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Ada News · Mar 19, 2026

#2 Como as pessoas usam o ChatGPT e porque Zoë Hitzig deixou a OpenAI

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Emily Canto Nunes · Ada News

Arte sob foto de David Sprague do site da Zoë Hitzig

Em novembro de 2022, quando o ChatGPT foi lançado, grande parte dos usuários eram homens. Menos de três anos depois, a proporção de usuários ativos com nomes tipicamente femininos e tipicamente masculinos era praticamente igual. Em junho de 2025, as mulheres já eram 52,4%. Ao que parece, o gender gap no uso de IA ainda não é um problema. Pelo menos é isso que sugere um estudo recente sobre o uso do ChatGPT liderado por um grupo de pesquisadores, entre eles a ex-funcionária da OpenAI, Zoë Hitzig, que esteve em Stanford para apresentar os resultados. Segundo ela, que deixou a empresa em fevereiro, a OpenAI está indo pelo mesmo caminho trilhado pela Meta, de usar os dados do usuário para vender anúncios (logo mais chegamos nesse assunto).

A linha vermelha é o crescimento dos usuários com nomes tipicamente femininos.

Se, por um lado, o uso do ChatGPT entre homens e mulheres está mais parelho, há sim uma diferença nos tópicos das conversas. Usuários com nomes tipicamente femininos são relativamente mais propensos a enviar mensagens relacionadas a Escrita (Writing) e Orientação Prática (Practical Guidance), duas das sete classificações de conversas propostas pela pesquisa. Já os usuários com nomes tipicamente masculinos são mais propensos a usar o ChatGPT para Ajuda Técnica (Technical Help), Busca de Informações (Seeking Information) e Multimídia (Multimedia, ou seja, modificar ou criar imagens). As outras duas categorias utilizadas no estudo são Auto-Expressão (Self-Expression) e Outros/Desconhecido (Others/Unknown), menos expressivas que as demais para ambos os gêneros. Importante ressaltar que esses são de até julho de 2025, ou seja, antes da explosão das LLMs para “codar” como Claude Code, Codex e Google AI Studio que se tornaram as preferidas dentro dessa categoria de Ajuda Técnica.

Os tipos de uso do ChatGPT são diferentes entre homens e mulheres.

De acordo com a pesquisa, quase 80% de todo o uso do ChatGPT se enquadra em três dessas categorias: Orientação Prática, Busca de Informações e Escrita. Orientação Prática é o caso de uso mais comum e inclui atividades de aprendizado e tutoriais, conselhos sobre diversos tópicos e geração de ideias criativas. A Busca de Informações inclui a pesquisa de informações sobre pessoas, eventos atuais, produtos e receitas, e parece ser um substituto para a busca na web. A Escrita inclui a produção automatizada de e-mails, documentos e outras comunicações, assim como também edição, crítica, resumo e tradução de textos fornecidos pelo usuário.

Essa categorização conversa com outros estudos sobre AI já lançados, mas, para simplificar, Zoe e seus colegas fizeram uma nova proposta de classificação de mensagens, de acordo com o tipo de resultado que o usuário está buscando, algo que nos ajuda a entender melhor o uso do ChatGPT. Perguntar (Asking) é quando o usuário está buscando informações ou esclarecimentos para embasar uma decisão. Fazer (Doing) é quando o usuário deseja produzir algum resultado ou executar uma tarefa específica. Expressar (Expressing) é quando o usuário está expressando opiniões ou sentimentos, mas não buscando nenhuma informação ou ação. De acordo com o estudo, cerca de 49% das mensagens são Perguntar, 40% são Fazer e apenas 11% são Expressar.

Com alguma surpresa, cerca de 70% das consultas de usuários do ChatGPT não estavam relacionadas a trabalho. E embora ambos tipos de mensagens tenham aumentado, as conversas não relacionadas ao trabalho cresceram mais rapidamente.

Em julho de 2025, mais da metade das mensagens relacionadas a trabalho receberam a classificação Fazer, ao passo que três a cada quatro foram de Escrita. A frequência de conversas relacionadas à escrita faz total sentido por ser uma tarefa comum exigida por empregadores. Vale lembrar que uma característica da IA ​​generativa é justamente sua capacidade de produzir textos de formato longo. O estudo também descobriu que cerca de 81% das mensagens relacionadas ao trabalho estão associadas a duas grandes atividades:

1) obter, documentar e interpretar informações;
e
2) tomar decisões, dar conselhos, resolver problemas, e pensar criativamente.

Mensagens de tópicos não relacionados a trabalho prevalecem e crescem mais.

