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A lâmina do redemoinho · Jun 14, 2026

A comitiva é uma tripulação amotinada

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Ainda no limbo do descanso do original, compartilho umas dicas de Ursula K. Le Guin sobre escrita

Abismo 1. Colagem criada em parceria com Flow.AI

Como sabem, estou dando aquele gelo necessário no original do romance que estou trabalhando no A lâmina do redemoinho. Falei da importância deste tempo no artigo da semana passada, e não vai ser para alimentar a audiência que vou contradizer esse plano: no final, nossa Comitiva faz parte de um cenário maior, que é a construção de uma comunidade. E prezo isso demais para jogar fora por alguns cliques de engajamento.

Isso ficou cada vez mais claro à medida que fomos avançando com os encontros e a dinâmica, que eu nunca tinha vivenciado, foi se consolidando. Confesso uma coisa: na primeira sessão eu não fazia ideia de como seria. Preparei um roteiro, no qual eu acreditava pouco e que foi sumariamente descartado nos primeiros 15 minutos de edição ao vivo, com a participação dos membros da comitiva.

Desde então, venho pensado nisto: a Comitiva do Redemoinho não é um grupo exclusivo de leitores-beta. É o que Ursula K. Le Guin, em seu Como criar histórias — um guia prático para escritores, chama de O navegante solitário e a tripulação amotinada. E o que seria isso? Algo muito semelhante ao que estamos fazendo na Comitiva: um grupo de pares em busca do aperfeiçoamento de sua escrita.

A importância de um grupo de pares

Quando me sento diante da tela, toda semana, para refletir sobre meu trabalho e compartilhar com vocês ideias, esquemas que uso, ferramentas de edição e detalhes sobre as decisões que venho tomando, não estou alimentando discípulos, estou trocando experiências com colegas. Essa relação horizontal, claro, não significa que vocês vão escrever o livro por mim nem que vou ceder a todos os pedidos. Isso não é fan service, só lamento.

O A lâmina do redemoinho é minha sala de criação aberta, mas é um espaço de trocas. É assim que vivencio a literatura, como esse lugar do diálogo com o outro. Ter acesso a consciências remotamente, desafiando espaço e tempo, é uma das coisa que torna a literatura algo mágico, não é? Agora mesmo, vocês já vão ver que a estética das imagens vai começar a mudar e isso refletirá o novo momento de escrita do projeto que vai chegar.

Então, não se trata só do romance que inspirou o nome do blog (os assinantes pagos, que sabem mais sobre o enredo do livro, entendem como ninguém), mas de um processo contínuo de criação em que estamos dialogando sobre nossas escolhas estéticas e aperfeiçoando nosso olhar sobre o texto alheio. Em última instância, ao fazer isso, também olhamos para nosso próprio trabalho.

Uma reformulação de nossas dinâmicas

Por isso, em virtude deste momento em que preciso deixar o original descansando e em que ainda estou montando a apresentação no novo projeto (que os assinantes já sabem qual é), tinha uma proposta.

Se essa proposta avançar, vou enviar no nosso grupo as regras de como vai funcionar. Tirei-as do livro da Le Guin e, por isso, aproveito para compartilhar algumas frases que estão presentes nele e que me ajudaram a compreender ainda mais o processo de escrita e edição coletivo. Me digam se concordam ou não com as ideias dela.

Sobre a gramática

Palavras tais como sujeito, predicado, objeto, ou adjetivo e advérbio, ou pretérito e pretérito mais-que-perfeito composto são compreendidas apenas parcialmente ou são totalmente desconhecidas por muitos. No entanto. são os nomes das ferramentas de quem escreve. São as palavras de que você precisa quando quer dizer o que está errado ou certo em uma frase. Um escritor que não as conhece é como um carpinteiro que não sabe diferenciar um martelo de uma chave de fenda. (”Ei, Pat, se eu usar aquele negócio meio pontiagudo ali, dá para enfiar essa coisa nesse pedaço de madeira?”)

Sobre comunidades de pares

Um bom grupo de pares oferece encorajamento mútuo, competição amigável, discussão estimulante, prática de crítica e apoio nas dificuldades. Se você quiser e puder juntar-se a um grupo, junte-se. Se anseia pelo estímulo de trabalhar com outros escritores, mas não consegue encontrar ou frequentar um grupo local investigue as muitas possibilidades de formar um grupo ou aderir a um na internet. (…)

Mas, se não der certo, não se sinta enganado ou derrotado. Você pode participar de muitas oficinas de escrita coordenadas por escritores famosos ou ser membro de muitos grupos de pares e ainda assim não chegar mais perto de encontrar sua própria voz na escrita do que o faria trabalhando a sós em silêncio.

Sobre a solidão da escrita

No final das contas. você escreve só. E, em última instância, somente você pode julgar seu trabalho.O juízo de que uma obra está completa — era isso que eu queria fazer e eu defendo meu trabalho — só pode vir de quem a escreve e só pode ser feito corretamente por quem aprendeu a ler a própria obra.

Sobre a crítica em grupo

A crítica de grupo é um ótimo treinamento para a autocrítica. Mas até bem recentemente nenhum escritor tinha esse treinamento, e ainda assim as pessoas aprenderam o que precisavam. Aprenderam fazendo.

Sobre o tempo para editar

Uma das poucas coisas em que a maioria dos escritores concorda é que não podemos confiar em nosso julgamento a respeito de nosso próprio trabalho recém-escrito. Para enxergar suas falhas e virtudes, precisamos olhá-lo após um intervalo real: um dia ou dois, pelo menos.

Sobre reler seu texto

Leia o texto em voz alta, já que falá-lo e ouvi-lo mostrará trechos desajeitados e falhas no ritmo e poderá ajudar você a tornar o diálogo natural e vivaz.

Read on alaminadoredemoinho.substack.com

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