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Ada News · Jun 4, 2026

#7 Déjà-Vu Frenesi: a IA está deixando as esposas nos EUA tristes de novo

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Emily Canto Nunes · Ada News

Estar vivendo no Vale do Silício, no berço da Inteligência Artificial, tem seus prós e contras. Se, por um lado, é super interessante estar bebendo da fonte, por outro lado dá uma sensação de que estamos sempre atrasadas. Spoiler: estamos, assim como todo mundo. Até quem está trabalhando nessas empresas está com dificuldades de acompanhar as mudanças, acredite em mim.

Recentemente, participei de uma imersão com o pessoal da StartSe e tive a oportunidade de visitar a OpenAI (Chat GPT) e a Anthropic (Claude), e de escutar o pouco que eles têm a dizer para outros mercados fora dos Estados Unidos. O Brasil pode até ser um dos países de maior adoção de IA, mas o foco agora está em casa.

A perspectiva de que OpenAI, Anthropic e SpaceX (empresa da xAI e, por consequência, do Elon Musk) saiam com seus IPOs (Initial Public Offering, em inglês) ainda este ano deixou os analistas de mercado em polvorosa, estimando valores que são de tirar o fôlego. A expectativa é que a oferta pública inicial de ações dessas empresas chegue na casa dos trilhões e que novos ricaços nasçam desse processo.

A euforia é tanta que as preocupações com uma bolha de IA já foram parar em segundo plano segundo esse artigo da Associated Press. Alguns especialistas temem que as empresas de tecnologia e de capital de risco estejam investindo muito dinheiro em algo ainda nascente e com pouca comprovação. O mercado, porém, não mostra essas mesmas preocupações. E, ao que parece, essa empolgação é mais masculina do que feminina. E aqui estou falando de um recorte bem específico, que é a tal da Bay Area de São Francisco, onde a Inteligência Artificial desencadeou conflitos familiares e um novo termo foi criado: “Sad Wives of AI”, ou simplesmente esposas tristes por causa da IA.

O termo foi criado por Alessandra Ram, jornalista e podcaster que vive em Berkeley com seu marido que trabalha com IA, uma filha pequena e um cachorro fofo. No texto publicado na WIRED ela fala como a IA está afetando a vida doméstica, especialmente em casais heterossexuais de classe média alta no Vale do Silício. Os homens estão totalmente obcecados pela IA, seja porque trabalham no meio ou porque estão em busca de trabalho no meio, enquanto as parceiras ficam sobrecarregadas com casa, filhos e cachorros.

Quero ver a IA levar minhas cachorras para passear.

Aparentemente, é realmente um fenômeno por aqui. Ela menciona até uma trend infame no TikTok em que mulheres jovens aparecem na frente dos seus laptops ou fazendo maquiagem com a seguinte legenda: “Trabalhando tanto para que meu homem possa trabalhar em sua startup de IA que perde US$30 mil por mês”.

Sad, but true.

Para Yana van der Meulen Rodgers, titular da cadeira de Estudos do Trabalho e Relações de Emprego na Universidade Rutgers citada no artigo da Wired, essa história é mais antiga do que o próprio Vale do Silício. Todo boom tecnológico produziu o mesmo personagem, normalmente um homem que se entrega por inteiro à febre do momento.

Durante a Revolução Industrial, foi o operário da fábrica. Durante a Corrida do Ouro nos Estados Unidos, foram os homens que deixaram suas famílias e rumaram para o oeste. Durante o boom das PontoCom, foram os fundadores que dormiam debaixo de suas mesas. Agora, é a pessoa que está construindo, construindo, sempre construindo algo com IA, convencida de que se parar por cinco minutos vai perder o bonde. Economistas chamam isso de “trabalhador ideal”, Rogers chama de armadilha, pois se por um lado ele se entrega por completo a essa nova força, por outro, sobra menos tempo para o parceiro ou parceira, e sobra menos tempo para o trabalho de cuidado.

Segundo ela, o que está acontecendo nos lares da Bay Area não é apenas uma questão de estilo de vida. É uma questão de mercado de trabalho. O boom da IA, diz Rodgers, está criando uma “tempestade perfeita” de forças que modelam a dinâmica familiar, e seguem o curso dos rios, previsivelmente marcados pelos vieses de gênero.

“Isso não é uma questão de gênero ‘per se’, sugere Rodgers, “mas sim das ocupações que as mulheres exercem”. Como já falamos por aqui, as mulheres hoje ocupam majoritariamente empregos que, neste momento, são menos tecnológicos, mas que ao mesmo tempo serão os mais impactados. O resultado pode ser uma desvantagem acumulativa, diz ela. Porque, com o passar do tempo, isso significa menos acesso às recompensas financeiras vindo do boom da IA (não apenas altos salários e cargos, mas ações distribuídas aos funcionários dessas empresas) e mais responsabilidade pelo trabalho doméstico que ele gera.

Ao que parece esse ainda é um fenômeno isolado, mas igualmente preocupante. Espero que essa não seja a realidade de nenhuma mulher que me lê, e que tampouco ela seja a pessoa que só pensa em IA enquanto seu/sua companheiro/a cuida das crianças, da casa ou dos cachorros. Em essência, estamos vivendo, um Déjà-Vu Frenesi como diria minha amada Letrux. Não é a primeira vez que atravessamos uma revolução tecnológica, e provavelmente não será a última, mas seria melhor que a IA não criasse outra lacuna entre homens e mulheres.

Fear of Falling Behind

Esses dias escutando o episódio do Vibes em Análise sobre Compulsão Digital fiquei pensando no quanto deveríamos estar menos ansiosos com a IA, homens ou mulheres. Ou pelo menos tentar. Nesse episódio, eles falam de como esses comportamentos compulsivos no ambiente digital são majoritariamente masculinos: apostas esportivas, jogos de azar, trade especulativo como os que estão rolando no Kalshi e Polymarket. E de que dessa necessidade de performar, de se comparar com seus pares, de vencer nasce uma nova síndrome, a qual eles começaram a encontrar no consultório, e que o Lucas Liedke nomeou de algumas formas bem interessantes:

Transtorno do déficit de atualização.

Neurose de performance tecnológica.

Angústia da obsolescência.

Ou, a nova versão do FOMO, o FOFB: Fear of Falling Behind

“Como assim, você ainda não integrou todos os seus arquivos com o Claude?”

Calma, Claudia. E não estou dizendo isso apenas por dizer, mas porque esse foi meu maior aprendizado vivendo no Vale do Silício e tendo a oportunidade de não apenas visitar, mas também conversar com alguns profissionais da OpenAI e da Anthropic. Não se desespere, está tudo mudando tão rápido que é praticamente impossível dizer quem está à frente de quem está para trás. É claro que é importante acompanhar essa revolução, aprender e estar preparada para ela, de preferência ganhar dinheiro com isso tudo, mas sem deixar de passar tempo com as pessoas que você ama.

No meu caso, passear com três cachorras.

Ainda não tem IA que substitua um cachorro abanando o rabo de felicidade.

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Read the original on adanews.substack.com

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