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Mesa do Alberto · May 12, 2026

Manufaturando consentimento #1: O mundo secreto das metáforas

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E porque um carro não é apenas um cavalo rápido

*metáforas

Metáforas são uma paixão universal. Ninguém está imune a elas. Alguns podem torcer o nariz. Considerar esse tipo de artifício algo rasteiro, bobo, preguiçoso. Mas mesmo eles vão, cedo ou tarde, por querer ou acidente, se render ao seu uso.

Afinal, metáforas são como catalizadores de ideias. Explicar algo no seu estado bruto pode envolver um conhecimento muito específico. Pode, por exemplo, demandar que a pessoa tenha um profundo conhecimento sobre aquilo que está sendo explicado. Para um novato no tema, então, esse requisito pode ser uma barreira muito alta para o entendimento.

E é aí que elas entram, derrubando a energia necessária para se entender uma ideia. Um mecanismo simples, que pode ser muito elegante e quase certamente é bastante funcional.

E foi nesse espírito de admiração que comecei a ler sobre o que os linguistas têm a dizer sobre elas. Afinal, algo tão presente na sociedade merece seu próprio grupo de estudiosos e especialistas. Nessa busca, encontrei o livro Metaphors we live by, escrito por George Lakoff (um dos meus linguistas favoritos) em colaboração com o filósofo Mark Johsnon.

Nele, os autores defendem algumas teses. Todas partindo do mesmo lugar: metáforas são essenciais para nosso entendimento de mundo. Não apenas em ocasiões especiais, mas diariamente a maneira como entendemos o mundo é pautada por metáforas.

Em alguns casos, pensamos nas mais conhecidas, como “tempestade em copo d’água”. Mas essas são as óbvias. Existem outras tantas que fazemos uso sem perceber. Como quando pensamos no tempo, algo intangível e imaterial, como algo físico e finito.

  • Estou sem tempo.

  • Meu tempo está se esgotando.

  • Com o que você tem gastado seu tempo?

  • Vou te dar algumas horas do meu dia.

  • Vou alugar alguns minutos da sua atenção.

Vários outros exemplos “invisíveis” são demonstrados. Como dizer que alguém constrói uma relação com o namorado (edificação como metáfora do relacionamento), lutando contra uma doença (o combate físico como metáfora para um tratamento), correndo para entregar um trabalho (corrida como metáfora para o projeto sendo feito) e assim por diante.

Porém, essa é a primeira parte da argumentação no livro. Porque entender isso nos leva a entender as consequências do uso da metáfora. Quando escolhemos uma coisa para exemplificar outra, isso gera implicações. Alguns casos são triviais. Outros, nem tanto.

E o controle dessas metáforas pode ser uma forte ferramenta para moldar uma sociedade.

Por isso, achei esse tema pertinente para começar uma série que venho cogitando escrever há algum tempo, com alguns rascunhos já feitos e, agora, finalmente organizados. Uma série sobre como grupos (sejam os de interesse público ou privado) manufaturam o consentimento de uma sociedade.

O termo vem do livro Manufacturing Consent, publicado em 1988 e de autoria conjunta do também linguista Noam Chomsky e do economista Edward S. Herman. Nele, os autores colocam em questão a ideia de isenção das mídias. Apontam como a mídia, que tanto se vende como “independente”, serve como ferramenta para elites corporativas e governamentais direcionarem o pensamento da população.

A ideia é que, por meio do que é noticiado (e do que é deixado de fora), a sociedade passa a aceitar ideias, rejeitar projetos, excluir grupos e abraçar propostas. É, assim, uma ferramenta para criar ideologia.

O ponto dos textos desse meu projeto é usar esse mesmo mapeamento para investigar outras instituições. Jogos e filmes fazem esse mesmo papel, mas não para por aí. Memes, vícios de linguagem, estilos de roupa, nada é criado em um vácuo ideológico. Ainda que nem sempre o objetivo seja servir a uma ideia, tudo acaba, cedo ou tarde, cooptado para esse fim.