Além disso, as atividades de trabalho associadas ao uso do ChatGPT são muito semelhantes em diferentes tipos de ocupações, desde gestão e negócios até profissionais de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) e funções administrativas e de vendas.

No geral, o estudo descobriu que a busca de informações e o apoio à decisão são os casos de uso mais comuns do ChatGPT na maioria dos trabalhos, o que corrobora com a tese de que a IA melhora a produtividade da maioria dos profissionais de escritório. Em poucas palavras, usuários buscam uma forma de validação.

Ainda que não seja o único, o ChatGPT ainda é considerado o maior chatbot do mundo. Logo, um estudo como esse não apenas chama a atenção como se torna bastante representativo. Em julho de 2025, 18 bilhões de mensagens eram enviadas pelos 700 milhões de usuários da plataforma ou, para colocar em perspectiva, 10% da população mundial, segundo a pesquisa.

Toda a análise e classificação das conversas foi feita por computadores e todos os usuários, anonimizados. A amostra principal é uma seleção aleatória de mensagens enviadas ao ChatGPT em planos de consumo (Gratuito, Plus, Pro) entre maio de 2024 e junho de 2025, e se você quiser saber mais como eles mantiveram a privacidade dos usuários pode acessar o artigo completo aqui.

Privacidade, ou a falta dela

Esse foi o motivo que levou Zoe a deixar a OpenAI em fevereiro deste ano. Em um artigo de opinião no The New York Times ela explicou porque. Aqui um dos meus trechos favoritos da coluna que ela publicou.

Há vários anos, usuários do ChatGPT vêm gerando um arquivo de franqueza humana sem precedentes — em parte porque acreditavam estar conversando com algo que não possuía segundas intenções. Os usuários interagem com uma voz conversacional e adaptativa, à qual revelaram seus pensamentos mais íntimos. As pessoas confidenciam aos chatbots seus receios médicos, seus problemas de relacionamento e suas crenças sobre Deus e a vida após a morte. A publicidade construída sobre esse arquivo cria um potencial de manipulação dos usuários de maneiras que não temos as ferramentas para compreender — quanto mais para prevenir.

Segundo Zoe, a OpenAI está indo na mesma direção da Meta. A empresa divulgou seus princípios para a exibição de anúncios no ChatGPT, e afirma que eles serão claramente identificados, aparecendo na parte inferior das respostas e não influenciarão o conteúdo. No entanto, de acordo com ela, a empresa está construindo um motor econômico que gera fortes incentivos para contornar suas próprias regras.

Em seus primeiros anos, o Facebook (agora Meta) também prometeu que os usuários teriam controle sobre seus dados e poderiam votar em alterações nas políticas da plataforma. Não foi o que aconteceu. A empresa eliminou a realização de votações públicas sobre suas políticas há algum tempo já. Mudanças de privacidade, promovidas sob a premissa de conceder aos usuários maior controle sobre seus dados, produziram o efeito oposto, tornando informações privadas acessíveis ao público, segundo a Federal Trade Commission dos Estados Unidos. Tudo isso ocorreu de forma gradual, sob a pressão de um modelo publicitário que priorizava o engajamento acima de qualquer outro aspecto. O medo é que a OpenAI vá pelo mesmo caminho, especialmente se lembrarmos quão caro é financiar a IA.

Mas qual a solução então? Zoe sugere três possíveis abordagens:

  1. Subsídios cruzados, ou seja, utilizar os lucros de um serviço ou base de clientes para compensar as perdas de outro. Se uma empresa paga à IA para realizar, em escala, um trabalho de alto valor que antes era feito por humanos, ela deve pagar uma sobretaxa que subsidie ​​o acesso gratuito ou de baixo custo para os demais.

  2. Publicidade com governança, isto é, criar uma estrutura vinculante com supervisão independente sobre a forma como os dados pessoais são utilizados pelas plataformas. Na Alemanha a lei de cogestão (Co-determination) exige que grandes empresas, como a Siemens e a Volkswagen, concedam aos trabalhadores até metade das cadeiras em seus conselhos de supervisão.

  3. Fundo fiduciário ou cooperativa, ou seja, colocar os dados dos usuários sob controle independente de uma organização que tem o dever legal de agir no melhor interesse dos usuários.

Falando em privacidade, você sabia que tem como ajustar as configurações no ChatGPT, no Claude, no Perplexity e no Gemini para que eles não usem seus dados para treinar seus modelos? Se você não fez esse ajuste saiba que todas as suas conversas estão sendo usadas para treinar sistemas de IA, que eles estão armazenando suas mensagens e aprendendo sobre você.

Bora me ajudar a chegar a 100 mulheres respondendo a esta pesquisa?

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Read the original on adanews.substack.com

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