Oi, Evelin Mendes, editora da Lupa por aqui. Outro dia, meu pai me mostrou uma promoção imperdível no celular e perguntou se ela era verdadeira. Alguns dias antes, recebi um e-mail com a palavra “URGENTE” em letras garrafais e vermelhas alertando que meu CPF seria suspenso pela Receita Federal e que eu precisaria fazer um Pix para regularizar a situação e evitar o bloqueio. Quase todo mundo já passou por algo parecido. O curioso é que os golpes nem sempre têm cara de golpe. Muitas vezes, eles se parecem com promoções legítimas ou com comunicados oficiais. E talvez seja justamente por isso que continuam fazendo tantas vítimas. Nesta edição da Lente, a repórter Carol Macário mostra como as fraudes digitais evoluíram nos últimos anos e apresenta os principais achados da nova edição do relatório A Jornada dos Golpes, publicada pelo Observatório Lupa nesta semana. Boa leitura!
Quase que semanalmente, chegam à minha caixa de mensagens conteúdos que alertam sobre notificações extrajudiciais, suspensão da minha Carteira Nacional de Habilitação (CNH) ou pendências com um suposto financiamento no Santander. Só que eu não tenho nenhum financiamento nem conta nesse banco. Por isso, é fácil perceber que os avisos são tentativas de golpe.
Mas confesso que só de ler que estou devendo na praça, fico incomodada. A primeira emoção que sinto é o medo de ter esquecido algum boleto ou de ter estacionado em local proibido. Essa incapacidade momentânea de pensar racionalmente não é à toa. Golpistas profissionais exploram justamente esse tipo de reação. Isso se chama engenharia social.
Eles usam fatos reais e o medo — de um possível processo, bloqueio de conta, multa — para provocar uma reação impulsiva, como fazer um Pix para evitar problemas que sequer existem com a justiça ou com a Serasa.
Basta uma mensagem persuasiva o suficiente para convencer alguém a fazer um Pix. Tenho certeza de que, assim como eu, você ou alguém próximo já recebeu (e talvez até tenha caído) em golpes desse tipo.
A segunda edição do relatório A Jornada dos Golpes, publicada na quarta-feira (17) pelo Observatório Lupa, mostra justamente isso. Para dar mais credibilidade às fraudes online, criminosos estão apostando em fatos reais para criar conteúdos mais convincentes. A análise de 115 checagens da Lupa sobre golpes virtuais, publicadas entre maio de 2024 e abril de 2026, mostrou que, atualmente, dois terços das fraudes usam fatos reais para parecer mais confiáveis.
Um exemplo foi o golpe da CNH Social. Criminosos aproveitaram uma lei real sobre o tema para criar páginas falsas que imitavam o portal de notícias G1 e páginas do governo. A Lupa desmentiu a fraude na época. Os golpistas misturaram duas coisas diferentes, a CNH Social e a CNH Digital — que existem e são gratuitas — para induzir usuários a preencherem uma suposta página de cadastro e pagar uma “taxa de emissão e ativação digital” via Pix.
O pagamento dessa “taxa de emissão” merece destaque porque o Pix aparece um terço das fraudes checadas pela Lupa entre maio de 2025 e abril de 2026, segundo o relatório A Jornada dos Golpes.
Os pedidos de Pix normalmente são apresentados na etapa final do conteúdo fraudulento e aparecem como uma suposta taxa de negociação de uma dívida ou para liberar brindes inexistentes, por exemplo. Isso é proposital, porque ao submeter a pessoa a uma série de formulários antes de cobrar taxas, os criminosos não só roubam dados sigilosos como geram confiança nas vítimas, que ao final se sentem convencidas a fazer um Pix.
A preferência por esse método de pagamento, tão simples e querido pelos brasileiros, se deve à rapidez das transações. Basta copiar e colar uma chave ou apontar a câmera do celular para um QR Code. Além disso, se comparado aos cartões de crédito, o bloqueio de movimentações suspeitas é menos ágil.
Por isso, nunca é demais lembrar: DESCONFIE. Se receber mensagens que:
Têm tom de urgência e provocam medo com ameaças de bloqueio de conta, multas ou processos.
Prometem ganhos fáceis ou brindes bons demais para serem verdade (normalmente, não são).
Pedem Pix no final para liberar algum benefício ou produto.