E é o papel ideológico de todos esses outros campos que pretendo mergulhar para entender como eles criam a ideologia da sociedade.


Talvez a maior conquista das metáforas tenha sido se esconderem em plena vista. Diante dos olhos de todos, usamos e somos apresentados a elas quase que em todas as trocas de diálogo. Fazemos isso com fluidez e naturalidade. Mas, se perguntarem, diremos que isso acontece apenas em casos específicos.

O segredo é que boa parte das metáforas, conforme definidas pelos autores, não são vistas como tal. Talvez isso seja mais um atestado maior do seu enraizamento. Ou talvez os autores considerem muitas coisas como metáforas.

Se essa delimitação é válida, não importa tanto. O ponto central está nas implicações sociais que são independentes desse postulado.

Para melhor explicar, o livro separa metáforas em três categorias: Direcionais, ontológicas e estruturais.

  • Metáforas direcionais

A mais típica metáfora é aquela que estrutura algo nos termos de outra coisa. E é indo contra essa concepção que muitas metáforas se disfarçam. Especificamente as direcionais.

A ideia nesse tipo de construção é usar a concepção que temos de espaço físico para situar as coisas. “Estou meio pra baixo hoje”. Quando alguém diz isso, não quer dizer que ela se encontra fisicamente numa posição abaixo do interlocutor ou algo do tipo. Mas sabemos que ela está triste.

De forma semelhante, quando uma empresa anuncia que “as vendas estão subindo” não é uma referência ao realojamento do departamento de vendas.

Existe até um padrão mais profundo e universal. Entendemos “para cima” como algo crescente e/ou positivo. E a direção contrária leva ao sentimento contrário.

Na maioria das vezes, porém, isso não se refere a um deslocamento real. É apenas uma metáfora construída em cima dessa noção espacial que todos compartilham.

Quando pensamos em estruturas físicas, o nível de um rio subindo indica um volume maior de água passando nele. Pensando nisso, a ideia de “para cima” indicar mais é algo que tem raiz na maneira como a natureza se comporta. Maré alta, maré baixa.

Metáforas têm pontos de origem. Características comuns que as tornaram viáveis em algum momento. Nesse caso, é possível ver a semelhança entre a ideia de queda no nível de vagas de emprego e a noção de queda que encontramos no mundo natural.

Por fim, uma observação pessoal. Ao longo da vida, tive amigos que, sempre que se referiam a ir de um lugar para outro, falavam de “subir”. Tipo, “vou subir pra biblioteca”. E eu sempre achei engraçado que isso tinha pouco a ver com a altitude entre o local atual e futuro. O que, de certa forma, ajuda a reforçar que a noção é algo mais ou menos comum, ainda que nem sempre perceptível.

  • Metáforas ontológicas

Aqui já existe uma versão mais tradicional do que entendemos como metáfora. A ideia das ontológicas já entra na definição clássica de “explicar algo em termos de outra coisa”. Nesse caso, o objetivo é explicar ideias abstratas nos termos de algo concreto.

O exemplo mais comum é a metonímia. O livro trata esse recurso como uma subcategoria de metáfora. Para os fins do argumento sendo proposto, essa categorização é válida, uma vez que as intenções por trás se assemelham.

Quando falamos, por exemplo, que “a Apple lançou um novo iPhone” estamos nos referindo a um lançamento feito por executivos de um produto desenhado e programado por toda uma gama de pessoas. A Apple em si não existe; existem todos os funcionários e dirigentes que sustentam a empresa.

Isso gera uma clara implicação social para esse tipo de metáfora. Mas, por hora, basta entendermos como elas permeiam toda a sociedade sem percebemos.

Essa classificação não inclui apenas metonímias. Quando falamos que “essa ideia não entra na minha cabeça” representamos a nossa mente e ideias como uma caixa. Nela, podemos depositar ideias e pensamentos e extrair outros (”isso não sai da minha cabeça”). A mente humana é algo abstrato. Pode ter uma representação física dentro de nossas cabeças, mas muitas vezes explicamos seu comportamento na forma de outra coisa.

