Oi, Yara Amorim, editora-assistente da Lupa, aqui. Confesso que tenho uma relação de amor e ódio com áudios de WhatsApp. Gosto porque eles substituem longas trocas de mensagens, mas também me impressiona como uma gravação de voz transmite credibilidade instantânea: quando ouvimos alguém falando, tendemos a acreditar que o fato narrado realmente aconteceu. É justamente essa confiança que tem sido explorada por quem produz desinformação. Nesta edição da Lente, a repórter Ethel Rudnitzki analisa como áudios falsos estão se tornando um desafio crescente para jornalistas. Em um cenário em que nem sempre é possível identificar uma fraude apenas ouvindo uma gravação, a checagem exige cada vez mais investigação, contexto e paciência. Boa leitura!
Goste ou não goste, trocar mensagens de áudio faz parte da rotina do brasileiro. Em 2024, o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, afirmou que o Brasil usa quatro vezes mais essa funcionalidade no WhatsApp do que outros países.
Mesmo que seja para enviar um breve “ok”, tem gente que prefere enviar uma gravação de voz do que digitar duas letras no teclado do celular. E quem nunca recebeu um áudio que poderia muito bem ser um episódio inteiro de um podcast?
Essa circulação massiva de gravações, além de ocupar um belo espaço na memória dos aparelhos celulares e nas nuvens de dados, também se torna mais uma forma de disseminação de desinformação.
Dos sete conteúdos que a Lupa desmentiu essa semana, dois foram áudios. Em um deles, uma voz que supostamente seria do presidente Lula dizia que “o homem que trai a esposa não está totalmente errado” e que ele seria “vítima da mulher”. Bem absurdo. Literalmente, porque não é verdade. O áudio foi gerado por inteligência artificial para simular a voz do petista.
Para desmentir esse conteúdo, a Lupa usou uma ferramenta que detecta conteúdos gerados artificialmente, chamada Hive Moderation. Basta subir arquivos de áudio, vídeo ou imagem no site, que ele fará uma análise sobre a probabilidade do conteúdo ser sintético. Nesse caso eram 98,9% de chance!
Outro áudio desmentido essa semana continha críticas à família Bolsonaro com palavras de baixo calão. Segundo publicações nas redes sociais, a gravação teria sido exibida pelo senador Cleitinho (Republicanos - MG) na tribuna do Senado. Também é falso.
O senador realmente exibiu um áudio no plenário no ano passado – mais um indício de que as mensagens de voz estão quase em todos os contextos no Brasil –, mas eram conversas vazadas do empresário Joesley Batista, em que ele falava sobre o Supremo Tribunal Federal, não sobre o ex-presidente e seus filhos.
O vídeo original do senador em que ele aparece reproduzindo a gravação no microfone da tribuna da Casa foi manipulado. O áudio foi substituído por outro, com xingamentos contra a família Bolsonaro.
Nesse caso, a Lupa conseguiu desmentir o conteúdo através de uma busca reversa por frames do vídeo no Google, que retornou a gravação antiga com o áudio original.
Entretanto, a origem ou autoria do áudio falso permanece desconhecida. Não foi possível localizá-la buscando pela transcrição do conteúdo, nem com ferramentas de detecção de inteligência artificial – duas principais estratégias para verificar a autenticidade de gravações de som.
Esse é o desafio das verificações em conteúdos de áudio, uma vez que, à exceção de músicas, não existem aplicativos ou funcionalidades em mecanismos de pesquisa online que permitam fazer buscas reversas por sons.
Também tem se tornado cada vez mais difícil determinar, a ouvido nu, quando uma gravação sonora é manipulada digitalmente. Poucos anos atrás, era possível identificar indícios mais claros de manipulação, como entonação robotizada na voz e erros em pronúncias de palavras. Porém, a tecnologia têm evoluído para eliminar esses marcadores e para burlar ferramentas de detecção de inteligência artificial, dificultando nosso trabalho. Esse assunto já foi tema de duas edições anteriores da Lente no ano passado (relembre aqui e aqui).
Sem fórmula mágica, a maior aliada nas checagens de conteúdos em áudio é a boa e velha consulta a fontes confiáveis como veículos de imprensa e canais oficiais. Pode ter certeza que se um áudio for real, ele será noticiado em grandes jornais e referenciado nos perfis das pessoas envolvidas.
Por isso, se receber um áudio que se diz bombástico e exclusivo, mas não encontrar notícias sobre ele em nenhum jornal, revista ou site oficial, desconfie. A chance de ser uma desinformação é grande!
Relatório do Observatório Lupa, em parceria com LatamChequea e a União Europeia, revela que a Rússia estruturou um amplo ecossistema de influência em pelo menos 13 países da América Latina. O estudo mostra adaptação de narrativas pró-Kremlin ao contexto regional, explorando sentimentos anti-EUA e anti-Europa e ampliando a desinformação após a guerra na Ucrânia, com intensificação desde 2022. A operação envolve mídia estatal, redes digitais, influenciadores, perfis falsos e campanhas coordenadas em plataformas e aplicativos como Telegram. No Brasil, conteúdos pró-Rússia circularam amplamente em redes sociais. O objetivo central seria ampliar a polarização, enfraquecer consensos democráticos e aumentar a desconfiança na imprensa e instituições. [YA]
Um levantamento do Aláfia Lab mostra que 87% dos brasileiros acreditam saber identificar uma fake news, mas a maioria reconhece que a identificação nem sempre é clara. Embora a desinformação esteja presente no dia a dia de boa parte da população, apenas 17% recorrem a agências de checagem para confirmar se uma informação é verdadeira. A pesquisa também revela quais são os temas mais associados às notícias falsas no Brasil. Spoiler: política e eleições aparecem disparadas na liderança. Vale a leitura para entender como estamos consumindo informação e desinformação em 2026. [Evelin Mendes, editora]
Transmissões ao vivo de tortura de animais em plataformas digitais — prática conhecida como zoossadismo — têm servido como porta de entrada para a radicalização e dessensibilização de crianças e adolescentes na internet. Segundo investigações da Polícia Civil de São Paulo, os casos de maus-tratos online cresceram 120% desde 2024. Um levantamento internacional feito em 2024 identificou mais de 83 mil links com esse tipo de conteúdo em 11 grandes plataformas digitais, sendo o Discord a mais usada. Cerca de 90% dos autores são jovens e as principais vítimas são filhotes de gatos. Para combater o problema, uma mobilização internacional apoia o PL 1043/2026, com objetivo de criar uma política de repressão a crimes digitais contra animais. [Victor Terra, analista de educação]
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