visível, por exemplo, em pessoas responsáveis por tiroteios em massa.
“De fato, aqueles que se retraem do contato humano podem se tornar pessoas perigosas. Assassinos em massa, para tomar um exemplo extremo, normalmente apresentam perfis solitários.”
De fato, rede social é importante. Mas ler um americano colocando isso acima do sistema indiscriminado de venda de armas me parece, bom, estranho.
Outro ponto estranho ainda no terceiro capítulo é afirmar que um dos motivos de terceiros lugares serem necessários são as esposas. Mais pra frente ele entra em detalhes sobre a relação de mulheres e o terceiro lugar, mas aqui comenta uma visão estereotipada sobre como homens ser livres e felizes dentro de casa porque, afinal, tem uma outra pessoa lá. Sei lá, talvez se você não se sente plenamente feliz e livre você não deveria se casar com ela, mas é uma opinião minha.
Talvez a vantagem mais problemática seja uma exposta sem muita cerimônia. Ele inicia a seção jogando na cara do leitor.
“Recentemente conversei com um psiquiatra muito familiar com casos de agressão de esposa. Ele lamentou o declínio dos bares de bairro nos quais homens podiam ‘soltar a pressão’ e não ‘liberar tudo na esposa’.”
Assim, se a única coisa impedindo um marido de agredir a esposa é um bar, acho que a gente precisava voltar uns passos porque falhamos em algum lugar. Aliás, não é difícil fazer o argumento no caminho inverso. Um marido sentir muito menos inibido à agressão quando retorna para casa alcoolizado do bar. Diferente do argumento do Roy, esse fato pode ser comprovado por diversas estatísticas e relatos.
É claro que as pessoas no youtube afirmando a importância do terceiro lugar não usam esses argumentos. E ta ok. Realmente existem coisas boas que merecem ser tiradas de toda essa reflexão, só lembrando de o fazer com o censo crítico de questionar algumas outras. Afinal, a epidemia da solidão esta longe de ser uma teoria conspiratória, lugares para socializar são sim uma demanda importante.
Mas, conforme o livro avança, o autor sim parece aderir a uma dessas teorias malucas.
Quando discute, nos capítulos da terceira parte, sobre como permitimos chegar a esse estado das coisas, surge um estranho discurso anti-tecnológica estranhamente familiar.
“’Não vá lá fora viver,’ diz os donos dos programas de TV. ‘Apenas fique na privacidade e no conforto da sua própria casa e nós iremos viver por você.’”
A mídia hegemônica quer te prender em casa, fazer você ter medo de pisar na rua. Se o povo anti-lockdown tivesse achado esse livro, teria sido bem engraçado.
“O jornal entregue e as vozes encanadas do radio e da televisão encorajam as pessoas a ficar em casa.”
Opinião pessoal, acho que Roy acertou o problema e errou parcialmente na causa. Existe uma estranha similaridade no que vemos hoje, quando redes sociais e smartphones são culpados por não cultivarmos relações sociais como os antigos. Mas, enquanto na atualidade temos fatos e pesquisas apontando esse efeito, no livro temos o que parece ser um idoso gritando para as nuvens.
Porém, se ele exagera o papel da mídia, ele também discute o papel de quem cria esses lugares. E, embora gaste boas páginas derramando culpa (vale dizer, não concordo) encima de planejadores urbanos, também coloca muita da responsabilidade pelo desaparecimento dos lugares de conversa nas costas do mercado (vale dizer, concordo).
“A ‘mão invisível do mercado’ que, Adam Smith afirmava, iria nos conduzir rumo a uma grande harmonia social independente das intenções dos executivos, não fez isso. A ‘mão invisível’, não tão invisível mais, nunca descansa. Se alimenta constantemente nas expectativas de novas perspectivas para sucesso comercial. É rápida em conceber cada nova forma de frustração humana e saudade humana para comercializar a solução.”
O desenho urbano não surge apenas da cabeça dos que planejam. Aliás, talvez seria melhor se assim fosse. Em um país que marcos municipais vão sendo renomeados para figurarem como propaganda de empresas privadas, é difícil não ver o impacto do mercado no processo de urbanização. O fim de elementos tradicionais para dar lugar a empreendimentos comerciais higienizados acontece porque isso é lucrativo. Lucrativo não para a cidade, para os moradores ou para os planejadores. Em uma sociedade que permite transformar o poder financeiro em poder político com influência em decisões envolvendo o bem coletivo, fica óbvio a quem essas mudanças servem.
Recentemente me peguei vendo um vídeo sobre “detox de dopamina”. O termo vem de um de algo proposto por um profissional de saúde, com metodologia bem específica. Porém, se você digitar isso por ai, vai encontrar uma centena de pessoas indicando como realizar o processo de uma maneira que pouco espelha o original.
A autora do vídeo em questão reconhece isso. Ela aponta como isso é um sintoma das muitas vezes que a internet escolhe um tema específico para ser o “salvador da vida moderna” e dissemina ele com tanta frequência que, em algum momento, se perde lastro do original.
De certa forma o mesmo aconteceu com o terceiro lugar. A ideia que existe do tema na internet hoje guarda pouca semelhança com a ideia proposta por Roy, com muitos lugares ignorando algumas das diretrizes do que ele definia. Porém, talvez nesse caso não seja tão problematico.
Na versão original, as vantagens do terceiro lugar eram, até certo ponto, questionáveis., além da exlusão de grupos minoritários ser notoria. Além disso, foi escrito em uma época bem diferente dessa que vivemos. Num mundo em que as redes sociais ainda não tinham fragmentado tão completamente o senso de comunidade.
De certa forma, defendo que a apropriação que a internet fez da ideia de terceiro lugar ajuda a adaptar essa ideia para o mundo atual. Hoje, sair de casa e ir para uma biblioteca passar algumas horas sem olhar para o celular já é um passo importante rumo à melhoria de vida. Se isso não se encaixa no terceiro lugar de Roy, honestamente, pouco importa.
Ainda hoje sinto falta do Boca da Noite. Frequentei muitos bares depois, mas jamais encontrei outro como ele. Isso não me impede de ainda procurar. Toda quinta-feira, por volta das 18 horas, saio de casa. Normalmente levo apenas a carteira e meu caderninho de anotações. Ando a pé pelo bairro até encontrar algum bar que no qual nunca sentei antes. Puxo uma cadeira, peço uma cerveja, algo para comer e fico lá, aproveitando o ambiente.
Por sorte, moro em um bairro que tem uma quantidade de bares maior que o mínimo necessário, pelos meus cálculos, posso continuar nesse processo por mais alguns meses sem precisar repetir. Mas, mesmo quando tiver que repetir, dificilmente vou abandonar esse hábito. Sair de casa por sair, sem nenhum compromisso prévio ou lugar para onde ir é uma prática muito boa de se ter.
E, talvez, essa seja a ideia a ser defendida.
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