Inclusive, a mente é um bom exemplo de como as metáforas são construídas pelas épocas em que surgem. Quando computadores se tornaram comuns no dia a dia da sociedade, surgiu a noção da mente humana como um computador. Dizemos que “o sistema está lento” para dias ruins, “deu tela azul” para momentos em que travamos, e “vou processar essa informação” para os momentos em que tiramos para pensar sobre algo.

(Apesar de colocar aqui, a metáfora do cérebro se enquadra mais como uma metáfora estrutural.)

Considerando as muitas comparações de um computador como um “cérebro”, é fácil entender a raiz dessa ideia.

  • Metáforas estruturais

Falando em raiz de ideia…

No caso anterior, uma coisa era entendida nos termos de outra. Porém, aqui, a ideia expande. Nas estruturais, não é apenas uma comparação imediata. Toda a estrutura da ideia se baseia em outra coisa.

Pegando o exemplo usado no fim do trecho anterior. Tratamos a ideia como um ser vegetal. Ela tem raiz, se ramifica e produz frutos.

  • Essa ideia ainda está germinando;

  • É um campo fértil para novas ideias;

  • Plantou a semente da discórdia;

  • Pode ir cortando essa ideia fora;

  • Isso foi fruto da teoria anterior;

  • É fácil entender a raiz dessa ideia.

Obviamente que uma ideia não é um subtipo de planta. São coisas distintas. Cada qual tem ações e geram reações bem diferentes. Mas entendemos e expressamos nossa relação com as ideias como a nossa relação com plantas. Entendemos um no termo do outro. Isso fica bem claro no que considero a mais elegante descrição de metáfora:

A essência de uma metáfora é entender e experienciar uma coisa nos termos de outra.

É importante destacar o “experienciar” ali. A partir do momento em que entendemos a ideia como uma planta, isso afeta a maneira como lidamos com isso. Passamos a ver a ideia não como algo simples, isolado. Mas, como algo que pode crescer, pode gerar novas ideias, pode morrer se esquecermos e largarmos para lá.

É como se desenhássemos um mapa com os conceitos de origem (planta) e, sobre ele, colocássemos uma folha transparente. Nessa segunda folha, para cada um dos significados originais, colocamos um correspondente destino (ideia). Assim, mapeamos uma ideia com base em outra, o que inevitavelmente fará com que o destino retenha as relações presentes anteriormente.

Esse mapeamento, para o exemplo dado, seria mais ou menos assim:

Semente - Conceito original

Solo - Contexto mental

Cultivo - Estudo, pesquisa

Raiz - De onde vieram as ideias

Ramos - Subdivisões que surgem da ideia

Fruto - Resultado final

O mapeamento vai variar entre contextos. Num grupo acadêmico, por exemplo, o solo pode ser o contexto do grupo, não algo individual. Outras variações podem surgir simplesmente porque pessoas diferentes vão ter noção diferente do que é uma ideia e/ou de como cuidar de uma planta.

Essas diferenças apenas reforçam a teoria ao permitir ver como a interpretação de algo com base em outro depende das nossas experiências particulares com ambos. Como estruturamos diferentes coisas em nossas cabeças.

Outro exemplo fácil de entender seria o de um relacionamento amoroso como uma estrutura física. Isso inclui pensar “nas bases de um relacionamento” e num mapeamento com “Fissuras - Desgastes”. Mas deixo o exercício mental para quem quiser.

Afinal, isso encerra os três modelos de metáfora expostos no livro e ajuda a entender onde esse tipo de recurso se esconde à plena vista. Vale dizer que cada exemplo ocupa não só algumas páginas, mas alguns capítulos do livro original. Se algo pareceu incompleto ou deixado de fora, bom, é o custo de se resumir algo. Mas, com ou sem dúvidas, sugiro muito o livro.

