Enquanto meu romance descansa na gaveta — regra do meu próprio método, que não posso trair —, ando gastando meu tempo livre lendo. Foi nesse ócio que topei, no Instagram, com um vídeo que prometia o fim da leitura como a conhecemos. Segundo o influenciador, uma livraria em Berlim oferecia um serviço no mínimo distópico: por alguns euros, você pode dar a seu livro nunca lido o aspecto surrado de um volume que sofreu na mão de um leitor atento.
O pacote essencial, que custa módicos €5, inclui quebra profissional da lombada, 2 marcadores de página, 2 “orelhas de burro” acadêmicas (dog-ear, no inglês), 4 trechos sublinhados, 1 anotação de margem “arbitrária mas criteriosa”, e outra “contextualmente apropriada”. Já o pacote premium (preço infelizmente não divulgado) é um luxo: desgaste das bordas com furadeira e lixa por “vice-chefes de abrasão” (leve/pesado) + uma mancha de vinho barato ou café aplicada por um “especialista em dinâmica de fluidos”.
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O influenciador começou com tom de galhofa e ironia. “Até onde o ser humano chega para performar”, ou “onde o capitalismo chegou”, ele diz na primeira parte do vídeo. Depois, contemporiza: diz que não vai problematizar essa coisa de performance com literatura, porque o que importa é que a pessoa está “causando uma influência positiva”. "Finaliza ao dizer que não precisava uma empresa fazer, era só vir à casa dele e pegar um livro velho, e mostra pra a tela seu livro, naturalmente lido e relido. Na verdade, ele usa aquela estrutura de polêmica de gancho + comentário conciliador e confortável de fechamento. Pura performance.
A notícia poderia ser uma esquete do Monty Python. Só que ela não era totalmente verdadeira.
Uma investigação de domingo
Depois de ver uns dois ou três reels repercutindo essa notícia, alguns até mais profundos que o citado acima, decidi investigar que danado de empresa era essa. Afinal, de repente, eu podia ganhar algum dinheiro com parte da alta sociedade do Recife, principalmente da Zona Sul. Mas qual não foi muita surpresa ao descobrir que esse serviço, tal como mencionada pelos influencers, não existe. A ação, no entanto, aconteceu, só que precisa de contexto.
Não se tratava de um serviço comercial contínuo, mas um evento único, uma espécie de performance, num domingo à noite, organizado pela revista literária Cabinet no fundo de um bar em Berlim. Os editores da revista se vestiram como “especialistas literários de jaleco branco” e davam cara de velhos aos livros. De fato, foram 40 volumes “modificados” naquela noite, mas os motivos eram diversos, e talvez não necessariamente sirvam a uma crítica ao capitalismo.
Um deles foi livro-presente que o cliente ganhou da mãe, nunca aberto, tratado três dias antes da próxima visita dela. Claro que ele imaginava que ela ia perguntar se ele tinha lido. Pela cara, passaria, a bronca seria ela perguntar o que achou do final1. Outro exemplar ovo de Passagens (Walter Benjamin, 1.000 páginas), precisava parecer tão lido quanto o exemplar perdido que substituía. Fiquei na dúvida se esse segundo aconteceu ou se foi pegadinha de Sina Najafi, editor da revista e idealizador do evento. Walter Benjamin, em Desempacotando minha biblioteca, fala do colecionador que valoriza posse, não leitura. A leitura torna-se secundária frente à magia da posse, pois cada exemplar é uma relíquia material que evoca memórias e a aura do passado.
A chave parece ser outra, mas não é: saímos da era od colecionador que não precisava ler os livros à estante decorativa vendida por metro e dela ao BookTok e à performance de leitura no Instagram. Mudou quem precisa ver o fingimento, não o fingimento em si. Seja como for, a sátira da Cabinet, em tempos velozes de rede, em que as pessoas não suportam 3 segundos de atenção, teve um lado inesperado. Principalmente se consideramos a origem dessa performance. Sim, não acaba aí. Deixa explicar.
Uma piada de 85 anos
Tudo surgiu de uma conversa entre Najafi e Michel Chaouli (acadêmico americano que escreveu um ensaio sobre sublinhados em livros), que lembrou de ter lido uma coluna décadas antes. Tratava-se de um texto de Flann O’Brien, na coluna Cruiskeen Lawn, que propôs uma “Book Handling Agency” no próprio Irish Times — 85 anos atrás, ou seja, 1941.
O’Brien, também funcionário público, com humor irlandês, zombava da prática burguesa de ter bibliotecas pessoais lindas, mas intocadas, e jogou justamente a proposta, emulada na performance da Cabinet, de dar aos livros uma aparência de que foram lidos. Mas a materialização da sátira de O’brien vai além, creio, e dialoga com as ideias de Guy Debord, em A sociedade do espetáculo, que ano que vem faz 60 anos de publicado.
Debord analisa como, no capitalismo moderno, as relações humanas converteram a realidade numa representação mediada por imagens. Para ele, a representação substitui, aos poucos, a experiência vivida, e claro que ninguém pode deixar de pensar nas redes sociais como a materialização desta realidade.
