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Mesa do Alberto · May 19, 2026

As cidades que foram esquecidas

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Alberto Barbosa · Mesa do Alberto

Algum tempo atrás, adquiri um hobby inusitado de maneira inesperada.

Começou quando eu e dois amigos de infância, cada um morando em um canto, decidimos fazer uma viagem juntos. Viagem de amigo mesmo. Quando dei essa ideia, todos acharam ótimo. Faltava, porém, um elemento importante: um destino.

Não tinha ideias ruins, saímos jogando tudo na mesa. Praia, montanha, cidade histórica, cachoeira. Tudo valia. Eis que dei uma sugestão e, assim que falei, me apaixonei tanto por ela que não consegui esquecer. Claro, ninguém mais achou a ideia minimamente boa. Eu sabia que ninguém aceitaria. E tudo bem. Mas gostei tanto da ideia que propus e, após rejeitada, guardei comigo para o futuro.

Em 1927, John Ford teve uma grande ideia de primarizar toda a produção dos carros Ford. Toda a produção mesmo. Ponta a ponta. Não queria só encaixar as partes para formar o motor. Ele queria extrair as partes da terra.

Era algo tão completo que incluía até a borracha dos pneus. E, aliás, foi exatamente nisso que ele pretendia começar. A ideia era a própria Ford extrair a seringa das árvores e levar para as fábricas.

O problema é que essas árvores ficavam fora dos EUA, onde estavam as fábricas. Boa parte ficava em áreas então controladas pela Inglaterra. Que, aliás, cobrava impostos proibitivos. O que incentivou Ford a tirar a ideia do papel.

Após alguns estudos, ele optou por realizar seu plano no Brasil.

E ele não estava a fim de economizar. Se essa era a opção mais viável, ele não só estava disposto a montar uma base operacional lá. Ele estava disposto a montar uma cidade inteira apenas com esse propósito. A cidade erguida recebeu o nome nada sutil de Fordlândia, no estado do Pará, a mais ou menos 1.200km da capital.

O projeto, porém, contou com a absoluta inexperiência da fabricante no ramo da agricultura. Além disso, o povo da região não aderiu muito bem ao projeto. Ajudou que a ideia incluía uma tentativa de impor a cultura americana aos trabalhadores, ignorando o modo de viver da região até em questões básicas, como hábitos alimentares.

Além disso tudo, o timing foi ruim. Alguns anos após o início das operações, borracha sintética passou a ser usada na fabricação de pneus, tornando toda a operação obsoleta. A cidade, construída com um único propósito, foi abandonada. Uma das mais famosas cidades fantasmas do Brasil.

E foi esse lugar, abandonado fazia já 80 anos e a 3.300km de distância de onde eu morava na época, que eu propus como sugestão de destino. Ninguém aceitou.

E não culpo eles. Não era algo muito atrativo. Fordlândia vale por uma ou duas curiosidades que podem facilmente ser vistas em uma ida ao Google Imagens. Como, por exemplo, a grande caixa d’água da cidade.

Ainda assim, mesmo depois de todos os anos, ainda penso: e se eu fosse até lá? Só pra dar uma olhada. É o tipo de pensamento que não chega a ser intrusivo, mas é quase. Porque, vamos ser honestos, eu nunca iria até lá.

O mais próximo que fiz disso foi ler um livro sobre a história da cidade. Fordlândia, escrito por Greg Gradin, que conta com uma vasta pesquisa sobre a cidade, sua história e seus personagens.

Foi lendo esse livro que finalmente entendi o que me chamava tanta atenção naquela história. Aliás, consigo dizer até em que página a ficha caiu. Foi quando li o relato da babá dos filhos do último gerente americano da plantação, América Lobato. Especificamente quando vi sua foto.

Vendo isso, percebi que a história dessa cidade e das pessoas afetadas por ela está condenada a ser esquecida. Talvez o nome dos gerentes e dirigentes ainda seja lembrado, mas o povo que trabalhou lá, os que ainda vivem ali, eles não vão ser lembrados.

A cidade está em ruínas e não parece que nada vai mudar isso. Quando acabar, de vez, vai ser esquecida. Diferente de cidades famosas, não vão sobrar sequer muitos registros de que aquelas pessoas um dia estiveram ali.

E, de certa forma, esses lugares condenados a serem deixados para trás são algo que me atraem. Mesmo que uma cidade como São Paulo deixe de existir abruptamente amanhã, muitas pessoas vão lembrar que estiveram lá. Que conheceram pessoas nascidas lá. Viram filmes de lá. Escutaram músicas que falavam de lá.

Ir até esses lugares badalados vai servir para fortificar essa memória coletiva que já está muito bem enraizada. Ir até Fordlândia, porém, é a chance de dar uma contribuição, ainda que mínima, para algo que dificilmente vai ser lembrado.

Ou não, né. Afinal, Fordlândia não é o melhor exemplo dessa minha ideia. Tem tanta coisa nessa história, imperialismo, capitalismo, imposições estrangeiras, apagamento cultural… é uma história com muitos lados para ser deixada para trás.

Agora, a história de cidades realmente irrelevantes, essas sim me atraem. O que me levou ao estranho hobby que comentei no inicio.

Ler o livro de Fordlândia me despertou para esse ramo muito específico da literatura: a biografia de cidades não muito relevantes.

Comecei a caçar esse tipo de coisa em sebos, procurando em todo canto, pedindo de presente para quem acaso tivesse. Claro que, sendo algo tão nichado, é meio difícil conseguir frutos. Mas não impossível.

Tenho uma lista que inclui, por exemplo, toda a biografia de uma cidade no interior da Bahia ou a formação da classe trabalhadora de uma cidade meio esquecida na zona da mata mineira.

Talvez meu item favorito seja um livro intitulado “A verdadeira história de Paula Cândido”. Paula Cândido é um dos casos em que de fato conheci a cidade, já que é vizinha da que nasci. Inclusive, recebi o livro das mãos do autor.

Mas o que me fascina é: essa cidade tem pouco mais de 8.500 habitantes. Quantas versões de história uma cidade desse porte pode ter para o autor ter que especificar que o livro trata da “verdadeira”?

No livro, ele relata a lista de pessoas importantes, aspectos religiosos, festas culturais e crônicas que foram passadas, na maioria de maneira oral, entre gerações. O livro preenche 256 páginas, um valor impressionante dadas as modestas dimensões da cidade.

Mas a parte mais bonita dele não está nestas 256 páginas. Fica na orelha do livro. Feita de maneira quase caseira, com uma edição que não faz grande justiça aos designers, em cima da foto do autor, ele coloca a citação:

Que esse livro venha a ser lido com a mesma emoção com que foi escrito.

Com todo respeito ao autor, meu compadre (já falecido, aliás): dificilmente esse livro sequer vai ser lido. E não é uma crítica à escrita, é só que dificilmente alguém vai encontrar motivos para saber sobre esse lugar. Ou sobre todos os lugares, cujas histórias venho colecionando no meu acervo de biografias municipais pouco relevantes.

Ainda assim, a paixão dele por aquela cidade está ali, naquelas páginas. Mais que isso, toda a história daquelas pessoas será dificilmente contada em outro lugar. Raramente vão ser lembradas por outros meios.

É uma história condenada a ser esquecida em um espaço de tempo particularmente curto.

E que alguém tenha se dedicado a dar, talvez, um pouco de sobrevida para elas, é algo que acho lindo. No que depender de mim, esses livros sempre terão um espaço na minha estante e no meu tempo.

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Read the original on albertobarbosa.substack.com

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