Também vale prestar atenção ao endereço eletrônico exibido na parte superior do navegador. Criminosos conseguem imitar as cores e as marcas de sites oficiais, mas o endereço de páginas fraudulentas costumam ser letras e números sem sentido.
Por fim, se por um infeliz acaso cair num golpe e fez um Pix sem querer, existem alguns passos para contestar a transação. O Banco Central criou o Mecanismo Especial de Devolução (MED) para casos de fraude. Para acioná-lo, é preciso registrar um pedido no seu banco em até 80 dias da data do Pix. Se após avaliação do banco for aprovado, o golpista terá o valor roubado bloqueado e a vítima será ressarcida. O promotor de justiça do Ministério Público de Minas Gerais, Rafael Fernandes, membro da Global Anti Scam Alliance (GASA) e revisor do relatório, reforça que as denúncias são fundamentais para a atuação da justiça. “É preciso comunicar às autoridades para que se tenha uma boa base estatística, que evidencie o crescimento e o tamanho do problema, e, com isso, se construam políticas públicas para fazer frente a isso”, afirma.
Ou seja, registrar um boletim de ocorrência é importante para que as autoridades possam fazer o trabalho delas, investigar os casos e punir os criminosos.
Sabia que as fraudes digitais seguem padrões de narrativa, distribuição e monetização? A segunda edição de A Jornada dos Golpes, relatório do Observatório Lupa, desvenda essa estrutura para você se proteger.
O Brasil foi o único país analisado em que a preocupação com desinformação diminuiu no último ano. Os dados são do Digital News Report 2026, do Instituto Reuters sobre consumo de notícias. A queda foi de 3 pontos percentuais (pp) e vai na contramão da média global, que teve aumento de 4 pp. O relatório também aponta uma mudança histórica no consumo de informação: redes sociais e ferramentas de IA (56%) superaram pela primeira vez a TV (52%) e os sites tradicionais (51%) como principal porta de entrada para notícias. Já a confiança dos brasileiros na imprensa caiu 6 pp e atingiu o menor nível da série histórica de 12 anos (36%). [Victor Terra, analista de educação]
Veículos de comunicação estão citando plataformas de apostas não regulamentadas ao lado de pesquisas baseadas em levantamentos. Este é o tema de um artigo da LatAm Journalism Review, uma revista digital publicado pelo Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, da Universidade do Texas, que cita preocupações éticas desta “nova fonte” presente nos jornais brasileiros. Críticos chamam atenção para o fato do mercado de previsões ser manipulado com facilidade e não ter metodologia para refletir o sentimento de eleitores de modo confiável. Apesar de oficialmente proibidas no Brasil, as apostas relacionadas à eleição brasileira seguem no ar em plataformas como Polymarket e também expõem a dificuldade em regular empresas não-sediadas no país. [Luiz Henrique Gomes, editor-assistente]
Para plataformas digitais como Meta, YouTube e Snapchat, a proposta do Reino Unido de proibir o acesso de menores de 16 anos às redes sociais pode gerar um efeito colateral indesejado: levar adolescentes a migrar para ambientes digitais menos seguros. Segundo as empresas, a medida pode incentivar o uso de serviços anônimos e com menor capacidade de supervisão parental, dificultando o acompanhamento das atividades dos jovens e aumentando sua exposição a riscos online. A proibição foi anunciada pelo primeiro-ministro Keir Starmer na segunda-feira (15) e segue a mesma linha de iniciativas adotadas ou discutidas em países como Austrália, Emirados Árabes e Espanha. [Ítalo Rômany, repórter]
Enquanto a Copa do Mundo movimenta torcedores nas redes, uma investigação da Maldita.es mostra como a inteligência artificial está sendo usada para sexualizar mulheres e lucrar com isso. A reportagem identificou uma rede de perfis gerados por IA que publicam vídeos eróticos em contextos ligados ao torneio. Entre eles está o perfil de uma suposta brasileira, usado para atrair seguidores e engajamento. Segundo a investigação, os conteúdos funcionam como isca para direcionar usuários a casas de apostas e plataformas de assinatura de conteúdo adulto. O caso revela como a IA está sendo incorporada a estratégias que combinam sexualização, viralização e monetização durante grandes eventos. [EM]
Nenhuma publicação

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.