O lado bom de estar vivendo esse boom da IA (ou seria bolha?) é acompanhar os debates que estão sendo feitos a respeito do seu impacto. O lado ruim, enquanto mulher, é perceber que o buraco é muito mais embaixo do que a simples adoção da tecnologia. Longe de mim querer soar pessimista, até porque na última newsletter eu compartilhei alguns resultados de uma pesquisa da OpenAI falando que o uso do ChatGPT por homens e mulheres estava na casa do 50/50, mas um texto recente alugou um triplex na minha cabeça e me apresentou um termo novo: “Two-tiered AI economy”. Esse conceito não é novo, mas apareceu recentemente em um artigo da Fortune sobre mulheres estarem evitando tecnologias que as ameaçam.
Basicamente, o artigo sugere que o acesso e o valor gerado pela inteligência artificial, leia-se GenIA, estão se dividindo em dois grupos bem distintos, e que a IA não está beneficiando todo mundo igualmente. Pelo contrário, ela está criando dois “mundos” dentro da economia digital: os do topo e os da base. No topo estão as Big Techs, outras empresas com acesso a infraestrutura e dados e países ou organizações com forte investimento em IA. São eles que desenvolvem os modelos. Na base estão as empresas que consomem IA via API, por exemplo, pequenos negócios e profissionais e países com menos infraestrutura e que, por consequência, dependem da boa vontade de quem controla a tecnologia.
Sabe quem mais está no topo? Sim, os homens.
Esse artigo me levou a outros 15 links, que me trouxeram mais clareza de porque precisamos falar desse assunto já. Um dos estudos resume bem os desafios:
As mulheres são maioria em cargos administrativos, burocráticos e de serviços que podem ser impactados pelas tecnologias de IA. Na real, uma outra matéria da Fortune cita um relatório da ONU que diz que a IA tem quase três vezes mais probabilidade de tomar o emprego de uma mulher do que o de um homem.
As mulheres ainda são sub-representadas nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (ou STEM, na sigla em inglês), o que significa que elas, no geral, têm menos acesso a empregos bem remunerados relacionados à IA e a cargos de liderança, sobretudo nessas empresas.
Além disso, já existem registros de que os sistemas de IA são treinados com conjuntos de dados enviesados que discriminam em áreas como contratação, concessão de crédito e saúde, reforçando desigualdades e estereótipos de gênero.
Ao meu ver, sozinhas essas três constatações já são bem desafiadoras. Mas, de acordo com o estudo “Explicando o ceticismo das mulheres em relação à inteligência artificial: O papel da orientação ao risco e da exposição ao risco” (tradução livre), a atitude das mulheres frente às novas tecnologias cria um outro obstáculo. Dados anteriores sobre mudanças tecnológicas demonstram que as mulheres expressam maior ceticismo do que os homens quanto à adoção de tecnologias de automação. O que o estudo fez foi focar nesse fato anteriormente negligenciado: o risco. Segundo os pesquisadores, há dois componentes principais – a exposição ao risco e a orientação ao risco – que tornam as mulheres mais céticas em relação aos benefícios da IA, logo, mais reticentes.
A maneira como uma pessoa lida com situações de risco depende não apenas de fatores do ambiente externo, mas também de sua tolerância geral para fazer escolhas ousadas. E as mulheres demonstram, de forma consistente, uma orientação a risco inferior à dos homens, o que pode reforçar ainda mais a hesitação feminina diante de tecnologias cujas consequências são incertas. Não sou eu que estou dizendo, heim.
Medo de se jogar ou medo de ser julgada?
Um outro estudo, de Harvard, Berkeley e Stanford, com o título “Evidências Globais sobre Lacunas de Gênero e IA Generativa” (tradução livre), sugere que as mulheres se preocupam mais com a ética do uso dessas ferramentas. Isso até que é bom, o problema é que elas também temem ser julgadas pelos colegas de trabalho por dependerem da IA. E esse medo não é infundado, não, viu?
Outra pesquisa, cujo artigo foi publicado na Harvard Business Review, menciona uma pesquisa feita com 1.026 engenheiros, no qual os participantes avaliaram um trecho de código Python que teria sido escrito por outro engenheiro, com ou sem o auxílio de IA. O código em si era idêntico em todas as condições, só mudava o método. Quando os avaliadores acreditavam que um engenheiro havia utilizado IA, eles classificavam a competência desse profissional, em média, 9% abaixo do nível atribuído em outros casos. Se esse engenheiro fosse mulher ou uma pessoa mais velha essa penalização era ainda mais severa. Por que isso acontece?
O termo para isso é “social identity threat”, ou ameaça à identidade social. Quando membros de grupos estereotipados, como mulheres na área de tecnologia ou trabalhadores mais velhos em campos dominados por jovens, utilizam a IA, isso reforça as dúvidas existentes sobre a competência deles. Logo, o suporte dado pela IA é apresentado como uma “prova” da sua inadequação, e não como um uso estratégico.
Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
Mas se a IA está criando dois mundos, por que os de cima estariam preocupados com quem está embaixo? Bem, porque no final do dia todos precisam fazer a economia girar. É o que diz um dos pesquisadores:
Mulheres podem enfrentar dificuldades para progredir em suas carreiras se não aumentarem sua produtividade, o que, em última análise, amplia a desigualdade de gênero em termos de remuneração e oportunidades de trabalho.
Empresas e a economia podem perder potencial de crescimento. A produtividade como um todo poderia ser prejudicada. Ou seja, se as mulheres não são produtivas tanto quanto poderiam ser, a economia pode ser impactada e não crescer tanto quanto possível.
A IA pode ficar sem a contribuição das mulheres. Os grandes modelos de linguagem que sustentam a IA generativa melhoram à medida que adquirem novas informações, não apenas a partir de fontes de dados, mas também por meio dos comandos inseridos pelos usuários. A ausência de contribuições femininas poderia resultar em sistemas de IA que reforçam estereótipos de gênero e ignoram as desigualdades que as mulheres enfrentam em diversos aspectos, desde a remuneração até os cuidados com os filhos. Ou seja, pode virar aquele caso da Apple que criou um aplicativo de saúde sem ciclo menstrual.
Se o que falta para você começar a estudar IA é inspiração, saiba que mulheres CEOs lideram nove das empresas listadas na Fortune AIQ 50, um ranking com as principais empresas da Fortune 500 e seus avanços na adoção da inteligência artificial. Segundo a publicação, elas representam 18% da lista AIQ, em comparação com os 11% de todas as empresas da lista Fortune 500 de 2025 que são comandadas por mulheres.
Bora, galera mulheres!
Aproveito e deixo aqui três perfis de mulheres que falam sobre IA:
Ana Freitas, de quem sou fã desde a época do jornalismo, que ensina a usar IA no dia a dia com inteligência, responsabilidade e sem terceirizar o raciocínio.
Ana Paula Mofarrej, Ex-Microsoft, Ex-Meta que traz dicas para aumentar produtividade c/IA;
Gi Blanco, também ex-Meta e ex-Globo, que te ajuda a transformar seu marketing digital com IA.
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