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Lente · Jul 10, 2026

🔎 A pesquisa que só existe no feed

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Gabriela Soares, Carol Macário, Luiz H. Gomes · Lente

Oi, Yara Amorim, editora-assistente da Lupa, aqui. Números carregam uma autoridade curiosa. Quando aparecem em um gráfico, acompanhados do nome de um instituto ou apresentados por um rosto conhecido da televisão, parecem ganhar ainda mais credibilidade. Talvez seja justamente por isso que as pesquisas eleitorais tenham se tornado um dos principais alvos da desinformação. Nesta edição da Lente, a repórter Gabriela Soares mostra como vídeos produzidos com inteligência artificial simulam pesquisas, imitam jornalistas e veículos de imprensa e espalham resultados inventados para milhões de pessoas nas redes sociais. Ela explica por que esses conteúdos viralizam e reúne dicas para identificar levantamentos falsos antes de acreditar — ou compartilhar. Em ano eleitoral, todo cuidado é pouco. Boa leitura!

Embora ainda haja pouca transparência sobre como funcionam os algoritmos das redes sociais, uma coisa é certa: basta demonstrar interesse por um assunto para que as plataformas passem a servir versões infinitas do mesmo tema. O objetivo é manter o usuário engajado, rolando a tela por mais alguns minutos. Ou horas.

Existe até um nome para esse fenômeno: a “toca do coelho“, uma referência a Alice no País das Maravilhas. Você entra por curiosidade e, quando menos se espera, a plataforma emenda uma recomendação na outra sobre o mesmo tema, até que tudo na sua tela passe a girar em torno daquele assunto.

Há uns dias, eu caí em uma dessas tocas.

Começou no último dia 29, uma segunda-feira. Recebi a tarefa de produzir um explicador, publicado ontem no site da Lupa, sobre como as pesquisas eleitorais são feitas e o que nós, cidadãos, precisamos observar para identificar levantamentos enganosos. A pauta surgiu depois que uma colega da redação, a editora Evelin Mendes, identificou, durante monitoramentos feitos nas redes sociais, um aumento na circulação de publicações que distorciam pesquisas eleitorais.

A Lupa desmentiu recentemente ao menos três publicações virais do gênero (1, 2 e 3). Uma delas atribuiu falsamente à pesquisa Genial/Quaest um resultado em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparecia com 65,1% das intenções de voto no primeiro turno, seguido pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), com 30,1%. Em outra, a lógica se invertia: um deepfake simulava uma reportagem do Jornal Nacional em que o jornalista e âncora César Tralli apresenta uma suposta pesquisa — sem citar qualquer instituto — em que Flávio aparece com 78% das intenções de voto, contra 22% de Lula. Nos dois casos, os números eram inventados.

Para entender como esse conteúdo circulava, fiz buscas por palavras-chave relacionadas ao tema no Instagram, Facebook, YouTube, X e TikTok. Foi nesta última plataforma que a investigação ganhou outra dimensão.

No início, apareceram apenas alguns exemplos. Mas bastaram duas ou três curtidas para que o algoritmo entendesse meu interesse. A partir dali, já não era mais eu quem procurava as falsas pesquisas. Era o TikTok que as colocava diante de mim, uma após a outra.

Em três dias, identifiquei 86 vídeos com pesquisas eleitorais falsas na plataforma. A maioria foi produzida com inteligência artificial e recorreu a diferentes estratégias para ganhar credibilidade: deepfakes de jornalistas conhecidos apresentando resultados inexistentes, candidatos com a voz clonada comentando levantamentos falsos, gráficos que imitavam pesquisas reais e até logotipos de veículos de imprensa usados sem autorização.

Ao contrário de mim, que explorava aquela “toca” com o olhar investigativo de repórter — registrando vídeos, comparando padrões e verificando informações —, um usuário desavisado pode cair no mesmo fluxo de recomendações sem perceber que nada do que é apresentado é real.

Juntos, os vídeos que encontrei acumulavam milhões de visualizações e milhares de comentários. A maioria foi produzida com inteligência artificial, mas circulava sem qualquer aviso sobre o uso da tecnologia.

Você pode conferir todos os achados, os detalhes de como esses vídeos viralizam e um guia completo para entender como avaliar pesquisas eleitorais na reportagem da Lupa. Mas deixo aqui três lições que aprendi depois de mergulhar nesse mundo de desinformação eleitoral — e que podem ajudar caso você também tropece nesse tipo de conteúdo.