O que quero expor aqui é que não damos a devida importância porque muitas das metáforas não são percebidas como tal. Uma vez que se levanta o véu, vemos elas em todos os lugares. E é a partir dessa onipresença que partimos para um segundo tópico.


Existe algo curioso nas metáforas. Apesar de passarem batido na maior parte dos casos de uso, acredito que elas ainda cumpram um papel fundamental. Mesmo sem percebermos, essa estrutura conceitual pautada por elas traz impactos bem reais.

Um exemplo simples está nas metonímias. Escolher representar um grupo por uma estrutura inanimada tem um impacto. Tome, como exemplo, a chamada abaixo:

De um ponto de vista gramatical, “o Banco Master” atua como objeto direto do verbo “envolver”. A proposta da matéria é destrinchar fraudes criadas por esse objeto, o Banco Master. O problema é: ele não existe.

Todos sabem disso. O Banco Master não vai levantar e ir lá, de boa vontade, criar fraudes. Ele não tem consciência nem CPF. A teia de fraudes obviamente não foi criada pelo banco em si. Pessoas, dirigentes, executivos e políticos são os “sujeitos ocultos” dessa frase.

Ao optar por representar essas pessoas pelo substantivo “Banco Master”, tudo isso fica em segundo plano. A metáfora simplifica a realidade. E, a melhor parte, é maleável.

As muitas pessoas que sabem tratar de uma metáfora vão, cada uma, ler de uma maneira que corresponda à sua visão de mundo. Alguns vão ler isso pensando na ligação dos dirigentes com o Banco Central, outros com a classe política e alguns outros como uma relação interna do próprio banco, uma culpa própria dos executivos.

Sem falar nada, essa chamada pode ser facilmente usada como argumento por grupos muito diferentes entre si.

Mas, obviamente, uma reportagem não é só o título. Lendo o texto, é fácil encontrar nomes reais que “desnudam” os sujeitos envolvidos. Por exemplo, ao nomear o proprietário do banco logo no primeiro parágrafo.

Mas, mesmo no texto, o recurso ainda pode ser usado. Por exemplo, ao citar os estados envolvidos nos repasses da previdência para o Banco Master.

Aqui também existe um claro sujeito oculto, que surge ao tratar os estados envolvidos como uma entidade própria. Gramaticalmente, afinal, é ele o sujeito da ação, não um governador ou algum outro membro da administração pública.

Sendo justo, a notícia original vincula o nome do estado a uma reportagem que nomeia melhor os envolvidos. Não estou aqui para tentar desmerecer a credibilidade da reportagem, apenas apontar os efeitos de certos recursos linguísticos.

O efeito da metonímia não é novo. Em comentários de particulares, esse efeito fica mais claro. Usar uma instituição ampla em vez de um sujeito específico permite diluir e contornar a culpa. Fazendo os culpados parecerem, se não inocentes, menos envolvidos.

Claro que, afinal, esse não é o único tipo de metáfora. E, aliás, é nas estruturais que a situação ganha novos contornos.

Como comentei antes, as metáforas estruturais funcionam como uma forma de mapeamento. A questão é que aquilo que se sobrepõe absorve informações do que veio antes.

Pense, por exemplo, na metáfora do cérebro como computador. Dizemos que “acordei com o sistema lento”, ou “ainda estou em modo stand by”, “preciso de um tempo para processar essa informação”, “meu cérebro travou com essa conversa”.

Porém, o funcionamento de um computador é muito diferente do de uma mente humana. Um exemplo simples é a ideia de executar muitas tarefas ao mesmo tempo. O computador em que digito isso consegue processar o texto enquanto, no fundo, realiza diversas outras tarefas que demandam bastante esforço computacional. Multitasking.

Já foi provado por estudos que a mente humana não é capaz de realizar muitas tarefas ao mesmo tempo. Algumas pessoas gostam de se enganar, garantem que conseguem fazer duas coisas com a mesma eficiência que teriam fazendo cada uma isoladamente.

