Como já era de se esperar de uma temporada no Vale do Silício, tudo gira em torno da Inteligência Artificial. Não faltam aulas, palestras, workshops ou, simplesmente, conversas sobre IA por aqui. Até a aula de antropologia que estou fazendo tem IA no nome: “Ghosts, Gods, Spirits, and Companion AI: Talking with Non-Human Others Across the World”. Mas antes que você se assuste com a afirmação no título, quero esclarecer que não estou de forma alguma dizendo que você precisa aprender programação, especialmente agora que metade do mundo diz que programadores serão substituídos pela IA. Mas que sim, a lógica por trás do vibe coding pode ser muito útil no seu trabalho e no seu aprendizado sobre o assunto.
O mais interessante do workshop de desenvolvimento de produto em IA que eu fiz por aqui foi justamente aprender fazendo. Pode ser geracional, mas para mim essa é a melhor forma de entender as ferramentas (no fim do dia, a IA é uma ferramenta – super, hiper, mega, blaster poderosa, mas uma ferramenta). Então basicamente minha proposta é compartilhar um pouco desse processo e o que eu aprendi com vibe coding.
Bom, para começar, você precisa de uma ideia. Eu acredito que todo mundo tem uma boa ideia. Talvez você não saiba quem se interessaria por ela; talvez você tenha um ótimo insight, mas o mundo não esteja pronto para isso – parece absurdo, mas acontece, especialmente na tecnologia; ou talvez sua ideia apenas esteja em um estágio inicial. Para isso, você também pode usar a IA. Não precisa ser uma ideia de negócio ou de produto. Pode simplesmente ser uma melhoria de processo ou algo que você entenda que pode solucionar algum problema.
Como vocês já sabem, eu tenho uma ideia de aplicativo de divisão de tarefas dentro de casa em que a unidade de medida é o tempo. Já desenvolvemos uma versão, mas eu queria ver onde a IA chegaria com essa ideia. O primeiro passo foi então usar o modo social do Perplexity AI (aliás, se você é cliente Vivo, grandes chances de ter um ano de assinatura grátis como parte do seu plano) para encontrar na Internet algo que me ajudasse a desenvolver minha ideia de aplicativo. É só ir no + e, dentro de Conectores e fontes, marcar as outras opções que você deseja que ele considere ao fazer a pesquisa. Você também pode apenas usar um @ para marcar as fontes, como você faz com seus amigos no Instagram. Como eu sou nerd, pedi para ele consultar não apenas na Internet, mas em Social e também em pesquisas acadêmicas.
O meu primeiro prompt foi: quero desenvolver um aplicativo que registra as atividades dentro de casa e que usa o tempo como unidade de medida com o objetivo de trazer mais equidade para as relações. O que você pode me oferecer de argumentos?
Ele me trouxe os argumentos bem desenvolvidos em 5 categorias:
Argumento social: visibilizar o trabalho invisível
Argumento psicológico: reforçar empatia e reconhecimento
Argumento tecnológico: dados como ferramenta de transformação
Argumento ético: equidade como princípio do design
Argumento econômico: valorização do tempo como moeda
Como sou jornalista, pedi mais detalhes de algumas fontes e me deparei com algumas surpresas interessantes, como, por exemplo, discussões a respeito do trabalho doméstico das mães ser considerado no cálculo das pensões alimentícias em casos de divórcios. E até uma decisão da 2ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR), que adotou uma perspectiva de gênero para arbitrar o valor da pensão alimentícia, considerando o “capital invisível” investido pela mulher no trabalho doméstico não remunerado. Deu até um quentinho no coração, não é mesmo?
Seguimos conversando, e pedi para ele me ajudar a pensar em potenciais clientes para além de casais formados por duas pessoas. Ele me trouxe famílias com filhos, pessoas que dividem moradia e até terapeutas de casais que poderiam se beneficiar dos dados como material de apoio ao tratamento. Ousado.
Foi então que partimos para um prompt que achei super interessante: criar um agente a favor da ideia e outro contra, e colocá-los para debater. É possível ver toda a argumentação da conversa. Ao final, eu pedi pra ele me listar quais recursos não podem faltar no meu app. A lista enxuta de funcionalidades veio com 10 sugestões. Quando eu pedi para o bot incluir Inteligência Artificial na equação, ele me trouxe outras 10 ideias de como usar IA no aplicativo. Vou te dizer que ideia é o que não falta, mas como a dica de quem desenvolve produto é sempre começar como um MVP (Minimum Viable Product), continuei a conversa pedindo pra ele me ajudar com o que seria necessário para criar um MVP.
