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Lente · May 29, 2026

🔎 Quando os médicos desinformam

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#227: Profissionais usam informações falsas para disseminar medo e vender cursos e ‘receitas milagrosas’; saiba como identificar

Oi, quem fala é o Luiz, editor-assistente da Lupa. Na Lente desta semana, a repórter Carol Macário fala sobre um dos fenômenos mais delicados da desinformação: quando ela é disseminada por uma autoridade. Neste caso, médicos que espalham informações enganosas ou sem respaldo científico sobre saúde para lucrar. Com a ineficácia das plataformas digitais - ou seja, das big techs - em monitorar violações em seus espaços e a falta de punições por parte dos conselhos médicos, estes profissionais estão por aí, lucrando às custas da ética e da nossa saúde. Por isso, esta edição também busca mostrar como reconhecer quando o milagre não é tão milagroso quanto parece. Boa leitura!

E um aviso: na próxima sexta-feira (5) não teremos Lente por conta do feriado. :) Voltamos no dia 12 de junho.


Médicos também desinformam (e lucram com seu pânico)

Nosso cérebro tende a desligar o filtro da dúvida quando uma informação é compartilhada por quem confiamos. Pode ser nosso avô, uma antiga professora, o padre da igreja. Médicos em geral também estão na lista das pessoas confiáveis, principalmente porque compartilhamos com eles vulnerabilidades e acreditamos na autoridade técnica.

Vou dar um exemplo pessoal: quando meu irmão mais novo foi diagnosticado com o Transtorno do Espectro Autista (TEA), minha mãe se lançou numa cruzada por respostas. A internet foi uma aliada. Até que ela se deparou com as falas de um médico britânico que, em 1998, manipulou e falsificou dados de 12 crianças para sugerir, em um artigo científico, que a vacina tríplice viral causava problemas intestinais e, consequentemente, o autismo — ele foi desmascarado anos depois por um jornalista.

Na época, minha mãe ainda não sabia que o estudo era uma fraude, apenas confiava nas palavras de um profissional da saúde. Durante muito tempo se martirizou achando que as vacinas eram a causa do diagnóstico do meu irmão (não eram! A Lupa desmentiu vários conteúdos falsos sobre isso).

Assim como ela, uma legião de mães e pais confia cegamente no que médicos dizem e prescrevem. Isso é até estudado. Na psicologia, o fenômeno se chama “atalho de confiança”: o cérebro usa a credibilidade de uma pessoa — e não o conteúdo que ela propaga — como prova de que a informação é real. Para a desinformação, é um prato cheio. Estudos até já citam a “confiança no mensageiro” como grande gatilho para propagação de fakes.

Marqueteiros sabem bem disso. E médicos interessados em faturar além do consultório também. Alguns profissionais têm transformado as redes sociais em consultórios virtuais e máquinas de vendas: quanto mais te convencem de que há algo errado com você ou seus filhos, por exemplo, mais vendem “soluções” e tratamentos milagrosos. Mesmo que às custas de mentiras.

Reportagem publicada esta semana na Lupa mostrou médicos que prometem “filhos mais inteligentes” para vender cursos e receitas em massa de vitaminas para crianças a partir de dois meses de idade. Além de não existir qualquer evidência científica de que seja possível aumentar o QI de crianças com suplementos, a prática é vedada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e oferece riscos à saúde.

Nossa investigação mostrou que, em comum, os perfis médicos que mais desinformam para vender algum curso ou produto pela internet recorrem a expressões clichês que acionam gatilhos mentais e causam curiosidade e culpa:

Frases clichês que fazem usuários se sentirem “escolhidos” ou fragilizados são usados para engajar nas redes - Imagem: Yuri Fêsan, Lupa

Essas frases sugerem um conhecimento “oculto” e que somente o autor da publicação sabe o “segredo” que outros ignoram. Também fazem com que usuários se sintam “escolhidos” por descobrir algo que ninguém sabe. Ou ainda — e mais grave — acionam a nossa insegurança e a culpa por não estar fazendo o melhor para a nossa saúde ou para a saúde de quem amamos.

Tudo isso em geral é falso: é apenas uma estratégia de vendas para fisgar atenção de internautas e fazê-los comprar algum protocolo, curso ou produto.

Essa, aliás, é a pista mais forte para suspeitar de um conteúdo nas redes, mesmo que tenha sido veiculado por algum médico com milhares de seguidores.

