Semana passada rolou mais um encontro ao vivo para assinantes do A lâmina do redemoinho. Como quem já acompanha sabe, foi diferente porque, em vez de nos debruçarmos sobre meu novo romance — que está de molho depois do primeiro rascunho terminado em Arraiolos — lemos textos de colegas e analisamos o que funcionava ou não.
A proposta partiu do que a Ursula K. Le Guin apresenta em seu Steering the craft (1995)1, como um grupo de leitura de pares. Mas havia um problema, que eu não tinha revelado a ninguém antes do encontro: o Clarion Writers Workshop, de onde provavelmente a Le Guin tirou a ideia da técnica (baseada no método Mildford2), não a utiliza mais, pois constatou-se que “ela fazia com que parte de seus participantes desistisse completamente da escrita.”3
E o principal motivo foi a famosa “Regra do Silêncio”: na versão original, o autor do texto deveria ficar absolutamente calado enquanto o grupo debatia sua obra. Silêncio total. O que se percebeu é que isso criava uma dinâmica de “ataque”, onde o autor não podia contextualizar suas intenções e saía da sala sentindo que seu texto tinha sido esquartejado sem direito a defesa.
Ora, sabendo disso, eu ia expor o grupo a um método tão draconiano? Claro que não, por isso propus alguns ajustes.
O formato: silêncio em camadas
A estrutura que montamos foi esta:
Primeira leitura — duas vezes cada texto, em silêncio. O autor ouvia sem reagir. Respeito ao método original.
Primeira rodada de opiniões — cada participante falava o que tinha achado. O autor continuava em silêncio, apenas anotando.
Autor contextualiza — só depois de ouvir tudo, o autor explicava o que quis dizer com cada escolha.
Segunda rodada — os leitores reavaliam: “chegou onde queria ou não?”
Palavras finais do autor — sem defesa, sem convencer ninguém. Apenas processar.
Percebe a diferença? O silêncio segue lá, mas agora estratificado. O autor não fala na hora do impacto, mas também não sai sem voz. Há um momento específico para ele dizer “olha, minha intenção era esta”. E, depois disso, os leitores podem refinar suas impressões sabendo o que o autor estava tentando fazer.
É um meio-termo que Le Guin não previu em 1998 e que a nova edição do livro, em 2015, mantém. Mas será que funcionou? Bom, vejamos.
O que a gente acertou (e o que Le Guin não viu)
O resultado foi surpreendentemente produtivo por três razões:

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