Dando continuidade ao artigo anterior, no qual falei sobre a intrusão do autor na narrativa, quando o scriptor acaba fazendo o trabalho sujo de incorporar os pontos de vista que não pertencem aos personagens no texto, queria partir de um caso em que, numa primeira leitura, fomos levados a pensar que havia ali um caso de pensamento intrusivo, mas que se revelou outra coisa.
Falo do segundo exemplo trazido para a sala. Por questões de sigilo, já que se trata de um romance inédito, não vou citar detalhes, mas quem estava na sala (ou tem acesso à gravação do encontro em nosso acervo do Notion) vai lembrar.
Após a leitura inicial do começo do romance — naquele momento não sabíamos que se tratava de um romance, pois limitamos a 600 palavras a submissão — eu fiz o seguinte comentário: “É a mão do escritor. O que é o escritor? É o autor. É você falando pela boca do personagem”. Ali, ao vivo, eu misturei os conceitos de escritor e autor, que desenvolvi no artigo anterior, mas o que eu queria dizer bate com a ideia geral: eu julgava que havia ali uma intrusão que não batia com a personagem.
Dizendo sem dizer: a cena se passava num espaço público e a personagem narradora fazia um comentário sobre o que via que me pareceu deslocado. A imagem que todos construíram, num primeiro momento, de quem seria aquela personagem, nos afastava daquela metáfora. Era como se estivéssemos diante de um estivador que fazia um comentário sobre a metafísica de Bacherlard. Estou exagerando, e claro que pode haver estivadores filósofos, mas acho que deu para entender meu ponto.
Mas, de todo modo, falei: “Não quer dizer que você vai cortar isso aí. Na verdade, eu proporia o contrário — vamos descobrir por que esse personagem falou isso. Se não for interferência do autor... vamos tentar desenvolver.” Isso aconteceu no final do primeiro momento da sessão, quando leio o texto e os colegas comentam — seguindo a proposta de Le Guin, o autor só ouve.
Mas eu disse que reformulei o formato, por isso nas sessões do Lâmina, depois do primeiro momento, o autor explica suas intenções, antes de uma terceira rodada, em que os colegas comentam se acham que aquele efeito foi alcançado ou não. Foi na segunda rodada que minhas suspeitas vieram à tona. De fato, a personagem não só poderia ter usado aquela metáfora como a metáfora era uma estratégia de caracterização e antecipação de quem era de fato a personagem.
O fato de essa imagem ter saltado à vista na primeira leitura não era um erro estrutural, não era o comentário do Poderoso chefão que eu meti no meu conto: era justamente a voz da personagem narradora se mostrando, logo no começo do romance, e nos dando uma gramática para lê-la. O erro não foi que o estivador estava citando Bachelard, mas que nós estávamos achando que o filósofo, por sua aparência e seu jogo de cena, era um estivador.
A sessão, então, lembrou uma lição que sempre levo a meus mentorados, mas que por um momento esqueci: o romance se constrói com paciência, sem pressa. Coisas que são plantadas na primeira página podem só fazer sentido 100, 200 páginas depois. Agradeço a todos que estiveram ali, principalmente ao autor do romance que nos trouxe seu trabalho para lermos juntos na Comitiva — eu já estou ávido por ver esse romance pronto.

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