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Lente · Jul 17, 2026

🔎A conta falsa da violência

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Ítalo Rômany, Ethel Rudnitzki · Lente

Oi, Evelin Mendes, editora da Lupa, aqui. Número não mente. Mas dá para mentir com números. E é justamente por isso que eles também podem virar uma ferramenta da desinformação. Nesta edição da Lente, o repórter Ítalo Romany mostra como estatísticas reais de segurança publica foram tiradas de contexto e usadas de forma enganosa para minimizar a violência contra as mulheres e reforçar narrativas antigênero, como a falsa alegação de que mulheres mataram mais do que homens no Brasil em 2024. Boa leitura!

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, é uma das principais referências para a análise da violência no país. Segundo as estatísticas, os homens continuam sendo os principais autores de crimes violentos no Brasil, tanto contra outros homens quanto contra mulheres. Nada de novo no horizonte. O feminicídio, inclusive, continua em trajetória de alta.

Mas parte desses dados foi distorcida nas redes. As publicações comparam indicadores diferentes, tiram estatisticas de contexto e tentam desacreditar políticas de gênero ou minimizar a violência contra as mulheres. Além do erro metodológico na leitura dos dados oficiais, os posts recorrem a uma narrativa misógina.

No relatório publicado neste ano,1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil – um crime de gênero cometido, em quase 80% dos casos, por companheiros ou ex-parceiros das vítimas. Ainda assim, publicações falsas passaram a afirmar que mulheres mataram mais do que homens no país, usando o próprio Anuário Brasileiro de Segurança Pública como suposta prova.

Como exemplo, no início deste mês, posts no X e no Instagram afirmavam que 3.859 homens teriam sido assassinados por mulheres no Brasil em 2024, enquanto 3.428 mulheres teriam sido mortas por homens no mesmo período. A mensagem alega, de forma enganosa, que mulheres matam mais do que homens e que a violência masculina estaria sendo ocultada.

Os indicadores destacados nesses posts, porém, não constam no Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, crimes cometidos exclusivamente por mulheres representam apenas 5% dos casos, independentemente do gênero da vítima.​ O levantamento mostra que, dos 8.009 homens assassinados em 2024, 90,4% foram mortos por outros homens.

No mesmo ano, 1.494 mulheres foram assassinadas. Dessas, 97% foram mortas por homens e apenas 1,9% por outras mulheres.

“Existe um padrão claro: homens matam mais, e matam muito mais que mulheres. Mais do que entrar em um debate sobre homens assassinados x mulheres assassinadas, precisamos com urgência discutir a centralidade dos homens na violência letal no Brasil”, afirmou o Fórum, em nota publicada nas redes.

Esse tipo de manipulação não surgiu agora.

Em março deste ano, a Lupa identificou um movimento nas redes sociais voltado a atacar políticas de enfrentamento à violência de gênero. As publicações recorriam justamente a comparações equivocadas entre os indicadores de feminicídio e de homicídio para desacreditar políticas públicas voltadas às mulheres.

Publicações apresentam cálculos equivocados para alegar que mulheres matam mais os homens – Imagem: reprodução

Os ataques ganharam força no período em que o PL da antimisoginia foi aprovado. Na ocasião, uma enxurrada de conteúdos falsos alegava, sem qualquer respaldo em dados, que o projeto provocaria demissões em massa de mulheres. Uma análise do Observatório Lupa mostrou ainda que o tema foi impulsionado por uma campanha digital coordenada por políticos e influenciadores bolsonaristas.

As mensagens afirmavam, sem contexto, que “qualquer um poderia se declarar mulher e usar isso contra terceiros” e que o projeto viraria um “instrumento para acusações arbitrárias”.

Mensagem disseminada em grupo do Telegram com potencial alcance de 33,4 mil perfis distintos. Foto: Reprodução/Open Measure

O padrão se repete: distorcem números, retiram dados de contexto e constroem uma narrativa que tenta colocar em dúvida a existência da violência de gênero ou deslegitimar políticas de proteção às mulheres.

Vivemos em um país ainda profundamente machista, e isso se reflete na violência contra as mulheres. O assassinato motivado por gênero, ou seja, pelo simples fato de a vitima ser mulheres, só passou a ser reconhecido como crime em 2015, com a Lei do Feminicídio, quando foi tipificado como crime hediondo.

Enquanto isso, o PL que criminaliza a misoginia segue parado na Câmara dos Deputados e não deve avançar tão cedo, após enfrentar resistência de parlamentares da bancada religiosa.

Deslegitimar o perigo real enfrentado pelas mulheres com base em teorias infundadas, apenas reforça a impunidade e o silenciamento. E, quando estatísticas são usadas para esconder e não revelar a realidade, a desinformação deixa de ser apenas um erro: torna-se uma ferramenta para enfraquecer o debate público e dificultar o enfrentamento da violência de gênero.

A verdade é que, enquanto o ódio contra a mulher for normalizado ou mascarado, continuaremos sendo um país que falha gravemente em garantir o direito mais básico de metade de sua população: o direito de existir com segurança.

  • A inteligência artificial também está sendo usada para reproduzir e ampliar violências de gênero. Reportagem publicada pela revista piauí mostra como os chamados erobots – avatares artificiais criados para produzir conteúdo pornográfico – utilizam imagens de pessoas reais sem autorização, violam leis de proteção de dados e reforçam estereótipos e formas de exploração contra mulheres. Mais um risco na conta das IAs. [Ethel Rudnitzki, repórter]

  • A Copa do Mundo ainda não acabou. E, além das emoções em campo, expôs como o racismo continua encontrando espaço e alcance. E ele não apareceu apenas em insultos diretos contra jogadores. O racismo também foi impulsionado por conteúdos falsos e manipulados que exploravam a origem, a cor da pele e a religião de jogadores como Kylian Mbappé, Vozinha e Lamine Yamal para alimentar narrativas discriminatórias nas redes. Se quiser entender como essas narrativas circularam durante o Mundial, vale a leitura deste artigo, que reúne os principais casos de desinformação sobre o tema. [EM]

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Read the original on agencialupa.substack.com

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