Olha, sinto informar, mas não. Sim, podemos até fazer duas coisas ao mesmo tempo, mas renderemos certamente de maneira muito pior. E não é “metade do rendimento”, afinal, são duas coisas. É menos da metade para cada coisa.

Mas continuamos buscando esse tipo de ideia. Almejamos algo que não fomos biologicamente programados (sim, o uso do programado foi intencional) para fazer. E, justamente por isso, não somos capazes.

Isso traz um conceito importante na metáfora estrutural: elas são parciais. Escolhem expor alguns pontos semelhantes e ocultam outros. Quando usamos, focamos nos primeiros e ignoramos os segundos.

Esse ponto, por exemplo, também é exemplificado pelo fato de nossas mentes estarem diretamente ligadas a um corpo. Um computador não muda o processamento ao sentir uma dor física. O cérebro humano, porém, leva isso em consideração. Isso, junto de outras coisas (sentimentos, por exemplo), reduz a força da metáfora. Normalmente essa parte passa batido, afinal, as metáforas focam nas comparações explícitas e esquecem as ocultas.

Um outro exemplo pertinente para ilustrar os efeitos da metáfora estrutural é a ideia de estruturar um debate como uma guerra.

  • Você defende seus pontos;

  • Busca e ataca pontos fracos de um adversário;

  • Usa estratégias para melhor posicionar suas ideias;

  • Vence ou perde o debate.

Lakoff e Johnson usam esse mesmo exemplo e apontam:

Não é que argumentos sejam um subtipo de combate. Argumentos e guerras são dois tipos de coisas diferentes - discurso verbal e conflito bélico - e as ações performadas em cada um são ações de tipos diferentes. Mas um argumento é parcialmente estruturado, entendido, performado e comunicado como em termos de combate.

Não apenas exemplificamos o debate com os termos de guerra, mas estruturamos o comportamento de um em base no outro.

No caso posto, ao escolhermos entender uma argumentação nos termos de um combate, a maneira como vivenciamos e performamos a primeira é afetada pela nossa compreensão da segunda.

Assim, o debate se torna algo belicoso, em que os lados se comportam como partes opostas lutando pela vitória. Não existe, nisso, espaço para aquela ideia virtuosa do debate como forma de ambas as partes chegarem a um entendimento comum, ampliando suas visões de mundo, ainda que mantendo as posições originais.

Quando um líder político diz aos apoiadores que a oposição deve ser “metralhada”, ele não pede que peguem em armas e cometam crimes. Mas a implicação das palavras é igualmente grave. O opositor político é elevado ao grau de inimigo.

Podemos sentar e dialogar com um opositor. O mesmo não acontece com um inimigo.

Nesse sentido, um contraexemplo seria uma sociedade que optasse por ver o debate como uma dança. As partes não têm que se atacar, mas se apoiar mutuamente, cada qual ajudando a equilibrar algo que está sendo construído em conjunto.

Um conceito tão diferente que, para alguém que entende o debate como combate, isso sequer seria chamado de debater. Na dança, a ideia virtuosa previa poderia se fazer presente. O que, aliás, revela outro elemento da metáfora na sociedade.

Nas metáforas conceituais, mais que em outros casos, não se trata apenas das palavras usadas, mas da maneira como nos comportamos.

O que nos leva a uma das mais famosas metáforas. Sim, eventualmente chegaríamos nela: a guerra às drogas.

Para esse caso, vale voltar à origem do termo. Em junho de 1971, o presidente americano Richard Nixon realizou um discurso em que apontou o abuso de drogas como “o inimigo público número um” daquele país.

No discurso, o diálogo para tratar o problema é claramente militar. Ele fala sobre a necessidade de uma “ofensiva global” contra o problema. A lógica funcionou tão bem que atualmente a página sobre o tema na Wikipedia tem o formato usado em conflitos bélicos.

Essa metáfora se tornou tão enraizada que atingiu quase o senso comum. O problema está no mapeamento. Em uma guerra, existe um inimigo a ser vencido, muitas vezes pela morte. E o mesmo vale para os aliados dele. Quem coopera também deve ser combatido.