Eu poderia ter continuado no Perplexity, mas como a ideia era testar várias LLMs, migramos para o Gemini para experimentar uma outra função que é bem interessante se você quiser um assistente. É a mesma função existente no ChatGPT, só que no modelo da OpenAI chama GPT e no do Google chama Gems. GPT ou Gems, esse recurso permite que você crie uma versão especializada do modelo, com instruções específicas, um papel definido e arquivos ou ferramentas adicionais. Por se tratar de um aplicativo (e por indicação da professora, claro) eu criei um Gem que é um gerador de PDR (Product Requirements Document), um documento normalmente criado por gerentes de produto para definir o propósito, os recursos, a funcionalidade e as métricas de sucesso de um produto. E o que faz esse Gem ou GPT? Basicamente ele preenche o PDR para você a partir das informações enviadas. Mas que dados são esses? Toda a minha conversa com o Perplexity AI sobre meu app de divisão de tarefas baseado em tempo. Com um template em mãos e todos os argumentos construídos com IA eu pedi para meu Gem criar um PDR (templates aqui).
A partir daí foi pegar o PDR e jogar em algumas plataformas como Google AI Studio, v0 e Lovable para ver quem se saía melhor. Quanto mais informações você compartilhar, melhor será seu protótipo. Qualquer LLM funciona melhor se você não apenas trabalhar no prompt, mas também trazer contexto sobre o que está sendo feito. Ou seja, você pode compartilhar exemplos de aplicativos que gosta, enviar a paleta de cores, ou mesmo conversar com o LLM para ela ir ajustando o aplicativo conforme você deseja. Ao final do processo, você pode publicar o app e pedir para as pessoas testarem.
Aqui vale uma observação: eu não sou programadora, então não sei conectar com APIs ou mesmo fazer tudo necessário para garantir a segurança do aplicativo. Mas como eu falei mais cedo, a ideia aqui não é me tornar uma desenvolvedora, mas usar a lógica do vibe coding para prototipar ideias, seja de um app, de um site.
O Claude explicou bem: A grande virada do vibe coding é que ele desloca a barreira de entrada: o profissional passa a descrever o que quer em linguagem natural, e a IA traduz isso em código. O conhecimento de domínio (jornalismo, marketing, finanças, saúde) vira a principal vantagem — não mais a sintaxe de programação.
Alguns exemplos do que dá pra fazer, segundo meu amigo Claude:
Automação de tarefas repetitivas, como organizar arquivos, gerar relatórios e enviar e-mails automáticos.
Criação de ferramentas internas sob medida, como dashboards, calculadoras de precificação e formulários.
Análise de dados sem depender de um analista — cruzando planilhas, gerando gráficos e até raspando informações de sites.
Prototipagem rápida de ideias digitais, como MVPs, landing pages e fluxos de aplicativo.
Automação de comunicação, com bots, newsletters dinâmicas e publicações agendadas.
Eu não saí dessa experiência com um app pronto, mas sim com várias ideias de funcionalidades, sugestões de interfaces e exemplos de como evoluir o meu app. Ou seja, em breve, o Dojo Mojo vai estar na loja de aplicativos mais próxima de você. Para mim vibe coding é isso, uma forma de empoderamento frente à tecnologia.
Cinco links que eu vi por aí e que você pode se interessar:
Andrej Karpathy, o cara que cunhou o termo vibe coding, disse que não existe mais “business as usual” no setor de software, graças à IA. [ENG]
Esse desenvolvedor, por outro lado, contou como foi sua experiência em tratar o Google Studio AI como um colega. É interessante e engraçado ao mesmo tempo. [ENG]
A Anthropic recentemente promoveu um hackathon e os ganhadores não foram pessoas que sabem como escrever um código. [ENG]
5 casos de usos que qualquer empresa pode começar a experimentar hoje com vibe coding [ENG]
Desembargador esqueceu um prompt de IA na decisão que absolveu um homem por estupro de criança em MG.
Se você ainda não respondeu a pesquisa sobre seu interesse em tecnologia, ainda dá tempo, o link tá aqui. Manda para as amigas, queremos chegar em 100 pessoas!
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