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A lâmina do redemoinho · Aug 22, 2026

O oráculo de Compostela

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Wellington de Melo · A lâmina do redemoinho

Redemoinho. Colagem feita em colaboração com Flow AI.

Esta semana, trago aos seguidores do Lâmina a reprodução integral do artigo que publiquei na Revista Pernambuco1. Os assinantes sabem do que se trata. Só eles.

Resgatado dos arquivos da Universidade de Santiago de Compostela, um artigo de 1993 assinado pela antropóloga Xoana Piñeiro mapeou a anatomia das voragens décadas antes do primeiro apagamento das ilhas do Pacífico Sul. A seguir, os excertos da profecia ignorada.

Durante pesquisa no setor reservado da biblioteca da Faculdade de Filoloxía da Universidade de Santiago de Compostela, onde realizo estágio pós-doutoral, encontrei o artigo “O vórtice da hiperconectividade: borrado ontolóxico e museificación do Sur global no capitalismo tardío”, publicado no número 2 de 1993 dos, para mim até então desconhecidos, Cadernos Ibéricos de Antropologia2.

De autoria da antropóloga galega Xoana Piñeiro, o texto traz reflexões perturbadoras que, neste 2026, têm ares de profecia: a autora previa, ainda na década de 1990, que a voracidade tecnológica e informacional do Norte Global resultaria não apenas em colapso ecológico, mas em uma ruptura no próprio tecido da realidade. As anotações documentam o momento exato em que o aviso ignorado de ontem se tornou a nossa contagem regressiva de hoje. A seguir, trechos do artigo, que traduzi e anotei para a Revista Pernambuco.

(...) A hiperconexão do Norte não é apenas um dreno econômico, mas sim um dreno de substância. Observo as nações periféricas e onde se vê o extrativismo de recursos naturais, percebo o roubo da própria capacidade de permanecer no tempo. A metrópole, em sua fome de existir em hiper-realidade contínua, exige que o Sul ceda sua densidade existencial. É nesse sentido que a equação da realidade, no capitalismo tardio, é de soma zero. Não estamos falando de imperialismo cultural. Estamos falando de desmaterialização literal3.

[...]

Como antropóloga, o que me aterra não é o colapso das infraestruturas, mas o silêncio que o precede. O apagamento não começará com explosões, mas com o esquecimento. Começará nas cozinhas, quando uma mãe não conseguir recordar a receita ancestral; começará nos portos, quando o nome do mar for esquecido. Digo que a matéria ficará “cansada” de existir porque a memória que a sustenta foi sugada para alimentar os enormes servidores do Norte. O colapso será um desvanecimento em cascata. Nações inteiras deixarão de ter acontecido4.

[...]

E, como a História já provou em outros momentos, a resposta da Europa não será a devolução dessa realidade perdida, mas a construção de vitrines. Faremos (Farão)5 com o Sul Global o que sempre tentaram fazer com as culturas marginais: transformarão os sobreviventes em folclore, em peças de museu etnográfico destinado à salvação da memória. Mas isso sempre foi uma farsa e será apenas um salvo-conduto para existir como espetáculo para a nostalgia de quem os apagou. Essa espécie de “Asilo Ontológico” será a mercantilização final da identidade humana.

[...]

Enganam-se, contudo, os arquitetos desta hiper-realidade se acreditam estar imunes ao monstro que alimentam. A periferia não é um código postal: é uma condição móvel, fluida e frágil. Quando o Sul for inteiramente consumido, considero certo que a voragem buscará as margens do próprio centro. Não me surpreenderia se, em um futuro não muito distante, o dreno ontológico voltasse seus olhos para nós. O que impediria a voragem de engolir a Galiza, ou Portugal, quando a fome do centro hegemônico se tornar insustentável? A voragem não tem lealdades geográficas; ela apenas devora.

1

Texto publicado originalmente na Revista Pernambuco, n. 31, de julho de 2026.

2

Não encontrei o número 1 nem números subsequentes dos Cadernos e nenhum funcionário da biblioteca demonstrou maior conhecimento sobre a publicação. Sobre a pesquisadora, o único colega com quem conviveu, apresentado por minha orientadora do pós-doc, em reserva e anonimato, a descreveu como “unha persoa moi peculiar”.

3

(Grifo meu) Piñeiro tentou avisar. Quando as primeiras ilhas do Pacífico Sul (Tuvalu, Kiribati, Nauru) desapareceram dos radares, o mundo achou que fosse a elevação do nível do mar. Mas a água não engole os registros de nascimento nos servidores da ONU. A água não faz com que diplomatas em Nova York esqueçam o rosto de seus pares insulares. As ilhas não afundaram; elas foram drenadas da realidade.

4

Em um trecho longo, que o espaço destinado aqui não permitiu incluir, mas que não queria deixar de mencionar, Piñeiro desenvolve em detalhe a tese do “Sintoma Zero da Voragem”: quando o mundo esquece o nome de um país, essa nação tem exatos 30 dias antes do apagamento ontológico total. Piñeiro calculou esse ciclo de desvanecimento em 1993. O que aterroriza hoje não é apenas a precisão matemática dela (Tuvalu, Kiribati, Nauru serão nomes esquecidos em breve e poderemos comprovar) mas o último parágrafo deste artigo. Se a periferia é móvel, o relógio já pode estar correndo para nós.

5

Cheguei a pensar num erro de edição ao traduzir este parêntese, mas lembrei da fala de um salmantino, em minha primeira visita à Espanha em 1997, que questionou quando chamei os espanhois de europeus. “Somos ibéricos”, me respondeu. O deslocamento do “Faremos” para “Farão” no artigo de Piñeiro, me parece, deve ser lido pela mesma chave.

Read the original on alaminadoredemoinho.substack.com

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