A performance de leitura seria, então, só mais um elo dessa cadeia de representação, e envolve um deslocamento da prova social. Partimos da posse do livro para a leitura, seguida da sua performance. O estágio que falta é o rastro materializado da perfomance, que o “serviço” ofereceria aos “clientes”. A sátira de O’Brien virando produto real, sem ironia, 85 anos depois, seria a piada de ontem levada a sério. A leitura dos influencers que acreditaram na piada da Cabinet mostra que talvez não estejamos muito longe.
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Quem para de ler primeiro?
Mas o interessante é que não podemos esquecer que tudo é permeado da luta de classes e a performance de leitura não escapa à regra. A quinta edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, do Instituto Pró-Livro, entre 2015 e 2019, mostrou que o grupo que ganhava mais de 10 salários mínimos foi o que mais abandonou a leitura — caiu de 82% para 70% de leitores, a queda mais acentuada de qualquer faixa de renda, enquanto entre quem ganha até 1 salário mínimo a queda foi de 50% para 46%. A coordenadora da pesquisa atribuiu isso ao tempo livre da elite migrando pra redes sociais. Debord ecoando: será que o hábito da leitura migrou também para a performance da leitura?
Na sexta edição, a mais recente, essa queda se generalizou, mas o índice de leituras das classes A e B caiu de 70% para 59% de 2019 a 2024, 11 pontos percentuais não parecem acompanhar o stauts que a leitura performática ganhou nos últimos tempos. Um dado curioso na edição mais recente, apenas 13% de quem ganha até 1 salário mínimo compraram livro nos últimos 3 meses, contra 39% de quem ganha mais de 10 — ou seja, o acesso segue de classe, mas o abandono também é de classe, só que na direção oposta.
Esse recorte de classe abre então o que me parece ser o ponto mais importante. Até que ponto a leitura-performance nas redes sociais não poderia ser “trabalho estético” (aesthetic labor). Na sociologia do trabalho, o conceito envolve a mobilização, o gerenciamento e a mercantilização da aparência, do corpo e das disposições sensoriais para atender a demandas corporativas ou sociais. Pense, por exemplo, em profissões como o varejo de luxo, recepção, hostess, modelos, que exigem que Influenciadores performam a leitura o corpo do trabalhador vire parte do produto vendido.
A leitura performada nas redes é isso, só que sem contrato e sem salário: o leitor produz conteúdo (foto do café com o livro, story do grifo, resenha de 15 segundos) que gera engajamento pra plataforma, capital simbólico pra ele mesmo, e não recebe nada em troca além da validação — ou de mais seguidores. É trabalho, mas disfarçado de lazer — o que o torna ainda mais explorável, porque ninguém reclama de “jornada” quando acha que está descansando.
O preço de parecer ter lido
E aí eu não tenho como não voltar a Debord: nesse contexto, a leitura deixou de ser experiência e virou representação da experiência — não é o livro que importa, é a imagem do consumo do livro circulando. O “exemplo de algo bom” de que falou o influencer do começo deste artigo. Mas tem algo ainda mais cruel: esse trabalho de exibição é hierarquizado por classe exatamente como o trabalho estético tradicional.
Quem pode “performar leitura lenta” — a estante editada, o café específico, a luz certa pro story — é quem tem tempo livre pra estetizar o próprio ócio. O pobre que lê no ônibus, sem cenário, sem tempo pra fotografar, não entra nesse mercado de prova social, mesmo lendo mais horas por semana. A performance da leitura não mede quem lê; mede quem pode dar à leitura uma embalagem fotogênica. A performance da Cabinet de Berlim brinca com a materialização exata dessa lógica — ele terceiriza não a leitura, mas o produto do trabalho estético (o livro com marcas de uso), pra quem não tem tempo nem disposição de gerar esse rastro organicamente. Se esse serviço de fato existisse, seria o mercado reconhecendo que criou uma demanda por evidência e oferecendo atalho pra ela.
Toda essa discussão, me fez lembrar de uma coisa. Adolescente, trabalhava no centro do Recife, cuidando de frente de loja. Enfiava um livro entre as caixas e lia nos minutos que sobravam do intervalo. Não tenho foto daquilo. Não havia celular, mas se houvesse, não havia por que fotografar. Contar isso agora já é um risco: toda confissão de leitura pobre também pode virar troféu, o mesmo que o influencer do começo deste texto pendurou no peito com o livro dele "genuinamente" surrado. A diferença, se existe alguma, não está em quem lê escondido e quem lê à mostra. Está no que sobra depois que a plateia vai embora. Daquele livro eu não lembro a capa, nem o título — só um parágrafo que me persegue até hoje. Não tenho prova disso. E talvez seja essa, no fim, a única leitura que ainda escapa ao mercado: a que não deixa rastro nenhum, exceto o que muda por dentro de quem leu.
Gostou? Este é o momento de compartilhar. Também pode pegar um trecho de que gostou e republicar. Bora?
Se quiser pegar as pessoas na mentira, quando dizem que leram Grande sertão: veredas, pergunte qual capítulo gostou mais. O livro não tem capítulos.

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