A sala abriu pontualmente às 19h, e já tinha gente na fila esperando quando entrei. Foi o combinado: usaríamos o tempo de forma mais eficiente para garantir que os textos da comitiva fossem lidos com precisão e aprofundamento. E foram. Criamos uma dinâmica nova de leitura, que tornou a conversa muito mais produtiva e eficiente, além de dar um feedback mais honesto. Aquilo sobre o que falei no artigo anterior, sobre um receio de que o encontro ficasse muito chapa branca, foi mitigado (os membros da comitiva podem confirmar ou não nos comentários).
Por mais ou menos duas horas e meia, foram muitos insights que surgiram a partir da leitura dos dois textos que entraram no redemoinho, e o mais massa disso é que víamos que não era só sobre o texto do outro, mas sobre nosso próprio trabalho, porque todos temos pontos cegos e é só questão de tempo para, numa esquina, encontrarmos o espelho.
Mas teve uma ideia que, depois refletindo para escrever este artigo semanal, foi um ponto comum nos dos textos: a percepção de que quando tu escreve, mais que ativar símbolos, tu ativa um registro. Isso também se dá com a escolha vocabular e as metáforas em torno de um narrador. Tanto em um caso como no outro, e uma vez ativado, esse registro decide se um elemento se lê como intencional ou como ruído. Essa questão apareceu nos comentários que teci aos textos de osmair da Silva Almeida e Armindo Ferreira, membros do Lâmina e que se dispuseram a colocar o trabalho na roda.
São duas faces da mesma questão, mas dadas as diferenças, preferi tratar de cada uma de forma distinta, em dois artigos. No desta semana, me concentro no símbolo como pacto de registro. Preservando nosso contrato de confidencialidade — que rege a escrita do meu romance e que naturalmente levo aos da comitiva — limitarei as referências ao mínimo.
Eu creio que todo processo de leitura é mediado por um contrato entre autor e leitor, normalmente influenciado por um meio e limitado por um contexto. Assim, quando eu leio a fatura do meu cartão de crédito, sei mais ou menos o que esperar — e nem sempre é coisa boa, principalmente depois de 3 meses na Europa. Se, no meio da fatura, a operadora coloca um poema, vou achar que foi um erro da Matrix: não faz parte do contrato de leitura de uma fatura de cartão de crédito meter um soneto de Shakespeare entre os débitos a pagar.
Com a leitura literária não é diferente. Há contratos que são estabelecidos logo na capa, quando o autor escreve, abaixo do título, palavras como “romance”, “contos”, “poemas”. O gênero gera expectativas no leitor, que naturalmente podem ser quebradas quando o autor pertence àquela categoria poundiana do inventor1. Há outros que surgem logo nas primeiras páginas, na primeira frase, inclusive, que é onde a chave vira.
Por exemplo, quando inicio meu romance Emilio com a frase da narradora “Um dos relógios quânticos do aeroporto está quebrado”, há algumas pistas sobre a natureza do universo que estou abrindo para o leitor, além de conter um símbolo que remete ao tempo, um dos eixos temáticos e estruturais do livro. Essa promessa, se não cumprida, é a que de fato impacta na experiência de leitura, mais que a ruptura do gênero, algo que a pós-modernidade quase impõe como regra da invenção artística.

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