Eu terminei o primeiro rascunho do romance novo num dia de Sol no pátio da Córtex Frontal, em Arraiolos. Com a Lettera 22 que levei na viagem, escrevi as últimas páginas num fôlego só entre laranjeiras carregadas. Não tive como não me lembrar d’O poderoso chefão: sempre que a morte está perto, aparecem laranjas em cena. A verdade é que, de fato, eu estava cometendo um crime naquele dia. Um assassinato. Com ocultação de cadáver.
Calma, é só uma metáfora. O que precisava matar era minha relação com aquele texto com o qual eu vinha convivendo intensamente nos últimos anos. O manuscrito, naquele momento, era a prova de tudo o que fiz, para o bem ou para o mal, no meio do processo. Ele era o cadáver que eu precisava ocultar de mim mesmo. Para seu próprio bem.
Deixar o manuscrito longe dos olhos é o que te impede de cair no ciclo da edição eterna (uma das coisas que trato no meu curso). Você faz isso para poder olhar para aquele texto com distanciamento crítico necessário. Quebrar essa regra é como voltar à cena de um crime: contém riscos, principalmente se faz pouco tempo do cometido — o famoso flagrante.
Gostou até agora? Bom momento para mandar pra alguém, não é? Avante!
A arte de não ser pego em flagrante
Na vida real, ele pode ser evitado em 2 ou 3 dias, mas não te livra da responsabilidade — se você for pego, vai ser julgado de todo jeito. Na escrita, dá pra fazer um paralelo: para um original, não recomendo voltar ao locus delicti antes de 30 dias. A diferença é que, quanto mais tempo, de fato, menor o risco de você voltar e ser pego. Mas 30 dias ainda é pouco, segundo a avaliação da a Zadie Smith, no famoso ensaio That crafty feelling1 (algo como Essa sensação de oficío), cuja leitura completa recomendo. Reproduzo o trecho que interessa para nossa conversa de hoje:
Quando você terminar seu romance, se dinheiro não for uma prioridade desesperada, se você não precisar vendê-lo imediatamente ou publicá-lo naquele exato momento, guarde-o em uma gaveta. Pelo tempo que conseguir. Um ano ou mais é o ideal, mas até três meses servem. Afaste-se do veículo. O segredo para editar seu trabalho é simples: você precisa se tornar seu leitor, em vez de seu escritor. Não consigo dizer quantas vezes me vi nos bastidores com uma fila de romancistas em algum festival literário, todos nós com canetas vermelhas na mão, editando freneticamente nossos romances publicados para que pudéssemos subir ao palco e lê-los. Infelizmente, o estado de espírito perfeito para editar seu próprio romance é dois anos após a publicação, dez minutos antes de subir ao palco em um festival literário. Nesse momento, cada frase redundante, cada exibicionismo, cada metáfora sem sentido, todos os trechos inúteis, a estupidez, a vaidade e o tédio se tornam dolorosamente óbvios. Dois anos antes, quando as provas chegavam, você olhava para a mesma página e não conseguia ver uma vírgula fora do lugar. E, aliás, isso também vale para os editores profissionais; depois de lerem um manuscrito várias vezes, eles param de conseguir enxergá-lo. É preciso ter uma certa mentalidade para editar um romance, e não é a de um escritor imerso no processo criativo, nem a de um editor profissional que já leu doze versões diferentes. É a mentalidade de um desconhecido inteligente que pega o livro em uma estante e começa a ler. Você precisa, de alguma forma, alcançar a mentalidade desse desconhecido inteligente. Você precisa esquecer que um dia escreveu aquele livro.
O curioso é que a Smith admite que ela mesma nunca seguiu esse conselho. É difícil, porque voltar à cena do crime é tentador.
A república independente de teu romance
Neste caso, meu crime seria óbvio: as barbaridades que meu eu que escreveu aquelas páginas cometeu para livrar-me do fardo do primeiro rascunho. Todo mundo quer terminar logo e nessa fase final é que mora o risco. Ocultar esse cadáver é um crime necessário: sem ele você não pode avançar e sem avançar não há livro, só uma ideia abstrata que você repete para as pessoas que dizem “ah, doido para ler”.
Zadie Smith, no ensaio que citei, fala que não existem técnicas universais que funcionam para todos os romances. Cada romance, diz ela, é uma espécie de “república independente”, com suas próprias regras. Tento a concordar com ela, principalmente à sensação de que, quando você fala de técnica sem se referir a uma obra específica, você está margeando o charlatanismo. Ela tem muito a dizer, nesse sentido, à maioria das oficinas de escrita criativa.
Por isso, no A lâmina do redemoinho me propus a falar sobre meu processo no meu romance: tu tem todo o direito de descartar o que não te serve, o que escapa do teu livro. É o mais próximo que se pode chegar da honestidade intelectual a que Smith se refere em seu ensaio. Tendo isso em vista, que meu pitaco é o que funciona para mim, ler em retrospectiva os artigos deste Lâmina ganha novo sentido.
Mas eu falava de flagrantes, crimes e ocultação de cadáveres. Pois bem: no caso de meu novo romance, já livrei o flagrante e estou perto de voltar à cena do crime. Mas meu receio por retornar tem outro fundo de prudência: voltar ao original sem um plano é revirar o cadáver em busca de nada e ainda arriscar-se a pegar alguma doença — a doença da edição eterna. É sobre esse plano que quero falar. Mas isso vou deixar para o artigo do fim de semana. E ele será exclusivo para assinantes.
A lâmina do redemoinho existe para ser minha sala de edição ao vivo. Se tu gosta do conteúdo aberto, imagina o que reservo para os assinantes. Vamos nessa? Atola o dedo aqui embaixo e assina.
“That crafty feelling”, Palestra proferida pela autora inglesa Zadie Smith aos alunos do programa de escrita criativa da Universidade Columbia, em Nova York, na segunda-feira, 24 de março de 2008, publicado na The Believer, em junho de 2008. Disponível em: https://www.thebeliever.net/that-crafty-feeling/

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