1. Cuidado com o efeito de repetição

O fato de conteúdos que reforçam uma mesma narrativa — como a vitória ou a derrota de um candidato — aparecerem várias vezes na sua tela não significa que ela seja verdadeira, nem que reflita o que acontece fora daquele ambiente. Por isso, vale tentar sair da bolha do algoritmo e variar as fontes de informação.

Busque diferentes perspectivas em redes diversas e, na medida do possível, acompanhe o que é publicado por veículos de imprensa confiáveis.

2. Procure a pesquisa fora da rede social

As falsas pesquisas que encontrei tinham algo em comum: elas existiam apenas dentro do vídeo compartilhado nas redes sociais. Os números exibidos em gráficos, narrados por jornalistas ou atribuídos a institutos, desapareciam quando eu procurava a origem da informação.

Antes de compartilhar um levantamento, procure dados que indiquem sua origem e confira se a pesquisa está registrada no sistema PesqEle, do Tribunal Superior Eleitoral, que reúne os levantamentos registrados. Vale também buscar por essas informações no Google ou em portais de notícia.

Sistema do Tribunal Superior Eleitoral reúne registros de pesquisas eleitorais realizadas no país. Imagem: Reprodução.

3. Nem sempre o que você vê é real — principalmente quando deepfakes entram em cena

A maioria dos vídeos analisados usava uma estratégia recorrente: tomar emprestado a credibilidade de pessoas reais. Jornalistas apareciam apresentando números inventados, políticos surgiam comentando resultados falsos e vozes eram reproduzidas por inteligência artificial.

O rosto familiar ajuda a convencer, mas não é garantia de autenticidade. Antes de acreditar em uma fala atribuída a alguém, procure se aquele conteúdo foi publicado pelos canais oficiais da pessoa ou do veículo citado.

Nas redes sociais, nem sempre o que aparece diante dos nossos olhos é um retrato do mundo. Às vezes, é apenas o reflexo daquilo que o algoritmo entendeu que queremos ver.

Em um ano eleitoral, essa diferença pode ser decisiva. Antes de acreditar em uma pesquisa ou em qualquer informação que pareça boa demais — ou absurda demais — para ser verdade, vale fazer o caminho inverso do algoritmo: parar, desconfiar e procurar a origem daquela informação.

  • O uso da internet no Brasil saltou de 66% em 2016 para 90,5% em 2025, um aumento de quase 25 pontos percentuais em dez anos. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, a Pnad Contínua, divulgada em 2 de julho pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o telefone celular é o principal meio de acesso — 84,9% usam o aparelho para acessar as redes sociais e 89,3% para assistir a vídeos. Embora o acesso à internet tenha aumentado, ainda é desigual: 97,2% dos estudantes da rede privada utilizaram a Internet em 2025, enquanto que o uso por alunos da rede pública foi de 89,9%. Um outro dado é relevante: a preocupação com privacidade ou segurança aumentou e foi apontada como motivo por 5,3% das pessoas que não usaram internet — em 2022, esse fator foi apontado por 2,3%. [Carol Macário, repórter]

  • Uma reportagem da Agência Pública mostra que a plataforma Airbnb enviou um e-mail em massa a usuários brasileiros convocando-os a assinar uma petição contra uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) sobre aluguel por temporada. Segundo a reportagem, a iniciativa foi apresentada como um movimento espontâneo de anfitriões, mas teve apoio da empresa e integra uma estratégia de mobilização conhecida como astroturfing — prática de criar ou estimular a aparência de um movimento espontâneo de cidadãos para defender interesses de empresas, governos ou grupos organizados. [GS]

  • As autoridades da cidade de Cheyenne, nos Estados Unidos, identificaram uma contaminação no sistema de esgotos municipal causada pela água utilizada na instalação de um data center ligado à Meta, empresa controladora do Facebook, WhatsApp e Instagram. Segundo investigadores, a água continha uma bactéria chamada Cupriavidus gilardii, considerada rara e potencialmente mortal. Em resposta, a cidade revogou a autorização que permitia à Meta despejar águas residuais dos sistemas de resfriamento de data centers na rede de esgoto local, cuja água tratada é reutilizada na irrigação de parques e outros espaços públicos. [Luiz Henrique Gomes, editor-assistente]

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Read the original on agencialupa.substack.com

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