Toda vez que uma informação médica estiver vinculada a uma compra nas redes sociais, ligue o alerta. Isso é indicativo de que o perfil é mais “loja” do que de informação científica de qualidade. Se tem a oferta de um produto, é porque, normalmente, tem marqueteiros contribuindo com técnicas que, muitas vezes, usam apelos enganadores que exploram a dor de alguém.

Esse detalhe é importante porque, apesar dos desinformadores, também existem muitas pessoas ajudando a democratizar informações sérias e baseadas em evidências sobre saúde.

E, por fim, vale lembrar: crença pessoal não é ciência. Como qualquer outra pessoa, médicos também têm convicções pessoais e podem se apegar a teorias ultrapassadas que não estão ancoradas na medicina baseada em evidências. Eles também têm interesses comerciais, portanto a venda de suplementos, “fórmulas milagrosas” ou procedimentos desnecessários são uma forma de fazer dinheiro — não necessariamente melhorar a sua saúde. Na dúvida, consulte um médico que você conhece e confia. E faça exames antes de gastar dinheiro com suplementos da moda.


  • Como a regulação das plataformas digitais será implementada no Brasil? Duas reportagens da Lupa publicadas esta semana buscam respostas para essas perguntas, a partir dos decretos presidenciais assinados há uma semana e da atividade da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), órgão responsável por fiscalizar as plataformas digitais no país. O que pesquisadores afirmam é que a eficácia da regulação, vista com bons olhos para criar um ambiente digital mais saudável, depende da atuação da ANPD, que enfrenta dificuldades em sua estrutura. [Luiz Henrique Gomes, editor-assistente].

  • Uma reportagem da Revista Piauí mostra como a Holanda virou palco de uma série de movimentos de “detox digital” diante da preocupação crescente com os impactos das redes sociais na saúde mental, sobretudo entre jovens. Clubes de leitura sem celulares, campanhas de um mês longe das plataformas e pactos entre pais para adiar o uso de smartphones por crianças mobilizam milhares de pessoas no país. O texto também aborda o avanço do debate sobre regulação das redes sociais em diferentes países. O Brasil aparece na discussão com medidas recentes de proteção digital para menores, como a proibição de celulares nas escolas e o ECA Digital. [Yara Amorim, editor-assistente]

  • Nesta semana, a Polícia Civil da Bahia realizou uma operação contra um grupo investigado por aplicar o golpe do falso advogado e furtar cartões de crédito em festas. Segundo as investigações, os suspeitos teriam movimentado milhões de reais com as fraudes. E esse tipo de crime não é novidade. A Lupa já mostrou em reportagens e na edição #218 da Lente como funciona esse tipo de golpe, em que criminosos se passam por profissionais ou representantes de escritórios para enganar vítimas e pedir pagamentos indevidos. Para não cair nessa armadilha, vale consultar a cartilha publicada pela Lupa em parceria com as OABs de São Paulo, Espírito Santo, Goiás, Pernambuco e Paraná, e com o apoio do Jusbrasil. O material oferece orientações rápidas e didáticas para identificar e escapar dessas ciladas e proteger seus dados. [Evelin Mendes, editora]

  • As fraudes online não param! A Kaspersky, empresa global de segurança cibernética e privacidade digital, identificou mais de 160 sites falsos relacionados à venda de figurinhas e kits promocionais da Copa. Em alguns casos, usuários receberam e-mails informando que haviam “ganhado” prêmios de até US$ 500 mil, supostamente destinados a cobrir despesas com ingressos, passagens aéreas e hospedagem para assistir aos jogos do mundial. Era golpe. A edição da 🔍Lente da última sexta-feira (22) já havia mostrado como o maior evento do futebol se tornou alvo de fraudes online que iam desde álbuns de figurinhas falsos até promoções “imperdíveis” usadas para enganar consumidores. [Ítalo Rômany, repórter]

  • Uma reportagem da Agência Pública desta semana mostra como o líder de uma rede neonazista, condenado no fim de 2024 pela Justiça brasileira por terrorismo e incitação ao genocídio, está livre e residindo em São Paulo. Filho de pai alemão e mãe brasileira, Vincent Alexander Pacheco Weidlich planejou ataques terroristas no país com o objetivo de instalar uma colônia neonazista em Santa Catarina. De acordo com a investigação da Polícia Federal, Weidlich mantinha diversos grupos em aplicativos de mensagem para articular os ataques, inclusive se colocando como facilitador para obter armas ou fabricar bombas. [LHG]


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