Desde que voltei da temporada europeia, não toquei no original do romance. Eu poderia dizer que foi porque a vida cotidiana e as responsabilidades — incluindo os boletos e as faturas de cartão — desabaram sobre mim. Mas tem outro motivo pelo qual não peguei nos originais do primeiro rascunho terminado em Arraiolos, e é de ordem técnica: você deve dar um tempo no manuscrito depois de finalizá-lo. Sem isso, pode por o segundo tratamento a perder. É sobre isso que quero falar com vocês hoje.
A maioria dos escritores e escritoras que conheço comete o mesmo erro de terminar o rascunho e, ainda em transe criativo, abrir o danado do documento no dia seguinte para “revisar rapidinho”. Pobre padawan. Acha que vai só corrigir alguns erros óbvios, aquela virgulazinha que faltou, coisa e tal. Três horas depois, está reescrevendo capítulos inteiros, deletando parágrafos que funcionam, criando problemas onde não havia nenhum.
Pense numa bronca a ser resolvida. É essa. E ela nem precisava existir.
Quando tu termina um rascunho, teu cérebro ainda está dentro da história. Conhece cada personagem como vizinho, sabe o que cada cena deveria fazer, entende as conexões entre os fios narrativos. Essa intimidade é massa para escrever, mas mata a edição.
A edição exige distância. Exige que tu leia como leitor, não como autor. Exige que tu veja o que está escrito, não o que tu imaginou que estava escrito.
A edição é um ato de traição.
Tu precisa trair a intenção do autor para servir o leitor.
Quando tu tenta editar logo depois de terminar, teu olho salta sobre os erros porque teu cérebro já conhece a intenção. Tu lê o que deveria estar lá, não o que realmente está. Tu já tentou encontrar erro de digitação num texto que tu escreveu? Pois é, teu olho o ignora automaticamente. Simples assim. E tem explicação.
Há um conceito em psicologia cognitiva chamado fluência processual. Quanto mais familiarizado tu está com algo, mais rápido teu cérebro processa aquilo, e menos atenção tu dedica aos detalhes. É por isso que tu consegue dirigir para o trabalho sem lembrar do trajeto. Teu cérebro está em piloto automático. Aquele lance oriental de “é preciso esquecer o do para aprender o do.
Mas com o manuscrito, isso é fatal.
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