Na analogia bélica, uma operação que resulta em 122 mortes adversárias não tem outro sentido senão a vitória. É um juízo de valor que não precisa ser questionado.

Se as drogas fossem vistas não como um problema bélico, mas de saúde pública, o foco talvez pudesse ser diferente. Sim, conflitos violentos ainda aconteceriam. Mas o centro do debate poderia ser ocupado por médicos e psiquiatras. No cenário atual, essas figuras ficam em escanteio.

Afinal, é uma guerra, conforme posto por Nixon. E assim aceitamos.

O que leva ao último ponto. Metáforas nem sempre surgem da conveniência. Muitas vezes são criadas. Impostas. Quer de maneira pensada ou não. Marx dizia que “a ideologia de uma sociedade é a ideologia da classe dominante”. A metáfora é parte dessa ideologia.

Existem grupos que vão se beneficiar de ver sua responsabilidade diluída por trás de um nome maior, como “Banco Master”.

Outros irão escrevê-las para beneficiar suas ideias. Quando pensamos em “alívio fiscal” estamos perpetuando a ideia de imposto como um sufoco. Qualquer coisa que os reduza é benéfica. Quem quiser interromper isso, é um inimigo, querendo matar os sufocados.

George Lakoff explora isso em outro trabalho. Ele aponta, por exemplo, como a noção seria diferente se pensássemos no imposto como algo para o coletivo. Um investimento que as pessoas fazem, tendo como beneficiária a sociedade atual e futura.

Pensando dessa maneira, a busca não seria para combater os que querem reduzir os impostos, mas sim os que desviam esse investimento e impedem que ele beneficie toda a sociedade.


Amo metáforas, mas ainda não joguei Metaphor…

Como apontei antes, os pontos aqui não encerram o tema. Longe disso. Para além do livro citado, Lakoff ainda publicou diversos outros trabalhos explorando o papel da linguagem na formação política. Mesmo o livro citado ainda foi muito resumido nesse texto.

Se em algum momento parecer que dei um “salto lógico”, tenha isso em mente. Esse texto é um resumo superficial de uma ideia que vale alguns livros, e cujas implicações se estendem para além do exposto aqui.

E assim, vamos deixando essas pequenas figuras linguísticas moldarem nossa relação com a realidade.

No fim, talvez a força das metáforas esteja justamente no fato de que raramente percebemos que estamos pensando por meio delas. Elas não aparecem apenas como figuras de linguagem decorativas, reservadas à literatura ou aos discursos eloquentes. São estruturas silenciosas que organizam a maneira como interpretamos o mundo, como sentimos, debatemos, julgamos e agimos.

Quando tratamos ideias como plantas, debates como guerras, impostos como sofrimento ou drogas como inimigos militares, não estamos apenas escolhendo palavras mais bonitas ou eficientes. Estamos escolhendo enquadramentos. E enquadramentos definem como nos comportamos em sociedade.

Controlar uma metáfora é uma ferramenta importante que auxilia na modelagem de uma sociedade. Permite que achemos algumas propostas injustas justas ou apoiemos ideias que, no fim, jogam contra nossa classe.

E isso acontece porque a linguagem não é neutra.

Não porque toda palavra esconda necessariamente uma conspiração deliberada, mas porque nenhuma sociedade produz linguagem fora de suas relações de poder. Metáforas nascem de contextos concretos, carregam valores, moldam e são moldadas pela forma de pensar de uma sociedade.

Talvez o aspecto mais inquietante disso tudo seja perceber que não pensamos primeiro para depois falar. Em muitos casos, falamos e pensamos dentro de estruturas que já estavam prontas antes de nós.

A manufatura do consentimento é uma disputa contínua pela forma como a realidade pode ser concebida.

Porque, às vezes, para se convencer alguém de algo, basta a metáfora certa.

Read on albertobarbosa.substack.com

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